fadista Amália Rodrigues

Amália Rodrigues

Fado

Amália Rodrigues, de seu nome completo Amália da Piedade Rebordão Rodrigues (Lisboa, 1 de julho de 1920 – Lisboa, 6 de outubro de 1999), nasceu em Lisboa por acaso, quando os seus pais, Lucinda da Piedade Rebordão e Albertino de Jesus Rodrigues, se encontravam de visita aos avós maternos, na Rua Martim Vaz, na freguesia da Pena.

No registo de nascimento consta a data de 23 de Julho de 1920, porém, dado existirem algumas reservas quanto ao dia exacto, a artista adoptou o dia 1 de Julho como data de aniversário durante toda a sua vida.

Após o seu nascimento e depois de um curto período na capital à procura de vida melhor, os pais regressaram ao Fundão deixando a filha, então com catorze meses, ao cuidado dos avós.

Quando tinha seis anos os seus avós mudam-se para o bairro de Alcântara, onde Amália viveria até aos 19 anos, primeiro com os avós e depois com os pais. Abandonou os estudos após completar a instrução primária, por ser necessário trabalhar e ajudar no sustento familiar. Foi aprendiza de costureira, de bordadeira e operária de uma fábrica de chocolates e rebuçados. Mais tarde, com a sua irmã Celeste, vendeu fruta à percentagem pelas ruas do cais de Alcântara.

Desde muito cedo mostrou gosto por cantar e, em 1935, foi escolhida para cantar o “Fado Alcântara” como solista, nos festejos dos Santos Populares, acompanhando a Marcha Popular do seu bairro.

Em 1938 Amália fez audições para o “Concurso da Primavera”, onde cada bairro apresentava as suas concorrentes, disputando-se o prémio Rainha do Fado desse ano. Amália não chegou a participar, mas conhece, neste concurso, Francisco da Cruz, um guitarrista amador com quem, em 1940, se casa. Este casamento não durou muito tempo, embora o divórcio só se concretize em 1949. Voltaria a casar, em 1961, no Brasil, com o Engenheiro César Henrique de Seabra Rangel, com quem viveu até ao falecimento deste em 1997.

Entretanto continuou a cantar em festas e verbenas com o nome de Amália Rebordão. E, nesse mesmo ano, aparece pela primeira vez uma foto da fadista e uma crítica muito elogiosa na imprensa (cf. “Guitarra de Portugal”, 10 de Agosto de 1938). Só mais tarde adoptou o nome artístico de Amália Rodrigues, por sugestão de Filipe Pinto, então director artístico do Solar da Alegria.

Por influência de Santos Moreira prestou provas no Retiro da Severa, e fez a sua estreia profissional em 1939. Neste local exibiu-se durante 6 meses, passando depois para o Solar da Alegria e para o Café Mondego. O seu sucesso foi tal que rapidamente se tornou cabeça de cartaz e, graças à intervenção de José Melo, passou a cantar no Café Luso com um cachet que atingiu valores nunca antes pagos a um fadista. Nesta altura Amália já não cantava diariamente, fazendo-o apenas 4 vezes por mês e recebendo por actuação.

A partir de 1941 as suas actuações foram menos regulares, mas ainda assim uma constante na cidade de Lisboa até ao início dos anos 50. A sua presença regista-se na Cervejaria Luso e Esplanada Luso, em 1941; no Casablanca, Pavilhão Português e Retiro dos Marialvas, em 1942; no Casablanca, Retiro dos Marialvas e Café Latino, em 1943; no Café Luso, em 1944, e de 1947 a 1950; no Casino Estoril, em 1949 e 1950, e no Comboio das Seis e Meia, um programa de variedades gravado no Teatro Politeama e depois transmitido pela rádio, em 1950.

Amália Rodrigues realizou longas viagens de digressão em espectáculo a partir do início da década de 1950, pelo que as suas aparições em Portugal se limitaram a alguns espectáculos anuais, como a Grande Noite do Fado, o Natal dos Hospitais, o Reveillon do Casino Estoril e outras festas e festivais, muitas de beneficência.

Apenas em 19 de Abril de 1985 apresentou o seu primeiro concerto individual em Portugal, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, o qual seria repetido no Coliseu do Porto a 26 de Abril do mesmo ano.

A sua primeira saída do país ocorreu em 1943, para actuar numa festa do Embaixador português em Madrid, Dr. Pedro Teotónio Pereira. Fez-se acompanhar do cantador Júlio Proença e dos instrumentistas Armandinho e Santos Moreira.

