A QUATRO MÃOS

por Jorge Lima Barreto

A Quatro Mãos, Fernando Gil; Mário Vieira de Carvalho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda 2005; 117 pgs.

O livro “A 4 MÃOS – Schumann, Eichendorff e outras notas” é uma obra singular de musicologia e teoria literária, sobretudo uma súmula parelha de dois breves ensaios de estética e da sociocomunicação musical, numa perspectiva diacrónica. De imprescindível leitura, foi escrito separadamente por Fernando Gil (FG) e Mário Vieira de Carvalho (MVC), sem interpelação, mutuamente dedicatário, é uma dupla abordagem do lied de Robert Schumann (RS) e das poesia e prosa de Joseph von Eichendorff (JvE).

O tomo divide-se numa primeira parte da lavra de FG, “Exemplos musicais”, um enredo viatório dasteoria e filosofia da música, tendo como tópico as canções para piano e voz “Liederkreis” de RS, escrito em 1788, sobre poemas de JvE; uma segunda abordagem, de MVC, “O engano dos significados ou a prisão da linguagem: da poética musical de Eichendorff à poética musical de Adorno”; dois suplementos: “referências”, matéria remissiva e, “anexos”, 52 excertos do romance “Ahnung und Gegenwart” que MVC entendeu adoptar como “Intuição e Presença”, mencionados e em tradução livre de MVC; no livro apresenta-se uma estremosa iconografia com fragmentos de pauta em FG; e uma escrupulosa citação de trechos do romance em MVC, de tal forma que nos dá uma vantajosa inteligibiliade dramática dum texto. Regime de dúplice articulação entre a música e a poesia, a teleologia da narrativa do romance e uma voz interior transitória que o lê. O ensaio dialógico propõe-nos uma outra visão do romantismo, denegando a concepção ortodoxa.

FG ancora a sua análise de teor filosófico no disco gravado por Dietrich Fischer-Dieskau, barítono, e Chritoph Eshenbach, piano, de 1975, DDG; na senda do conhecimento de certa música e de determinada poesia, numa torrente de erudição. Para FG, a banalização mata a música que não admite ser incaracterística – “odeio o céu sem estrelas”; a música de RS e a poesia de JvE, são germe de derrisão, do fantástico, da doçura pronunciada pelos lábios e da ternura da polpa dos dedos nas teclas. FG assevera que “falar de música implica despossuirmo-nos, perdermo-nos um pouco”. Música instrumental e canto são formas em movimento, onde impera a diferença e não a unidade.

A exposição de FG é construtivista e sistemática, re-explicação da própria experiência.”Ouvir o texto como música”; “o real na música é o que não há as palavras”; “a cadência recorda o ritmo dum conto”. Expondo diversificadas teorias musicais e artísticas, para iluminar o entendimento de “Liederkreis”, as afinidades estéticas são urdidas numa cadeia interdisciplinar, isomorfismo da metodologia das ciências cognitivas de hoje.

Para RS “a estética duma arte é a mesma doutras, só o material é diferente” – o lied aglutina a expressão literária e a musical, sob um manto de coerência anímica; contra a vaga autonomia e pelos valores vitais e humanos. Numa conclusão de FG, RS não está simplesmente entre a música formal de Bach e a música significativa de Wagner. “A desfazagem entre a harmonia e a melodia”, sirva como sintoma, “representa a angústia”; oposições binárias entre a racionalidade da escrita e a contingência da execução – não apenas do intérprete-músico mas também do intérprete-leitor; entre a música perennis e a invenção; misto de sons naturais, a voz e o fenómeno sónico ambiente e, sons artificiais, o piano; som e música, pauta e poema. O poeta é o Duplo para o músico, a voz é sósia do piano; uma dialectica adorniana da significação: a esfera mimética expressiva, quase gestual, puramente afectiva e um príncipio de construção racional.

MVC, pelo seu estilo de versão lusófona da terminologia alemã, depurando os étimos, revelando as significações mais ocultas, reclama- se de Walter Benjamin, o qual considerava a aura como um misto de sentimentos e intuições inextrincáveis, vedada a uma definição discursiva. MC propõe-nos um estudo magistral dum romance, “Intuição e Presença”; escuta através dos sintagmas literários, lê, fala sobre a sociedade no tempo de RS e de JvE. A literatura só é música quando transcende o significacional, representando a alma das coisas, o que exprime a natureza.

No texto do romance, intercaladas, surgem recordações íntimas de canções e imaginam-se melodias encantatórias; a música manifesta-se pela sua capacidade de relação constante com o que nos circunda, e as suas perturbações são metaforizadas nos sons da floresta, do rio, enfim, da natureza; alude-se à tentação descritiva do romantismo, sentimento profundo, mistério e devaneio.

O catolicismo de JvE implica o asco à sociedade, significado da oposição do espiritual (o dia) e do mundano (a noite), redimida no lusco-fusco onde não há dia nem noite. Para MC a música tem a faculdade de dizer o indicível, interpenetração emotiva com o social circundante. Num sentido adorniano denota o fascínio da cultura, que esconde o domínio do homem sobre a natureza externa,bem como sobre a sua própria natureza interior. Reverencia Niklas Luhmann considerando que a comunicação se inscreve no seio das dinâmicas sociais – o problema mnemónico da sociedade oral; a residência aristocrática e o castelo burguês; o mundo do onírico e do imaginário e, o do real quotidiano; o distanciamento do fenómeno ocorrido inclui o observador e o observado na interpretação do mundo poético-musical – arvoredo, paixão, delírio,psicose, beleza.

MC é adorniano e desperta-nos para a crítica a Rousseau, no momento seminal do Aufklarung; aí, a arte dissimula-se a si própria, fica ao alcance de todos, expostos ao artifício e à ilusão. Segundo MC, a mimesis em JvE é a transcendência da própria percepção enquanto símbolo; a supensão do eu opunha-o ao subjectivismo romântico; por seu turno a música de RS é, assim, uma utopia particular; autopoiesis, autoreferencial.

“A QUATRO MÃOS”, título numa explícita referência a obras para um piano e dois pianistas, advém duma coincidência ou dum acaso; parte do texto avulso de Fernando Gil sobre canções de Robert Schumann (música) e Joseph von Eichendorff (poema) e, dum estudo correlativo, senão réplica, de Mário Vieira de Carvalho sobre as alusões à música num romance de Eichendorff. Uma empatia inefável torna os textos cúmplices, com extraordinária sapiência musicológica e preciosa abordagem da filosofia e da sociocomunicação, magnificados pela erudição singular de cada um dos autores.

Jorge Lima Barreto

Lisboa, SPA

A 4 mãos