A MÚSICA NOS PRIMEIROS ANOS

Excerto de A Expressão Musical na Creche e Jardim-de-Infância, Relatório do Projeto de Investigação (Versão Definitiva) de Mestrado em Educação Pré-Escolar, por Inês Almeida Raposo. Escola Superior de Educação de Setúbal, 2015.

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Os primeiros anos de vida da criança são fundamentais para a construção de uma base sólida, de várias aprendizagens essenciais para a formação humana, sendo que “jamais o potencial de aprendizagens de uma criança é tão elevado como no momento em que ela nasce” (Edwin Gordon).

Cabe ao educador, professor e à família proporcionar momentos de aprendizagem que fomentem o desenvolvimento da criança, visto que “aquilo que uma criança aprende durante estes primeiros cinco anos de vida forma os alicerces para todo o subsequente desenvolvimento educativo (…)” (Edwin Gordon).

Cíntia Soares refere que, mesmo antes, “desde a vida intra-uterina, o bebé é cercado por um ambiente sonoro, convive tanto com ruídos externos quanto com os  sons interiores causados pelo funcionamento do corpo da mãe e pela sua voz. Aproximadamente pelo sexto mês de gestação, a audição do bebé alcança sua maturidade, sendo comparável à audição de um adulto”.

Nicole Jeandot também afirma que “durante a gestação a criança possui contato com a música, pelo menos com um dos seus elementos fundamentais, o ritmo, através das pulsações do coração de sua mãe”.

Contudo, e de acordo com Cíntia Soares, existe o caso de bebés que estão imersos num meio musical, pelo facto de os pais estarem ligados à música, o que gera uma aguçada perceção auditiva nas crianças e potencia habilidades musicais. Assim sendo, quanto mais o bebé estiver exposto a um ambiente sonoro diversificado maior serão as probabilidades de ampliar as suas habilidades musicais.

No momento do nascimento, a criança tem a sua primeira manifestação sonora através do grito sendo que “os sons que produz são indiscriminados e não intencionais” (C. Torrado). A criança comunica através do grito e, de seguida, passa para o balbucio onde se inicia o período da lalação. Este período “(…) constitui um exercício de preparação da expressão verbal que irá declinar quando a criança [começa] a pronunciar as primeiras palavras (…)”.

Tanto o grito como o balbuciar, que serão explicados mais à frente, não se podem considerar musicais. Porém, constituem um período pré-linguístico e pré-musical. Sendo que, e face à linguagem, os “recém-nascidos, ouvem falar uma língua à sua volta, antes mesmo de serem capazes de compreender o que está a ser dito.

Absorvem tudo o que ouvem e, em breve, começam a vocalizar sons imitando a fala” (Edwin Gordon). Pelo que, todo o processo indicado previamente, auxilia o bebé a apropriar-se da sua língua até conseguir verbalizá-la. Contudo, e como indicado anteriormente pela autora Nicole Jeandot (2001), como a criança na gestação possui contacto com a música, através das pulsações do coração da mãe, é natural que mesmo antes de começar a falar esta emita alguns sons parecendo, por vezes, que está a cantarolar.

Durante os primeiros anos de vida da criança, de acordo com Edwin Gordon, existem três períodos cruciais em que a orientação e educação por parte dos educadores e dos familiares é essencial.

O primeiro período ocorre desde o nascimento até aos dezoito meses, onde esta aprende “(…) através da exploração e a partir da orientação não-estruturada que lhe proporcionam os pais e outras pessoas que dela cuidam”.

O segundo período vai desde os dezoito meses até aos três anos de idade, onde a criança continua a obter uma orientação não-estruturada. No terceiro e último período, entre os três e cinco anos de idade, o tipo de orientação passa a ser estruturada e também não-estruturada sendo recebida em casa ou num meio pré-escolar.

Este autor refere também, que a orientação não-estruturada é quando os pais ou educadores oferecem à criança o contacto com a sua cultura, sem que haja uma planificação específica. Contudo, quando esta é estruturada, é exigida uma planificação que se centra no desenvolvimento da criança. Em ambas as orientações, “as crianças são postas em contacto com a sua cultura e encorajadas a absorvê-la.

A orientação informal estruturada e não estruturada baseia-se e opera em consequência das actividades sequenciais e respostas naturais da criança” (Edwin Gordon). Sendo que, e de acordo com Jeandot (2001), a criança (individualmente) explora de forma espontânea a música através do corpo e do espaço, balançando com o corpo, batendo palmas, batendo o pé, mexendo a cabeça, iniciando assim movimentos bilaterais.

Cíntia Soares ainda refere que, o contacto “com a música, além de desencadear reações motoras e vocais nos bebês, provoca mudanças na sua ação, incentivando-o a descobertas sonoro-musicais próprias, em manifestação de aprendizagem”.

Face ao desenvolvimento da compreensão musical das crianças, Gordon, afirma que é necessário existir uma orientação estruturada ou não-estruturada por parte dos pais. Assim como os pais encorajam as crianças à iniciação do balbucio da língua também deverão incentivar e encorajar o balbucio musical, visto que “quanto mais cedo uma criança emergir de uma fase de balbucio musical, mais musical se espera que venha a ser durante a sua vida”. Jeandot  afirma também, que é balbuciando que as crianças começam a interagir com a música, fazendo sons únicos e repetitivos e aos poucos passam a conseguir diferenciar várias músicas e diferentes sons.

De acordo com Gordon existem duas fases do balbucio musical, uma é o balbucio tonal e a outra o balbucio rítmico. Este autor, afirma ainda, que “uma criança pode emergir do balbucio tonal e do balbucio rítmico ao mesmo tempo, ou de um antes do outro”. Na fase do balbucio tonal, a criança tenta cantar com uma voz falada “e as relações entre os sons que [produz tem] pouco ou nada em comum com o contexto que foi estabelecido pela cultura musical”. Esta situação acontece devido ao facto da criança não ter aprendido a distinguir “entre uma qualidade de voz falada e uma qualidade de voz cantada”. Sendo que, “as crianças ouviram a voz falada muito mais frequentemente do que a voz cantada e por isso não estão motivadas para experimentar a sua voz cantada e aprender como a sentem, não necessariamente como soa, comparativamente à sua voz falada, com que estão mais familiarizadas”.

Na fase do balbucio rítmico, as crianças “produzem diferentes sons e movimentos duma forma errática. Estes sons e movimentos não têm um tempo consistente, são muito próximos uns dos outros, e não têm continuidade contextual em termos das métricas que são naturais na sua cultura musical”(Gordon).

Contudo, Helmuit Moog afirma que o balbucio dos bebés pode ser musical ou não-musical. O não-musical encontra-se primeiro que o musical, por volta dos 2 a 8 meses, sendo que antecede a linguagem. O balbucio musical forma-se como uma resposta a uma música ouvida pelo bebé. Pelo que, estes “compõem-se de poucas sílabas, simplicidade rítmica e com pausas somente para a respiração. O bebê explora tons e imita o que ouve”.

Tânia Silva refere que no primeiro ano de vida, a criança inicia o seu processo de fala começando por imitar animais, pessoas, meios de transporte entre outros sons comuns do seu meio envolvente. Desenvolve o seu ritmo e consegue sincronizar os seus movimentos de pés, cabeça e braços. Perto dos dois anos de idade, as crianças já reagem a qualquer tipo de som e gostam de imitar os sons que escutam. As crianças estão em constante desenvolvimento e a expressão musical apoia nesse sentido.

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