No ano seguinte, foi ao Brasil, onde actua no Casino de Copacabana, Teatro João Caetano e na Rádio Globo. Voltaria ao Brasil logo em 1945, numa estadia que se prolongaria até Fevereiro de 1946, na qual gravou os seus primeiros discos, oito edições de 78 rpm para a editora Continental.

As viagens de Amália sucederam-se, os destinos de actuação no estrangeiro seriam uma constante durante a sua longa carreira e abarcaram os cinco continentes. Amália Rodrigues tem pois um estatuto de excepção marcado por uma carreira repleta de êxitos e de digressões um pouco por todo o mundo, e não apenas para actuações em comunidades de emigrantes.

Logo em 1949, a convite de António Ferro actuou em Paris e em Londres. Em 1950 foi à Madeira e deslocou-se uma vez mais ao estrangeiro, para participar numa série de espectáculos patrocinados pelo Plano Marshall em Berlim, Roma, Trieste, Dublin, Berna e Paris.

Cantou pela primeira vez em Nova Iorque, em 1952, no La Vie en Rose, onde ficou 14 semanas em cartaz. No ano seguinte, actuou na Cidade do México e volta a Nova Iorque onde participa no programa de Eddie Fisher, sendo esta a primeira apresentação de um artista português na televisão norte-americana.

Em 1956, a convite de Bruno Coquatrix, empresário do Olympia de Paris, estreou-se naquela casa de espectáculos e alcança grande êxito. Em seguida cantou na Côte d’Azur, Bélgica, Argélia, Rio de Janeiro e na Cidade do México.

Em 1957 voltou ao Olympia acompanhada pelo guitarrista Domingos Camarinha e pelo violista Santos Moreira, sala onde actuarria novamente em 1959 e 1960. No ano de 1957 cantou ainda na Côte d’ Azur, em Estocolmo, Lausane e Caracas.

Amália Rodrigues regressou com vários espectáculos ao Brasil, em 1960 e 1961. Em 1963 cantou “Foi Deus” na Igreja de São Francisco no aniversário da independência do Líbano. Na década de 1960 actuou em Tunes, Argel, Sidi Abbes, Bruxelas e Atenas. Participou no Festival Internacional de Edimburgo, canta em várias cidades de Israel, no I Festival Internacional de Música Ligeira de Brasov em Leningrado, Moscovo, Tiflis, Erivan e Baku, entre outras cidades e países.

Em 1970 esteve pela primeira vez no Japão, onde voltou em 1976, 1986 e 1990. E em 1972 actua na Austrália. Durante esta década e na seguinte prosseguiu as suas digressões artísticas por vários países.

Em 1989 gravou um espectáculo para a televisão espanhola, inserido num programa apresentado por Sara Montiel. Ainda nesse ano, comemorou os cinquenta anos de actividade artística profissional, realizando uma grande digressão com espectáculos em Espanha, França, Suiça, Portugal, Israel, India, Macau, Coreia, Japão, Bélgica, Estados Unidos e Itália, de que destacamos o regresso, pela oitava vez, ao Olympia de Paris.

As interpretações de Amália Rodrigues podem também ser vistas no teatro e no cinema, bem como escutadas em inúmeras gravações discográficas.

A estreia da fadista no teatro fez-se em 1940, no Teatro Maria Vitória, com a peça “Ora vai tu!”. Até 1947 Amália Rodrigues participa em várias revistas e operetas: “Espera de Toiros” (Teatro Variedades, 1941), “Essa é que é essa” (Teatro Maria Vitória, 1942), “Boa Nova” (Teatro Variedades, 1942), “Alerta está!” (Teatro Apolo, 1943), “A Rosa cantadeira”, “Ó viva da costa!” e “A Senhora da Atalaia” (Teatro Apolo, 1944); “Boa Nova” e “A Rosa cantadeira” (reposição no Teatro República, Brasil, 1945), “Estás na Lua”, e reposição de “Mouraria” (Teatro Apolo, 1946); e “Se aquilo que a Gente Sente” (Teatro Variedades, 1946).

O seu regresso ao teatro ocorreu apenas em 1955 para participar na reposição da peça “Severa”, levada à cena por Vasco Morgado no Teatro Monumental.

