A MÚSICA EM TEMPOS DE CÓLERA

por Sérgio Azevedo

Em 2004, quando do nascimento do Francisco, o meu primeiro sobrinho, filho do meu irmão Mauro, escrevi a Sinfonietta Semplice, para orquestra, para celebrar o evento, e em seguida, também para a primeira filha da minha irmã Cristina, a Carolina, que está prestes a nascer, escrevi uma outra obra orquestral. A celebração, pelos músicos, de eventos do seu dia a dia ou de eventos felizes que afectam a humanidade em larga escala tem sido uma constante, desde que a arte musical se libertou da férula de um certo dogmatismo funcional, e passou a constituir, mais que um serviço aos nobres ou um serviço à Igreja, uma expressão pessoal.

Digamos que, depois de Mozart aparecer, a música deixa de ser apenas expressão da religiosidade como o tinha sido para Bach, ou mero ganha-pão ao serviço da nobreza, como o havia sido para todos os músicos que antecederam o génio de Salzburg. Com Mozart, e pela primeira vez sente-se o doce aroma da liberdade, embora uma liberdade conseguida à sua própria custa. Nos últimos “Concertos para Piano”, nas três últimas “Sinfonias”, em “Dom Giovanni” ou na “Flauta Mágica”, no inacabado “Requiem”, o compositor deixa de ser mestre-capela – “kapelmeister” – e torna-se um veículo da sua própria emoção perante o espectáculo do Mundo.

Morre pois o mestre-capela, nasce o compositor livre, que, de Mozart culminará em Beethoven, o grande símbolo dessa libertação, conseguida também graças aos princípios da Revolução Francesa. E, não por acaso, com a sua própria libertação, Beethoven consegue a dos outros. A 3ª, 5ª e 9ª Sinfonias, simbolizam ainda hoje, para muitos de nós essa aspiração à liberdade do indivíduo face a uma sociedade que, muitas vezes, o esmaga. E não é por acaso que o sinal musical para o avanço aliado no tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial, juntamente com os dois dedos em “V” da vitória, foi o célebre início da 5ª Sinfonia de Beethoven, ou que o hino da União Europeia, utopia – ou talvez não – de um mundo mais solidário e tolerante, seja precisamente o final da 9ª.

Em tempos de cólera a arte, tal como a tecnologia, produz resultados muitas vezes avassaladores. Ironia das coisas, brincadeira de Deus, ou resultado de um caos primordial, em tempos de cólera, em tempos como os que rodearam Aristides de Sousa Mendes, surgem muitas vezes obras marcantes pela sua elevação artística. Sensível à tragédia que os rodeia, mesmo os artistas mais fúteis ou mundanos, mesmo os mais desinteressados, são incapazes de se abstrair da realidade que os cerca e lançam ao papel os seus pensamentos e emoções mais profundas, transcendendo-se muitas vezes a si próprios.

Nascem assim, no período entre 1936 e 1945, ou seja, entre o início da terrível Guerra Civil de Espanha e o fim da Segunda Guerra Mundial obras tão trágicas, violentas e, dentro da sua tragédia, tristemente belas como a 5ª Sinfonia de Prokofiev, a 8ª de Chostakovitch, a 2ª de Honneger, ou a 3ª de Roussel. Mesmo no Portugal fascista de Salazar, um Portugal – só aparentemente – afastado da guerra, Fernando Lopes-Graça, de quem fui discípulo e amigo, compõe em 1944 aquela que é, quanto a mim, a sua maior obra orquestral, a “Sinfonia per Orchestra”, obra que espelha a tragédia que se passava lá longe, segundo a ideologia oficial do governo, mas também, para quem não quis ignorar o que se passava, cá dentro.

Falo, é claro, do drama dos refugiados, muitos dos quais só puderam atingir os Estados Unidos a partir de Lisboa, e que por aqui iam sobrevivendo, quais fantasmas à espera do barco ou do vôo libertador. Esses refugiados traziam o drama da guerra para Portugal, e eram, por isso, incómodos. Ao apoiar a política nazi em relação aos refugiados, proibindo os seus cônsules de passar vistos aos “indesejáveis”, Salazar pactuou efectivamente e em termos muitos reais, que significaram a morte para muitas pessoas, com Hitler, e essa é uma vergonha que Portugal carregará para sempre na sua História.

Felizmente para nós, para o género humano, mesmo na maior desgraça, mesmo no fenómeno sem paralelo que foi a Shoah (o extermínio dos judeus europeus), aparece sempre alguém que nos faz acreditar na bondade humana, e esse alguém foi, para a redenção de um Portugal fascista, Aristides de Sousa Mendes. A partir daqui a sua história, o que se passou em Bordéus em 1940 já é quase lenda, toma os contornos de mito.

