Duarte Costa, produtor e divulgador de jazz, créditos Orlando Moreira

Duarte Mendonça

Produtor . Divulgador

Duarte Mendonça (Lisboa, 05 de fevereiro de 1931 – Cascais, 13 de agosto de 2021) foi um histórico divulgador de jazz, produtor e fundador do Estoril Jazz.

A Duarte Mendonça se devem diversos festivais, alguns deles produzidos com Luís Villas-Boas: Cascais Jazz, Jazz Num Dia de Verão, Estoril Jazz, Galp Jazz. Foi também central na formação dos músicos, para o que contribuiu com os célebres Cursos Projazz.

Biografia por João Moreira Santos

Há uns anos, fui autor de um livro sobre Duarte Mendonça. Pouco tempo depois, escrevi esta pequena biografia que aqui partilho para ilustrar a sua notável obra em defesa do Jazz e da cultura musical.

Natural de Lisboa, onde nasceu a 5 de Fevereiro de 1931, no seio de uma família oriunda de Olhão e sem qualquer tradição na música, começou a interessar-se pelo jazz aos quinze anos.
Foi atraído inicialmente pelas grandes orquestras de swing de Glenn Miller e Harry James e, posteriormente, pelas orquestras de Count Basie, Tommy Dorsey e Duke Ellington.

O contacto com essas formações, e também com os grandes mestres do boogie woogie, realizava-se principalmente através da AFN – American Forces Network, uma estação de rádio sediada na Alemanha pelo exército norte-americano, da emissora Voice of America e do programa Hot Club no Rádio Club Português.

Só posteriormente surgiu a paixão pelos discos, muitos dos quais encomendava de Inglaterra ou dos EUA através de familiares e amigos, nomeadamente Gérard Castello Lopes, que o expôs àquele que foi deste então o seu grande ídolo musical, Charlie Parker, e o apresentou ao Hot Clube de Portugal.
Nos anos 1950, assistiu no Palm Beach, em Cascais, ao seu primeiro concerto de jazz ao vivo, mas o espectáculo mais marcante teve lugar no Festival de Jazz de Antibes, ao qual se deslocou propositadamente em 1963, aí assistindo à estreia europeia do novo quinteto de Miles Davis.

Profissionalmente, trabalhou fundamentalmente no sector automóvel, tendo colaborado nas empresas SOREL (Opel) e Ford Lusitana, e também na Valentim de Carvalho e na firma Azevedo e Silva.

Em 1974, foi convidado por Villas-Boas a colaborar no Cascais Jazz, dando início a uma parceria que permaneceu inalterada até 1988 e produziu vários festivais em Portugal (Figueira da Foz, Espinho, Algarve, Cascais e Lisboa) e diversos concertos isolados com Bill Evans e Eddie Gomez (1975), Art Blakey e os Jazz Messengers (1979), Horace Silver (1980), Stan Getz e Sonny Stitt (1981), Dexter Gordon (1982) e Gary Burton (1983).

Em 1982, esteve na origem do festival Jazz Num Dia de Verão e em 1990, já desfeita a parceria com Villas-Boas, fundou o Estoril Jazz (1990-2015) e o Galp Jazz.

Nesse mesmo ano de 1990, destacou-se com a criação dos Cursos Internacionais Projazz, a primeira grande iniciativa pedagógica realizada em Portugal na área do jazz. Através desses cursos, que tiveram uma segunda edição em 1991, vários músicos portugueses puderam aprender e trocar experiências com notáveis como Clark Terry, Kenny Burrell, Rufus Reid, Barney Kessel e Reggie Workman.

Da sua actividade como produtor fazem ainda parte o festival Women in Jazz (1996 e 1997), várias co-produções com o Centro Cultural de Belém e Culturgest, e a contratação para o Casino Estoril de muitos dos grandes nomes do jazz, e não só, que aí se apresentaram a partir da década de 1980, nomeadamente The Manhattan Transfer (1989), Glenn Miller Revival Orchestra (1989), Michel Legrand (1990), George Benson (1990), Tony Bennett (1998) e Paul Anka (2006).
Em 2008 e 2009, co-produziu com João Moreira dos Santos o festival Allgarve Jazz, evento que trouxe a Portugal músicos como Herbie Hancock, Chick Corea, Gary Burton, Dee Dee Bridgewater, Freddie Cole e The Manhattan Transfer.