A relação de Amália com o cinema iniciou-se com a interpretação do papel de Maria Lisboa, ao lado de Alberto Ribeiro, no filme “Capas Negras”, de Armando Miranda. A película estreou no cinema Condes a 16 de Maio de 1947. No mesmo ano protagonizou, com Virgílio Teixeira, “Fado, História de uma Cantadeira”, realizado por Perdigão Queiroga; e participou, ainda, com Jaime Santos e Santos Moreira nas curta-metragens realizadas por Augusto Fraga: “Fado da Rua do Sol”, “Fado Malhoa”, “Fado Amália”, “Fado lamentos”, “O meu amor na vida (Confesso)”, “Só à Noitinha”, “Ronda dos Bairros”, “Eu disse adeus à casinha” e “Ai! Lisboa”.

Voltou ao cinema em 1949, com Manuel dos Santos no filme “Sol e Toiros” de José Buchs, e com Paulo Maurício no filme “Vendaval Maravilhoso”, de Leitão de Barros. Em 1955 participou com Daniel Gelin no filme “Les Amants du Tage (Os Amantes do Tejo)” de Henri Verneuil, onde cantou a canção “Barco Negro”, com letra de David Mourão Ferreira. Ainda em 1955, com António dos Santos, participou no filme “April in Portugal” de Evan Lloyd.

As suas últimas interpretações para o grande ecrã foram: em 1958, no filme “Sangue Toureiro”, de Augusto Fraga, onde canta o Fado “Que Deus me Perdoe”; em 1964, como figura central do filme “Fado Corrido”, de Jorge Brum do Canto e baseado num conto de David Mourão Ferreira; e em 1965, nos filmes “As Ilhas Encantadas” de Carlos Vilardebó, rodado em Porto Santo, e “Via Macao”, de Jean Leduc.

Amália Rodrigues destacou-se, também, pela forma como introduziu inovações na postura e indumentária dos fadistas que vieram a transformar-se em verdadeiras convenções performativas, como é o caso do uso sistemático do vestido e xaile negros, e do posicionamento à frente dos guitarristas.

O interesse pela poesia erudita foi mais uma novidade imposta pela fadista. Assim, logo no início da década de 1950, Amália Rodrigues gravou “Fria Claridade” de Pedro Homem de Mello e, em 1953, “Primavera” de David Mourão-Ferreira. A colaboração com estes dois poetas seria uma constante e outros fazem parte, posteriormente, das suas interpretações, caso de Luiz Macedo e Sidónio Muralha (1954), Alexandre O’Neill (1964), José Régio (1965), Vasco de Lima Couto (1967), ou Manuel Alegre e José Carlos Ary dos Santos (1970).

Em 1962 a fadista lançou o seu primeiro LP com composições de Alain Oulman, muitas vezes referidas como as “óperas” de Amália. Neste disco, “Busto” ou “Asas Fechadas”, iniciou-se uma ligação que duraria até 1975, e que incluí gravações discográficas onde para além dos poetas já referidos, a fadista integra poesias do passado, como os trovadores galaico-portugueses, o Cancioneiro de Garcia de Resende ou Camões, que resultarão em discos de referência na história do Fado: “Fado Português”, “Fado’67”, “Vou dar de beber à dor” e “Com que voz”.

Em 1965, Amália Rodrigues editou o disco Amália canta Luís de Camões e o jornal Diário Popular, de 23 de Outubro de 1965, interroga várias figuras públicas sobre a legitimidade dessas interpretações, apresentando este tema polémico na capa do jornal.

Amália foi autora de muitos poemas que interpretou e editou em disco, alguns deles estão entre as faixas que mais a celebrizaram. Estes poemas foram editados no livro “Versos” da editora Cotovia, em 1997. A título de exemplo destacamos os seguintes: “Estranha forma de vida”, “Lágrima”, “Asa de vento”, “Grito”, “Gostava de ser quem era”, “Trago o Fado nos sentidos”, “Entrei na vida a cantar”, “Ai esta pena de mim”, “Lavava no rio lavava”, “Teus olhos são duas fontes”, “Fui ao mar buscar sardinhas”.

Em 1987 foi lançada a sua biografia oficial, escrita por Vítor Pavão dos Santos, com base em entrevistas realizadas entre 15 de Novembro de 1985 e 16 de Setembro de 1986. Escrita na primeira pessoa é um documento fundamental para compreender a carreira da mais importante fadista portuguesa.

