AUTISMO, MUSICALIZAÇÃO E MUSICOTERAPIA

por Maiara Aparecida Bertoluchi

Maiara Aparecida Bertoluchi, pedagoga do CEDAP, Centro de Estudos e Desenvolvimento do Autismo e Patologias, Brasil

EDUCAÇÃO MUSICAL INFANTIL

O desenvolvimento da musicalidade nas crianças deve estar em conformidade com a sua vivência musical e os métodos utilizados. A educação musical, por si só, já se inicia no lar, com a oferta de ferramentas à criança para que ela descubra os sons e o seu universo (discos, canções, instrumentos, objetos sonoros variados, gravuras relacionadas, etc).

Na escola, no entanto, deverá se realizar o direcionamento deste interesse para o desenvolvimento de outros aspectos ligados à criança (criatividade, coordenação motora, lateralidade, lógica, estética etc).

A educação musical, além de transformar as crianças em indivíduos que usam os sons musicais, fazem e criam música, apreciam música, e finalmente se expandem por meio da música, ainda auxilia no desenvolvimento e aperfeiçoamento da socialização, alfabetização, capacidade inventiva, expressividade, coordenação motora e motricidade fina, perceção sonora, perceção espacial, raciocínio lógico e matemático e estética.

O objetivo central da estimulação musical é a educação pela música, que engloba vários aspectos do desenvolvimento humano. Entre estes, citamos:

1. DESENVOLVIMENTO DA MANIFESTAÇÃO ARTÍSTICA E EXPRESSIVA DA CRIANÇA

A educação musical pretende desenvolver na criança uma atitude positiva para este tipo de manifestação artística, capacitando-a para expressar os seus sentimentos de beleza e captar outros sentimentos, inerentes a toda a criação artística. Assim como utiliza a palavra ou gestos para manifestar as suas ideias, terá como meio de expressão mais uma boa ferramenta na construção dos seus argumentos – a música. As crianças tendem a pensar na música como sendo sobre “coisas”, isto é, como contando histórias, expressando ideias, vivendo situações.

Há estudos sobre crianças autistas (Gardner – As artes e o Desenvolvimento Humano), em que “estas crianças, extremamente perturbadas e que frequentemente evitam o contacto interpessoal e talvez nem falem, possuem capacidades musicais incomuns. Isto talvez, porque houvessem escolhido a música como principal canal de expressão e comunicação, ou também porque a música é tão primariamente hereditária e que precisa de tão pouca estimulação externa quanto o falar ou andar de uma criança normal.”

2. DESENVOLVIMENTO DO SENTIDO ESTÉTICO E ÉTICO

Durante o processo de criação e depuração dos elementos musicais, ou mesmo no processo de expressão, busca-se aí o equilíbrio e a crítica sobre o conceito do belo. Através da música, com os seus valores estéticos intrínsecos, e de atividades voltadas especialmente para o desenvolvimento do valor estético, pretende-se resgatar o sentido do belo e do justo em relação às coisas que nos rodeiam e também às nossas atitudes. O poder de escolha intermedia a busca da estética, e esta exteriorização é a base da ética.

3. DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA SOCIAL E COLETIVA/ÉTICA

Quando a criança canta, ou está envolvida com papéis de interpretação sonora em coletividade, sente-se integrada num grupo e adquire a consciência de que os seus componentes são igualmente importantes. Compreende a necessidade de cooperação frente aos outros, pois da conjunção de esforços dependerá o alcance do objetivo comum. Quando estuda música em conjunto, torna-se mais comunicativa e convive o tempo inteiro com regras de socialização. Existe a possibilidade de respeitar o tempo e a vontade do outro, criticar de forma construtiva, ter disciplina, ouvir e interagir com o grupo.

4. DESENVOLVIMENTO DA APTIDÃO INVENTIVA E CRIADORA

A educação através das artes proporciona à criança a descoberta das linguagens sensitivas e do seu próprio potencial criativo, tornando-a mais capaz de criar, inventar e reinventar o mundo que a circunda. E criatividade é importante em todas as situações.

Uma criança criativa raciocina melhor e inventa meios de resolver suas próprias dificuldades. A criança se envolve integralmente com a música e a modifica constantemente, exercitando sua criatividade, e transformando-a pouco a pouco numa resposta estruturada de acordo com seus objetivos.

5. BUSCA DO EQUILÍBRIO EMOCIONAL

Para os gregos, a educação musical aprimorava o caráter e tornava úteis os homens em palavras e ações, e os estudos de música começavam na infância e estendiam-se por toda a vida.

Também o jogo musical, que não se liga a interesses materiais ou competitivos, mas absorve a criança, estabelece limites próprios de tempo e espaço, cria a ordem e equilibra ritmo com harmonia.

