CANÇÕES DE LABOR

AI BORDA, MINHA FILHA

Ai borda, minha filha,
borda, borda,
ai borda, minha filha, borda bem.
Cá em casa, minha filha,
todos bordam,
borda a filha,
borda a tia e borda a mãe.

Mel. trad. Madeira, Portugal

BELA CEIFEIRA

Bela ceifeira d’outrora
Elas linda mesmo trigueira
E quando eu te olho agora
Nem pareces tu ceifeira

Nos teus tempos de moçoila
Eras tu, ó linda cara
A mais bonita papoila
Que se via pela seara

Tinhas cabelos loirinhos
Como espigas nos trigais
Mas hoje são tão branquinhos
Como linho ou talvez mais

Numa tarde de sol quente
Em ceifa do Zé das Navas
Eu atava alegremente
O trigo que tu ceifavas

Eu já no fim de Junho
Tu não te lembras, amiga
Em que tu de foice em punho
Me cantaste esta cantiga

Ao atares estas gavelas
Agora as que ceifo aqui
Repara que dentro delas
Vão beijinhos para ti

Minha resposta, afinal
Já não me recorda toda
Sei que dia do Natal
Foi a nossa bela boda

Passou o tempo, discordámos
Era dia de Santo André
À lareira conversávamos
Sobre a vinda de um bebé

Eu desejava um menino
Tu uma menina, e depois
Por milagre divino
Fomos brindados os dois

Essa menina, porém
És mesmo o retrato teu
O menino, sabe-lo bem,
Esse não, esse é o meu

Nossa casa tão modesta
Pequenina mas tão bela
Tem sempre um ar de festa
Paz e amor dentro dela

Anos, já lá vão setenta
Sempre pobre, mas enfim
Qualquer coisa me contenta
Até quem me fala assim:

“Onde vai, de braço dado,
Senhor Nuno com Ti Arriça?”
Respondo, muito animando:
“É domingo, vou à missa.”

Constantino José Abreu, “o Caipira”

BÓIA, BÓIA, BINHA

Bóia, bóia, binha,
que faz assim, assim.
1. Ora agora a costureira
faz assim, assim, assim.

2. o alfaiate

3. o sapateiro

4. a brunideira

Santo Tirso, Douro Litoral

EU SOU O XICO PASTOR

Eu sou o Xico pastor
Minha vida é guardar gado
Eu juro que tenho amor
Às ovelhinhas que guardo

São todas de bom tamanho
Lindas e bem arraçadas
E das trezentas do rebanho
Tenho oito baptizadas

É a Má e a Princesa
A Churra e a Vaidosa
A Manca, a Baronesa
A Bonita e a Gulosa

A Cabresto, a mais gorducha
Que traz o maior chocalho
É vendida baratucha
É machorra, vai para o talho

Um borrego temporão
Que lá tenho com a lã vasta
Eu direi ao meu patrão
Para o deixar para casta

Meu ajuda vai à fonte
Traz notícias da aldeia
À noitinha vai ao monte
Com o tarro buscar a ceia

Durmo no alto da serra
Do São Miguel até Março
São vistas da minha terra
As fogueiras que ali faço

Deitado na minha choça
Vejo em noites luarentas
Lá no pino duma rocha
As corujas agoirentas

E a raposa esperta
Quer-me um borrego roubar
Meu canito está alerta
Não a deixa aproximar

Ao chegar o santo dia
Eu fico cheio de alegria
Olho o prado, é um jardim
A minha flauta a tocar
Passarinhos a cantar
É tão bom viver assim

Constantino José Abreu, “o Caipira”

EU SOU O ZÉ DA ENXADA

Eu sou o Zé da enxada
Caminhando de madrugada
Oiço a linda cotovia
Voando alto sem a ver
O seu canto quer dizer:
“Vem aí um novo dia”

Ao passar junto ao silvado
Abala o melro assustado
Lá foge o espertalhão
O rouxinol não se espanta
Em vez de fugir canta
A sua linda canção

Chego ao lugar destinado
De pão como um bocado
Sentado a descansar
Nasce o sol e de repente
Diz o manajeiro: “Ó gente,
Nós temos de ir a trabalhar!”

