EMISSÃO VOCAL

por Susana Vale

No seu livro On the art of singing, Richard Miller (1996) descreve uma observação ocorrida durante uma aula de Canto, onde surgiu um problema pedagógico o qual ilustra o que acontece frequentemente neste contexto.

Um aluno, um jovem barítono de 19 anos, apresentava um timbre vocal muito nasalado. Por conseguinte, o professor, através de várias alternativas, tentou tirar a nasalidade exagerada da voz do seu aluno, pedindo-lhe para colocar o som de diferentes formas, mas sem sucesso.

Finalmente, quando nenhuma das indicações feitas ao aluno produziu o efeito desejado e o professor já não sabia como resolver este problema, decretou que só podia tratar-se de uma questão de apoio e pediu ao jovem cantor para que apoiasse mais. Todavia, o resultado sonoro continuava a ser nasal.

De acordo com Miller, as noções abstractas, tanto de colocação como de apoio, não podem ser fundamento para resolver problemas funcionais da técnica vocal, e queixa-se de que o pedido, por parte de alguns professores de canto, para que o estudante apoie mais, seja a única solução que apresentem.

Para o autor, o professor, neste caso, por não ter as informações específicas sobre as causas fisiológicas e acústicas da nasalidade, não pode esperar saber como eliminar o som nasalado da voz do seu aluno. Portanto, segundo Miller o caminho para resolver as diferentes questões da técnica vocal, encontra-se, em parte, no conhecimento minucioso da fisiologia vocal.

É uma realidade que na pedagogia do canto não só foram cunhadas várias metáforas com o objectivo de auxiliar o aluno, como também continuam a ser criadas mais metáforas, indiscriminadamente. A origem do uso destas metáforas poderá ter tido dois motivos: a necessidade de não confundir o estudante com descrições complexas de um mecanismo determinado da técnica vocal e a falta de fundamento científico sobre a fisiologia vocal.

Como indica Manuela de Sá (1997) os profissionais de canto, sejam eles professores, alunos ou já cantores em carreira, devem aliar à sua formação intuitiva outros conhecimentos. Devem querer sempre saber mais, para fazer melhor.

São vários, e de várias ordens, os factores que concorrem para a fonação óptima e eficaz. Para além de uma laringe muscularmente versátil, espaço temporo-mandibular amplo, boa mobilidade do palato mole, boa ventilação pulmonar, bom controlo respiratório, boa adaptação física às diversas frequências exigidas, o cantor precisa também de reunir várias condições intelectuais, de memória, sentido de proporção, sensibilidade auditiva, conhecimento de idiomas, incessante vontade de conhecer o plano artístico, humanista e científico do mundo que o rodeia.

O trabalho global e individual dos músculos da laringe corresponde a um progresso que conduzirá à flexibilidade de todas as articulações e ao coordenar perfeito e natural dos movimentos saudáveis da laringe e, consequentemente, das pregas vocais.

A prega vocal é constituída por elementos que lhe conferem uma estrutura dupla: um corpo e uma cobertura. O corpo é formado pelo músculo vocal, que pode ser considerado rígido no momento da fonação, tanto pela adução e tensão das pregas vocais, como pela contracção do próprio músculo vocal. A cobertura é a mucosa da prega vocal, formada pelo epitélio e pela camada superficial da lâmina própria (espaço de Reinke).

Como são frouxamente conectados ao ligamento e ao músculo vocal, apresentam grande mobilidade e elasticidade. A transição é formada pelas camadas intermediária e profunda da lâmina própria (ou ligamento vocal). Desta forma, embora o corpo seja uma estrutura rígida, tem-se uma cobertura extremamente móvel, capaz de vibrar sob acção do fluxo aéreo expiratório.

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Técnica vocal