Duarte Mendonça divulgou também o Jazz na televisão, na RTP, o que fez em parceria com Luís Villas-Boas e através de três programas, todos emitidos na década de 1980: Jazz Magazine, Clube de Jazz e Jazz para Todos.

Em reconhecimento pelo seu papel na promoção do jazz em Cascais, em 1996 foi distinguido com a Medalha Municipal de Mérito Cultural, à qual se somou em 2004 a Medalha de Mérito Cultural, distinção atribuída pelo Ministério da Cultura por ocasião do seu 30.º aniversário como produtor de jazz.

A sua intensa actividade produziu várias estreias em Portugal, incluindo músicos como Red Rodney, The Manhattan Transfer, Michel Legrand, George Benson, Marcus Roberts, Barney Kessel, Terence Blanchard, Sheila Jordan, Lionel Hampton, Ahmad Jamal, Joshua Redman, Brad Mehldau, George Shearing, Mulgrew Miller, Jon Hendricks, Dianne Reeves e Diana Krall.

Por sua iniciativa, actuaram em Portugal cerca de 25 das maiores big bands estrangeiras, incluindo as de Gil Evans, Thad Jones/Mel Lewis, Count Basie, Woody Herman, Bill Holman, Dave Holland e a Lincoln Center Jazz Orchestra, de Wynton Marsalis.

Testemunhos

Antonio Torres Olivera

A notícia da morte de Duarte Mendonça causou-me uma grande saudade e um vazio deixado por alguém que foi importante para a história do jazz em Portugal mas também a de Sevilha pela grande ajuda que nos prestou para organizar o Festival Internacional de Jazz de Sevilha. (Antonio Torres Olivera)

Ele e o saudoso Villas-Boas, constituíram a dupla que organizou o conjunto de 3 festivais considerado o mais antigo e pioneiro de Portugal: Cascais Jazz, Estoril Jazz e Jazz numa noite de Verão. (David Martins)

Maria Viana

Homem de Cultura Jazzista como poucos, produtor de grandes e saudosos festivais e concertos, o público deve-lhe muito. Os workshops que organizou deram oportunidade aos músicos portugueses que também muito lhe devem. O Jazz fica pobre com a saída de cena de Personalidades assim. (Maria Viana)

Duarte Mendonça com Tony Benett

Duarte Mendonça com Tony Benett

João Moreira Santos

Faleceu hoje de madrugada, aos 90 anos, o histórico produtor Duarte Mendonça, de quem tive o privilégio e a honra de ser amigo e colaborador, e com quem aprendi tudo o que sei sobre produção e muito do que sei sobre o Jazz e a sua história.
O Jazz em Portugal fica mais (muito mais) pobre e o meu círculo de amigos também. (João Moreira Santos)

Francisco Sassetti Corrêa

Em Junho de 2012, recebi um curto e-mail que dizia qualquer coisa como: “Olá Francisco, sou o Duarte Mendonça e convivi intensamente com o seu tio na década de 1985-1995. Tenho várias fotografias dele tiradas no Jazz Num dia de Verão. Ligue-me para falarmos sobre este assunto”.

Alguns dias depois, passámos umas duas ou três horas em casa dele a falar sobre jazz, sobre o Bernardo e sobre muitas outras coisas (lembro-me que ficou entusiasmado porque tínhamos um carro da mesma marca!). Ofereceu-me o “seu” livro (escrito pelo João Moreira dos Santos) e, uns dias depois, enviou-me as fotografias do Bernardo.

Foi o único contacto que tive com o Duarte Mendonça, mas ainda hoje me lembro da generosidade com que me recebeu (eu ainda não tinha trinta anos, programava concertos só há dois ou três, e estava prestes a ir trabalhar para fora de Portugal; ele era dos programadores/produtores de jazz com mais história do país), da paixão imensa pelo jazz e das palavras sentidas sobre o Bernardo (que tinha morrido umas semanas antes). (Francisco Sassetti Corrêa)

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