Vou-me à enxada agarrar
E então começo a cavar
Com vontade e valentia
Assim que chega o sol-posto
Eu volto a casa com gosto
Para junto da Maria

Chego, as boas-noites dou
A seguir, lavar-me vou
Já está na mesa a ceia
Enquanto eu estou ceando
A Maria está contando
Novidades da aldeia

Esta vida para mim
Espinhosa, mas enfim
Mas vivo com alegria
Tem sido e continua
A enxada e a charrua
Darem-me o pão de cada dia

Constantino José Abreu, “o Caipira”

LINDA CEIFEIRA

Linda ceifeira
Loira e trigueira
Gosto de ti
Teu rosto, linda flor
Encantador
Outro não vi

Ao ver-te no mês de Junho
De foice em punho
Ceifando o trigo
Dás alegria aos meus olhos
Fazendo molhos
Canto contigo

Com o chapéu desabado
Rosto suado
Sorrindo estás
Mas tantas vezes ceifando
Andas pensando
No teu rapaz

À sombra da oliveira
Linda ceifeira
À sesta dormes
Debaixo do sol ardente
Ceifas contente
O pão que comes

Constantino José Abreu, “o Caipira”

NA PONTE DA VIOLA

Na ponte da viola (bis),
toda a gente passa lá (bis).
Lavadeiras fazem assim,
sapateiros fazem assim,
caçadores fazem assim,
camponeses fazem assim.

Lárálálá.

NÃO SE ME DÁ QUE VINDIMEM

Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei
Não se me dá que outros logrem
Ai amores que já rejeitei

Fui um ano à vindima
Pagaram-me a trinta réis
Dei um vintém ao barqueiro
Ai vim p’ra casa com dez réis

Pela folha da videira
Conheço eu a latada
Faço-me dasatendida
Ai a mim não me escapa nada

Eu estou debaixo da latada
Nem à sombra nem ao sol
Estou ao pé do meu amor
Ai não há regalo maior

Letra e música: Popular (Monsanto, Beira Baixa)
Recolha: Fernando Lopes Graça
Intérprete: Né Ladeiras e Luís Represas
Outras versões: Jorge Lomba (in CD “Jorge Lomba”, UPAV, 1990); Contrabando (in CD “Fresta”, 2000); Filipa Pais (in CD “À Porta do Mundo”, Vachier & Associados, 2003)

NUMA TERRA DISTANTE

[ A Menina da Canastra ]

Numa terra distante
Viviam tranquilos sem grande mudança
Os campos eram campos
O vinho macio, a água era mansa

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

Dia de animação,
O espeto na mão, o bicho sebado
Rezas e devoção,
Bruxarias, magia, tudo está destinado

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue, como a roca faz o fio,
Segue a lua que ilumina a escuridão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Um partiu e depois
Emigraram mais dois para fugir à desgraça
Do sustento que dá semear tanto pranto
Lavrar o que embaraça

Mas a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

A menina…

Letra e música: André Cardoso
Intérprete: A Presença das Formigas com Amélia Muge (in CD “Ciclorama”, A Presença das Formigas, 2011)

Ó MARGARIDA MOLEIRA

1. Ó Margarida moleira,
dá-me da tua farinha.
Ai, ai, ai, que a quero peneirar
ai, ai, ai, pela nova peneirinha.

2. Ó Margarida moleira,
a tua farinha é boa;
ai ai ai, se agora não tens moída
ai, ai, ai, dá-me então da tua broa.

3. Ó Margarida moleira
tens moinho de moer;
ai, ai, ai, p’ra moer quem te quer bem,
ai, ai, ai, não tens pouco que fazer.

4. Ó Margarida moleira,
amostra-me o teu moinho;
ai, ai, ai, quero ver se ele trabalha,
ai, ai, ai, devagar ou ligeirinho.

Cabeceiras de Basto, Minho

ORA BATE, PADEIRINHA

Ora bate, padeirinha,
ora bate o pé no chão.
Ora bate, padeirinha,
amor do meu coração.

Fui à fonte p’ra te ver,
fui ao rio p’ra te falar.
Nem na fonte nem no rio
nunca te pude encontrar.