A própria hesitação de Aristides perante a enormidade da tarefa, perante a responsabilidade dele para com os outros mas também para com a sua numerosa família, a o fardo da desobediência a ordens, da ilegalidade, tomaram a forma de um retiro espiritual de três dias, após os quais uma epifania surgiu. E os resultados dessa epifania, todos os que aqui estão sabem as consequências: felizes para cerca de 30.000 pessoas desesperadas, trágicas para Aristides, que arruinou a carreira, e, de certo modo, a vida pacífica e feliz que até aí tinha tido, vindo a falecer com a família espalhada e na maior pobreza. E não se pense que desobedecer a ordens, nomeadamente numa época como aquela, era uma decisão fácil. Uma ordem era lei, muito mais para um representante do Estado Português. E, se a lei quanto aos refugiados era injusta, ainda assim era uma lei. Não esqueçamos que o esquecimento das leis é um dos pilares dos estados totalitários, esquecimento inclusive das própias leis que esses estados promulgam, boas ou más. E não esqueçamos também que, de tal modo ainda era arreigada a convicção de que quem manda é que toma toda a responsabilidade, que a defesa mais comum usada em Nuremberga foi a resposta “não fiz mais do que obedecer a ordens”. Aristides tomou precisamente a decisão contrário a esta: a decisão de não obedecer a ordens imorais que iriam condenar milhares de pessoas a uma sorte funesta, sabendo perfeitamente que a culpa seria também sua, por ter obedecido cegamente. Foi assim contra todos os princípios que sempre nortearam a sua carreira de funcionário leal. Mas leal a quê? Essa é a questão que sempre se deve pôr. Será traidor ao país aquele que se nega a cumprir ordens assassinas?

Para um católico convicto e praticante como era Aristides, a sua história e figura assemelham-se às de um Cristo. Está lá tudo: o retiro para o deserto, neste caso o seu quarto, durante 3 dias, as tentações e o esperar da iluminação, e, finalmente, a epifania, o regressa fortalecido de convicções, acabando por cumprir um destino trágico em nome da humanidade sofredora. E, no entanto, tal como Cristo, tal como Gandhi, tal como muitas outras figuras, e não hesito em dizê-lo face ao que conhecemos da fé cristã de Aristides, religiosas da história da humanidade, Aristides não foi um deus nem um super-homem, não dispunha de poderes especiais nem de poções mágicas nem de anjos à sua volta a puxá-lo.

Aristides foi apenas um homem, um bom homem, e os poderes de que dispunha para lutar contra a barbárie eram os que todos nós em potência dispomos: o senso-comum, a bondade, o sentimento da solidariedade, da tolerância, do bem comum. Todos esses sentimentos estão em potência no ser humano, sendo que muitas vezes não são utilizados. Aristides pensou no que fazer durante três dias e chegou à conclusão que podia fazer a diferença, e que essa diferença ia salvar a vida a milhares de pessoas. E fê-lo porque era um homem bom, porque era um justo. E todos nós o podemos fazer, assim o queiramos, nas nossas vidas.

Nada pois mais natural para mim do que celebrar a vida e obra deste homem excepcional do que com uma Missa . Não só pela religião que ele professou, que não o impediu de salvar milhares de pessoas de outra religião, um exemplo para os conturbados tempos de hoje, onde se continua a matar em nome de diferentes credos, como também pelo facto de uma Missa – independentemente dos credos de cada um – expressar a ideia de reunião, de encontro entre pessoas. Pois Missa é isso que significa: reunião, e religião significa “ligação”.

O aspecto religioso do Homem, presente em todas as culturas, deverá pois servir para unir, para ligar e reunir pessoas, e nunca para as afastar. Compus uma Missa com essa intenção. Em tempos de cólera, a arte é das poucas actividades humanas que resiste ao ódio. É uma característica da grande arte, o nunca poder exaltar o ódio, mas apenas o amor, a tolerãncia ou a esperança. Não conheço praticamente nenhuma grande obra de arte, musical ou não, que exalte esse sentimento terrível que é o ódio. As que o tentaram vieram a provar rapidamente não serem merecedoras dessa designação, e não passaram de sub-produtos “kitsch” da verdadeira grande arte. São duas coisas contraditórias, beleza e ódio.

Se falei no início desta minha intervenção nos meus sobrinhos e nos meus irmãos que estão hoje aqui, bem como vários amigos e os respectivos filhos, foi também porque, e tal como testemunha a carta do professor Sylvain Bromberger que aqui foi lida, se todos estas pessoas que eu amo estivessem em Bordéus em 1940, e tivessem o azar de serem judeus, resistentes ao fascismo, ciganos, comunistas, homosexuais, até doentes mentais, ou, pura e simplesmente “indesejáveis”, segundo o distorcido sentido humano nazi, agora não estariam aqui, nem eu veria os meus sobrinhos, ou os meus pais e irmãos, nunca mais.