6. RECONHECIMENTO DOS VALORES AFETIVOS

Para Piaget, o afeto é o principal impulso motivador dos processos de desenvolvimento mental da criança e, para Celso Antunes, a afetividade pode ser construída através de estímulos adequados e medidos. Através da música e de seu processo de criação, torna-se aqui a criança o criador, o gerador, formando um eterno vínculo com sua produção ou autoria. Este é fator positivo para o desenvolvimento de sua auto-estima e identificação de suas motivações.

O QUE É MUSICOTERAPIA?

Musicoterapia é a utilização da música e/ou dos seus elementos constituintes, ritmo, melodia e harmonia, por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo destinado a facilitar e promover comunicação, relacionamento, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, a fim de atender às necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.

O uso da música como método terapêutico vem desde o início da história humana. Alguns dos primeiros registos a esse respeito podem ser encontrados na obra de filósofos gregos pré-socráticos; porém, o seu reconhecimento como disciplina teve início no século 20, após as duas guerras mundiais, quando músicos amadores e profissionais passaram a tocar nos hospitais de vários países da Europa e Estados Unidos, para os soldados veteranos. Logo os médicos e enfermeiros puderam notar melhoras no bem-estar dos pacientes.

A musicoterapia procura desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo para que ele alcance uma melhor qualidade de vida, através de prevenção, reabilitação ou tratamento. A música trabalha os hemisférios cerebrais, promovendo o equilíbrio entre o pensar e o sentir, resgatando a “afinação” do indivíduo, de maneira coerente com o seu diapasão interno. A melodia trabalha o emocional, a harmonia, o racional e a inteligência. A força organizadora do ritmo provoca respostas motoras e, através da pulsação dá suporte para a improvisação de movimentos, para a expressão corporal.

Sendo inerente ao ser humano, a música é capaz de estimular e despertar emoções, reações, sensações e sentimentos. Qualquer pessoa é suscetível de ser tratada com musicoterapia. Ela tanto pode ajudar crianças com deficiência mental, quanto pacientes com problemas motores, aqueles que tenham tido derrame, os portadores de doenças mentais, como o psicótico, ou ainda pessoas com esgotamento, deprimidas ou tensas. Tem servido também para cuidar de seropositivos e indivíduos com cancro. Não há restrição de idade: desde bebés com menos de um ano até pessoas bem idosas, todos podem ser beneficiados.

A MUSICOTERAPIA NO AUTISMO

Embora existam diversas correntes teóricas que procuram compreender as causas que levam ao quadro de Autismo, todas concordam na caracterização principal da síndroma: a inadequacidade vincular. Observa-se na prática educacional, em sala de aula, e na prática clínica, em consonância com a literatura, que o autista apresenta diferentes formas de inadequacidade vincular, ou seja, um défice apresentado na interação social (pessoa-pessoa), na interação lúdica (pessoa-objeto) e na interação perceptual (pessoa-música).

Segundo Lorna Wing, vários estudos sobre o desenvolvimento da capacidade biológica de interagir com os outros já foram realizados com bebés normais, evidenciando que a deficiência nestes aspectos é um dos défices considerado a causa dos problemas das pessoas autistas, ocasionada por uma “disfunção cerebral física”. Enfatiza que o “transtorno no reconhecimento social” manifesta-se de maneiras diversas em cada caso, desde “procurarem ativamente um contacto social de forma inadequada e unilateral (…) onde a sua tentativa de contacto é feita em função do próprio interesse, de uma ideia repetitiva e idiossincrática”, “não procurarem espontaneamente o contato social” ou, em casos mais graves, “não demonstrarem habilidade de reconhecer os outros seres humanos, tendendo ao isolamento e indiferença às pessoas e evitar ativamente o contato social ou físico com outros”.

Segundo ainda alguns teóricos, “o defeito original no desenvolvimento fetal do cérebro pode ser uma das causas de anormalidades neuroquímicas e é provavelmente o responsável pela resistência do bebé a ser tocado e reconfortado, evidenciando uma incapacidade que a criança autista tem de entregar-se a estímulos tácteis reconfortantes. A estimulação táctil, como carícias e abraços, pode promover um desenvolvimento mais normal, mesmo que o bebé se mostre indiferente aos carinhos. Por isso, mesmo frente à resistência ao toque, o bebé precisa de ser gradualmente “treinado” a tolerá-lo, pois quanto mais viver sem experimentar o sentimento de ser reconfortado, maior é a probabilidade de que os circuitos cerebrais envolvidos no desenvolvimento de contacto emocional com os outros sejam prejudicados”.

A inadequacidade vincular manifesta-se, no autismo, também na forma de comportamentos estereotipados, onde o indivíduo se auto-estimula gerando prazer para si mesmo.

As pesquisas no trabalho de musicoterapia aplicada ao autismo corroboram ser este o caminho como primeira maneira de aproximação ao autista possibilitando-lhe também a abertura de canais de comunicação. Desse modo, a musicoterapia é particularmente indicada para o autismo infantil, por poder ser a primeira técnica de aproximação e por promover, dessa forma a ampliação comunicativa da criança autista com seus pares.

