CANTIGAS DE RODA NA MUSICOTERAPIA

por Benita Michahelles

Excerto da monografia apresentada por Benita Michahelles ao Curso de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música sob a orientação de Marly Chagas.

Pode parecer curioso para alguns falar-se em “brincadeiras de roda” nos dias de hoje. Em tempos, em que estas manifestações da cultura popular espontânea estão com o seu espaço tão reduzido. Nas ruas, nas praças, nos quintais está mais raro ver ou ouvir-se das bocas infantis aquelas canções que, na simplicidade das suas melodias, ritmos e palavras, guardam séculos de sabedoria e a riqueza condensada do imaginário popular.

Porém, sem estarem em alta, também não estão extintas. E configurando uma situação contrastante e quase contraditória – é certo que muitas vezes tendo partes omitidas ou formas esquecidas e transformadas, elas sobrevivem à era do computador. Talvez como um reflexo da busca do contacto com a expressão genuína e ancestral que é, em última instância, insubstituível.

O facto é, que toda esta conjuntura não altera em nada o teor valoroso intrínseco às cantigas e brincadeiras de roda. Elas continuam contendo símbolos fecundadores de toda a vida subjetiva, e continuam a funcionar como pretextos maravilhosos para a criança experimentar o seu corpo, a linguagem, e para descobrir-se a si própria ao mesmo tempo que se revela ao outro e se insere no convívio social.

Na sua obra, Carl Jung já chamava atenção para a enorme importância das manifestações do folclore tradicional, apontando para a ‘perda irreparável’ que sofrem aqueles que descartam ou desprezam as suas imagens.

Observando um grupo de crianças brincando espontaneamente com estas canções, ou, mergulhando no tempo e recordando as brincadeiras de roda vivenciadas na nossa própria infância, percebemos que algo precioso se processa. Trata-se de um movimento de entrega, de alegria e de intensidade vital.

Do ponto de vista pedagógico, estes jogos infantis são considerados completos: brincando de roda a criança exercita naturalmente o seu corpo, desenvolve o raciocínio e a memória, estimula o gosto pelo canto. Poesia, música e dança unem-se numa síntese de elementos imprescindíveis à educação global. Vale a pena lembrar que a atividade lúdica constitui o aspeto mais autêntico do comportamento da criança.

Ao brincar, a criança está a corresponder a necessidades vitais suas, dando vazão a impulsos que lhe permitem desenvolver-se como ser pleno e afirmar a sua existência singular. É um movimento que faz parte dos seus esforços de compreender o mundo, e que a torna capaz de lidar com problemas até complexos e que muitas vezes tem dificuldade de compreender.

É inegável que as cantigas e brincadeiras de roda ocupam um lugar especial no contexto das canções e elementos que figuram em Musicoterapia. A começar pelas vivências no próprio “Curso de Musicoterapia”. Não foi apenas uma vez em que eu vivi, ou ouvi relatos com cenas similares a que agora se segue. Aula da cadeira de “Improvisação corpo e som” do Curso de Musicoterapia – a turma é composta por um grupo de estudantes adultos, com faixas etárias variadas e procedências diversas. Iniciam-se experiências com a voz e com os instrumentos. De repente, no meio a sons, trechos de ritmos e melodias, surge o tema de uma cantiga de roda, trazida por um aluno. Outra voz junta-se a ele, e mais uma, e outra… Aos poucos estas pessoas juntam-se, dão-se as mãos e formam uma roda. Inicia-se a brincadeira. No final da canção, a roda não pára de girar e outras canções se sucedem num movimento ininterrupto.

Trabalhando na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), com grupos de adultos e idosos apresentando comprometimento motor, mais de uma vez vivi, como musicoterapeuta, ou observei, como estagiária, a seguinte cena: o musicoterapeuta sugere que cada um lembre de uma canção a ser compartilhada pelo grupo. Surgem canções de seresta, de carnaval, e… cantigas de roda. Juntamente com elas, lembranças, imagens e emoções de uma outra época e que, naquele momento, se tornam de alguma forma presentes de novo.

Outro episódio que vivi, também enquanto musicoterapeuta na ABBR. “Uma criança apresentando uma deficiência na marcha. É por isso vista como diferente, ficando diversas vezes isolada das atividades em grupo do cotidiano. Na sessão de Musicoterapia, juntamente comigo e com mais duas outras crianças, forma-se uma roda e todos cantam e dançam. Cada um à sua maneira, mas todos são, naquele momento, parte igualmente importante do conjunto. Movidos unicamente pelo prazer e pela alegria de brincar.

Estes relatos, são apenas alguns entre tantos outros que eu poderia citar. Não se trata de situações estranhas aos musicoterapeutas. São inúmeras as vezes em que verificamos a presença das cantigas e brincadeiras de roda na Musicoterapia. Tanto indiretamente através de relatos, como testemunhando a sua concretização sonora e corporal.

No interior dos settings de Musicoterapia, as maneiras como se desenvolvem estas pérolas da cultura popular são múltiplas e das mais variadas. A despeito de serem estas cantigas e brincadeiras pertencentes, por definição, ao universo lúdico-musical infantil, elas são também, com frequência, espontaneamente trazidas por adolescentes, adultos e idosos. Também são utilizadas como recurso interventivo pelos musicoterapeutas a partir de outros conteúdos apresentados pelos pacientes, de modo a irem ao encontro de determinados objetivos estabelecidos durante o processo musicoterapêutico.

Dança de roda