Pensem por um momento no que isto significa. Famílias inteiras que desapareceram, pessoas que de um momento para o outro perderam praticamente toda a família, conhecidos e amigos. Isto é qualquer coisa que penso não podermos verdadeiramente apreender em todo o seu terrível significado. Mesmo a melhor arte não tem poder para transcender uma tal realidade. Como profeticamente disse Heinrich Heine: “começa-se por queimar livros e acaba-se a queimar homens”, e foi isso que aconteceu. Queimam-se os livros que falam de tolerãncia e paz, proibe-se a música que espalha beleza apaziguadora, e o resultado final é, neste caso concreto da Segunda Guerra Mundial, o Holocausto.

Pelas chaminés de Auschwitz, de Bergen-Belsen, de Treblinka e de muitos outros fábricas de morte pela Europa fora, não eram só as cinzas de milhões de pessoas que esvoaçavam em direcção às nuvens, para sempre cinzentas, era também toda uma cultura que se evaporava. Não por acaso, os novos compositores do pós-guerra, nomeadamente na Alemanha, compositores como Stockhausen, Boulez, Nono e muitos outros, optaram por um conceito de arte e de música completamente radical e diverso do anterior.

Voluntariamente, quiseram romper as amarras com um conceito de cultura e beleza que, aparentemente tinha moldado o mundo que conduzira ao inominável horror do Holocausto. O próprio Adorno falou na impossibilidade da poesia depois de Auschwitz. Como poder pensar poeticamente depois daquilo? Surgiu com o pós-guerra um mal estar artístico que já surgira pela primeira vez no rescaldo da 1ª Guerra Mundial, que impressionou a humanidade pela sua dimensão até então inaudita, e o seu cortejo de horrores surgido das novas tecnologias da morte, como o gás venenoso ou a metralhadora.

Quando Aristides fez o que fez, ainda a máquina de extermínio nazi não era conhecida em toda a sua extensão, nem os planos para a Solução Final estavam delineados, embora já tivesse começado há muito a segregação e perseguição aos judeus e outros indesejáveis. Era no entanto já suficientemente dramática a situação de milhões de pessoas para o decidir a cumprir o seu dever enquanto Homem e cidadão.

O que terá pensado Aristides quando toda a dimensão do Holocausto foi enfim revelada ao mundo em Nuremberga? O que terá ele pensado se tiver tido conhecimento que existia uma orquestra em Auschwitz, uma orquestra de prisioneiros que tocava música para os altos dignatários que visitavam o campo e para acalmar os desgraçados que marchavam em direcção às câmaras de gás? Ele, um amante da música, saberia que essa orquestra, como hoje se tem conhecimento, tocava, entre valsas da moda e marchas alemãs, arranjos das 7ª e 9ª Sinfonias de Beethoven? O que sentiria um músico, prisioneiro e enregelado no meio do inferno, ao ser obrigado pelos seus captores, a tocar alguma da mais bela e utópica música alguma vez escrita?

Diz-se que a figura simbólica do Diabo representa a inversão de tudo aquilo que um Deus representará, e, nesse sentido, Aristides salvou literalmente milhares de pessoas daquilo que outros homens imaginaram como a coisa mais próxima do Inferno que já terá surgido à face da terra. Um mundo invertido, onde se tocava Beethoven enquanto se exterminavam milhões de homens e mulheres, velhos e crianças, doentes mentais e incapacitados físicos.

Não; a música e a arte celebram a vida, não a morte, e mesmo aquela música ou arte destinada a cerimónias fúnebres acaba por dar esperança aos que ficam, nunca ao contrário. A beleza do olhar do artista só existe porque este se emociona com a beleza do mundo e das coisas. E se o seu semelhante sofre, é ele também que sofre. E não posso deixar de terminar esta intervenção com o mote do conhecido sermão de John Donne, que já no século XVII escrevia o seguinte, adequadamente retomado por Hemingway no seu livro “Por Quem os Sinos Dobram”, sobre a Guerra Civil de Espanha, prenúncio do ataque nazi à Europa e campo de ensaio para os soldados de Hitler. Um mote que simboliza a acção de Aristides e o preceito judaico “Quem salva uma vida salva o mundo inteiro. E passo a citar John Donne:

Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do

CONTINENTE, uma parte da TERRA; se um TORRÃO é

arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída,

como se fosse um PROMONTÓRIO,como se fosse a

CASA dos teus AMIGOS ou a TUA PRÓPRIA;

a MORTE de qualquer homem diminui-me,

porque sou parte do GÉNERO HUMANO.

E por isso não perguntes por

quem os SINOS dobram;

eles dobram

por ti.

Discurso pronunciado no concerto de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, a 2 de Outubro de 2005, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Sérgio Azevedo, foto Carlos Mateus de Lima