OS MOLEIROS DESDE AÇUDE

[ Canção de Açude – Poema em Cor ]

Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude,
Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude…

Os moleiros deste açude adoram a virgem de branco
Os moleiros deste açude adoram a virgem vermelha
Os moleiros deste açude adoram a virgem de verde
Os moleiros deste açude adoram a virgem de preto

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

De sol a sol, a trabalhar
Tanto suor e sem tempo para o limpar
Tanta farinha na minha mão
Bem moidinha vai formar um grande pão

Eu não pertenço a esta aldeia
Vim para aqui p’ra fazer o meu pé-de-meia
Ai este rio corre p’ró mar
Tão fugidio não pára p’ra descansar

‘Tou tão cansado de labutar
Ai esta nora que não pára de girar

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

Letra: Rodrigo Crespo e Tânia Cardoso
Música: Rodrigo Crespo
Intérprete: Canto Ondo (in CD “Entre o Alto do Peito e as Campainhas da Garganta”, A Monda – Associação Cultural/Canto Ondo, 2016)

QUEM QUISER REGAR

[ Cantiga de Rega ]

Quem quiser regar
que regue
Ai cá lhe fica
o regador

Palavra dada
Eu tenho
Ai esta noite
Ao meu amor

A palavra
É igual à água
Que há no regador
Rega todo este chão
Conversador

E com palavras
Nós vamos regando
Este longe que então
Faz o perto crescer
E dar seu pão

Tradicional portuguesa e Amélia Muge / Tradicional

RAPARIGAS CAMPONESAS

[ Raparigas Mondadeiras ]

Raparigas camponesas,
Ao rigor do temporáli
Não há vento que as queime
Nem sol que lhes faça máli.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Andai lá com cuidadinho,
Que manda o nosso patrão!
Mondai lá bem o triguinho!

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Vamos todas a cantári!
Já lá vem nossa patroa
A trazer-nos o jantári.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Já lá vem a noite em baixo,
Já lá vem nossa alegria;
Tristeza p’ra o nosso amo,
Que já se lhe acaba o dia.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Letra e música: Tradicional (Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra)
Intérprete: Brigada Victor Jara / voz solo de Catarina Moura (in Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD Extra, Tradisom, 2015)

REMA

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
Pelo mar fora
Segure o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
P’ró areal
Se te não vejo
Passo bem mal

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Letra e música: Aníbal Raposo (2000-08-07)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

SENHORA DONA ANICA

1. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as lavadeiras
a fazer assim, assim.

2. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as costureiras
a fazer assim, assim.

3. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os jardineiros
a fazer assim, assim.

4. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os sapateiros
a fazer assim, assim.

5. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as brunideiras
a fazer assim, assim.

6. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os carpinteiros
a fazer assim, assim.

7. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as cozinheiras
a fazer assim, assim.

STANDO LA MOLINERA

[ Molinera ]

Stando la molinera
Sentadita en su molino…
Passou por alla un soldado, olé! olé!
Vengo de moler el trigo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de abajo…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado el trabajo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de arriba…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado la maquia.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos del frente…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Se enteró toda la gente.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos azules…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Sabado, domingo y lunes.
Que vengo de moler, morena.

Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)

TODA A VIDA FUI PASTOR

1. Toda a vida fui pastor,
toda a vida guardei gado.
Tenho uma mágoa no peito, ai, ai,
de me encostar ao cajado.

2. De me encostar ao cajado,
lá pelos campos a rigor.
Toda a vida guardei gado, ai ai!
Toda a vida fui pastor.

3. Meu lírio roxo do campo,
criado na Primavera,
desejava amor saber, ai, ai,
a tua intenção qual era.

4. A tua intenção qual era
desejava amor saber.
Meu lírio roxo do campo, ai, ai,
quem te pudera colher.

Mel. trad. Alentejo

TRIGO LOIRO

[ Cantiga de ceifa ]

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Letra e música: Tradicional (Gonçalo, Guarda, Beira Alta)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)
Outras versões com César Prata: Chuchurumel – “Canção da Ceifa” (in CD “No Castelo de Chuchurumel”, Chuchurumel/Luzlinar, 2005); Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)