As comemorações dos seus 50 anos de carreira, em 1989, são marcadas por diversas iniciativas que se prolongam pelo ano seguinte: um espectáculo no Coliseu dos Recreios, a 8 de Janeiro de 1990; a exposição “Amália Rodrigues. 50 Anos”, no Museu Nacional do Teatro, de Junho de 1989 a Março de 1990; a retrospectiva “Amália no Cinema”, na Cinemateca Portuguesa, em Novembro de 1989; uma grande tournée com espectáculos em Espanha, França, Suiça, Israel, Índia, Macau, Coreia, Japão, Bélgica, Estados Unidos e Itália.

Após o seu afastamento dos palcos, em 1994, Amália continuou a ser convidada de honra em inúmeros eventos culturais, nomeadamente durante a exibição das Marchas Populares no dia de Santo António, em Lisboa. E, em 1998 foi alvo de uma homenagem pública durante um espectáculo na Expo’98, no Parque das Nações.

Faleceu no dia 6 de Outubro de 1999. O seu funeral constituiu uma grande e sentida manifestação de dor e saudade como nunca antes se vira. O país inteiro chorou a sua Diva do Fado. Os seus restos mortais foram transladados do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional a 8 de Julho de 2001.

Amália Rodrigues é uma figura incontornável da História do Fado sendo por isso uma referência muito presente na exposição permanente do Museu do Fado. Ainda assim, em Junho de 2004 o Museu do Fado apresentou “Amália, Gostava de Ser Quem Era”, uma mostra evocativa da fadista que esteve patente ao público durante um ano.

Por vontade testamentária da fadista foi instituída a Fundação Amália Rodrigues, oficialmente criada a 10 de Dezembro de 1999, dois meses após a sua morte. Desde 2005 que esta fundação realiza uma gala anual, com atribuição dos seguintes prémios: Carreira Feminina e Masculina, Revelação Feminina e Masculina, Internacional, Música Étnica, Viola, Viola Baixo, Guitarra Portuguesa, Intérprete Feminina e Masculino, Registo Discográfico, Poeta de Fado, Compositor de Fado, Música Sinfónica, Fado Amador, e Ensaio e Divulgação.

PRÉMIOS E CONDECORAÇÕES

1948 – Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz no filme “Fado, História de uma Cantadeira”;
1958 – Grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada;
1959 – Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris;
1965 – Prémio do SNI para a Melhor Actriz do Ano, pelo desempenho como actriz nos filmes “Fado Corrido” e “As Ilhas Encantadas”;
1966 – Prémio Pozal Domingues para o EP “Fandangueiro”;
1967 – Prémio M.I.D.E.M. 1965-1966 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1968 – Prémio M.I.D.E.M. 1966-1967 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1966 – Prémio Pozal Domingues para o EP “Vou dar de beber à dor”;
1969 – Prémio M.I.D.E.M. 1967-1968 para o record de vendas no mercado discográfico português;
1970 – Grau de Oficial da Ordem Militar da Ordem Militar de Santiago de Espada;
1980 – Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique;
1980 – Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (7 Julho), Teatro São Luis;
1985 – Grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras;
1986 – Medalha de Ouro da Cidade do Porto;
1990 – Grã Cruz da Ordem de Santiago de Espada;
Selecção de Fontes de Informação:
“Guitarra de Portugal”, 10 de Agosto de 1938;
“Canção do Sul”, 1 de Março de 1940;
“Guitarra de Portugal”, 15 de Junho de 1945;
“Ecos de Portugal”, 1 de Março de 1948;
“Flama”, 4 de Julho de 1952;
“Álbum da Canção”, 1 de Junho de 1963;
“Flama”, 18 de Junho de 1965;
“O Século Ilustrado”, 29 de Junho de 1968;
“Rádio & Televisão”, 5 de Dezembro de 1970;
“Rádio & Televisão”, 9 de Fevereiro de 1974;
“Mais”, 12 de Agosto de 1983;
“Telestar”, 27 de Dezembro de 1986;
“Visão”, 29 de Junho a 5 de Julho de 1995;
“Expresso”, 1 de Julho de 1995;
“Caras”, 8 de Outubro de 1999;
Santos, Vítor Pavão dos (1987), “Amália: uma biografia”, Lisboa, Contexto;
Sucena, Eduardo (1992), “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, Lisboa, Veja;
Rodrigues, Amália (1997), “Versos”, Lisboa, Cotovia;
Baptista-Bastos (1999), “Fado Falado”, Col. “Um Século de Fado”, Lisboa, Ediclube;
Coelho, Nuno Almeida, 2005, “Amália”, Col. “Grandes Protagonistas da História de Portugal”, Lisboa, Planeta DeAgostini.
“The Art of Amália” (DVD), EMI Valentim de Carvalho, 2004.