A metodologia utilizada no processo musicoterápico, configura dois momentos:

1º Momento – FAZER MUSICAL

Possui como objetivo principal “abrir um canal de comunicação” com a criança, quer seja através do olhar, do toque (nos instrumentos) ou da escuta (perceção dos estímulos sonoros). Neste momento também se gera a possibilidade de canalizar estereotipias e/ou comportamentos inadequados, utilizando os instrumentos sonoro-musicais para re-significar ações e/ou condutas para atividades construtivas. Não se trata de inibir as estereotipias e/ou fixações, mas de canalizá-las para a auto-expressão, através dos diferentes tipos de interação. As interações podem ocorrer de diversas formas e em diversos âmbitos: interações com o instrumental, tendo o instrumento como objeto intermediário de uma relação, quer seja com o musicoterapeuta e/ou com seus pares; interação com o som/música, quer através de melodias ou ritmos conhecidos, quer através de sons novos ao seu universo sonoro, buscando oportunizar a percepção de novas fontes sonoras; interação com a atitude lúdica, tanto com o musicoterapeuta (que possibilitará a inserção dos elementos novos) como com os familiares e/ou grupo, oportunizando novos encontros e novas percepções sociais e sonoras, onde irão captar a atenção do seu bebê e desenvolver em si mesmos a confiança e naturalidade de que necessitam para se engajarem no processo interacional.

Esta oportunidade de vinculação lúdica com o filho proporciona aos pais a possibilidade de mudarem o paradigma sobre a síndrome, bem como das especificidades de inter-relações da mesma e suas consequências no sistema familiar, pois do isolamento será possível atingir níveis cada vez mais crescentes e variados de interação, da frustração chegaremos à aceitação.

2º Momento – ACALANTO

Busca-se, neste momento, possibilitar as trocas afetivas mãe/pai e bebé, através do toque, do afago, bem como elevar a capacidade da criança em manter a atenção concentrada na expressão sonora do musicoterapeuta possibilitando a ampliação da sua escuta ao perceber “mensagens cantadas” que expressam o momento vivido.

Nas atividades musicais é proporcionada aos alunos a inclusão numa atividade musical, oferecendo recursos, adaptando e criando métodos facilitadores para a aprendizagem de um instrumento. Podem ser utilizadas técnicas vocais para o canto, desenvolvimento rítmico, exercícios específicos para familiarização com a linguagem musical e com os próprios instrumentos a partir da produção de diferentes sons.

A música abrange não somente objetos sonoros e musicais, mas também uma variedade de outros signos. Dela emergem formas, cores, intensidades, temporalidades, gestos, movimentos, imagens, pensamentos, palavras… Assim, “o objeto da música não se restringe ao som, mas a uma cadeia sígnica que tem, entre outros, o som por motor”.

As vivências musicais estimulam a criatividade e a autoconfiança, mobilizando todo potencial de saúde mental do indivíduo com uma diversidade de opções de trabalho.

A música relaxa e tranquiliza as crianças. Além dos recursos da estimulação através da música serem úteis para trabalhar os processos de desenvolvimento da comunicação com crianças autistas, a percepção corporal através da dança também pode trazer benefícios, pois a criança passa a ter contacto consigo mesma e com o outro, ou seja, é uma forma de integrá-la ao meio.

A partir disso, conclui-se que a vivência musicoterápica proporciona resultados significativos: uma ampliação da percepção do indivíduo autista em relação ao outro, tanto física como sonoramente, quando se proporciona à escuta de algo novo; a diminuição do isolamento a partir do desenvolvimento da interação através dos diversos canais de comunicação: o olhar, o toque e a escuta, com possibilidades de reinserção social; uma elevação da afetividade estabelecendo relações vinculares fraternas (mãe/pai-bebé) positivas e a re-significação de comportamentos inadequados canalizados ao fazer musical.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLOWERS, S.E.C.S.A., Musical sound perception in normal children and children with  Down’s syndrome in GODELI, Maria Regina Conceição de Souza e GHIRELLO-PIRES, Carla Salati Almeida, Considerações a respeito da utilização da música na  Comunicação não-verbal na díade mãe-bebé, Revista integrAÇÃO.

NASCIMENTO, Sandra Rocha do, Programa ABRICOM – Abrindo os Canais de
Comunicação no Autismo Infantil, Goiânia: Sociedade Pestalozzi de Goiânia, (projeto), 1999.

WING, Lorna. O contínuo das características autísticas in GAUDERER, E.Christian., Autismo e outros atrasos do Desenvolvimento: uma atualização para os que atuam na área: do especialista aos pais (Trad. Angela Moura, Linda Lemos), Brasília: CORDE, 1993.

Jovem autista em sessão de musicoterapia