A IMPROVISAÇÃO DE JORGE LIMA BARRETO

por Emanuel Dimas de Melo Pimenta

La musique, c’est du bruit qui pense. (Victor Hugo)

Para muito além de uma espécie de misteriosa e reveladora arqueologia do presente, A Improvisação de Jorge Lima Barreto abre, muito seguramente, um novo campo na historiografia musical: aquele que toma a emergência da arte e da cultura a partir da metamorfose dos meios que constroem o mundo.

Até hoje, a história – qualquer que seja – nasceu e se fundamentou na coisa em si, nos factos aparentes, como se fossem o seu objeto último, num processo que evidencia o impacto exercido pela predicação e pela ilusão de contiguidade.

Mesmo uma história das mentalidades – tal como a das ideias ou da vida privada – sempre estabeleceu como método de pensamento o seu objeto primeiro enquanto elemento último da análise.

Fala-se de ideias que se substituem, da música que se transforma, da arquitetura em metamorfose, assim como das guerras, poderes e crenças que se sucedem.

Assim, tal como acontece tradicionalmente na abordagem da música, as ideias mudam, transformam-se, e são tomadas como elemento essencial da sua própria historiografia.

Mas, com Jorge Lima Barreto a abordagem à música aspira a um salto às suas mais profundas raízes, àquilo que a estrutura, à metamorfose das suas origens, aos seus elementos geradores primeiros, quase biológicos.

Essa é a natureza genética do que chamamos de media, de meio, que, mais que interface, é parte activa do processo de construção do pensamento.

É o meio que surge, subitamente, como elemento matricial, dimensão mais essencial do processo.

Por essa via, a história é lançada a uma dinâmica que lembra um laboratório de investigação científica. Ela passa a emergir dos meios e não mais dos fins. Aqui, não são mais os fins que justificam os meios, como pregava a lógica de Maquiavel – e que nada mais fazia que compreender a estrutura lógica que se estabeleceu com o domínio sensorial do alfabeto fonético e do papel.

Por isso, o significado de um signo é outro signo, de natureza diferente, como ensinava Charles Sanders Peirce. E também por isso, o meio é a mensagem.

A raiz da palavra Indo Europeia *medhyo – que significava a ideia de algo entre duas coisas e que passou quase que directamente para as nossas expressões meio e media – era a partícula *m, que indicava a ideia de limite.

Assim, também surgiu a palavra matéria – que poderíamos compreender como uma espécie de limite do movimento; a palavra mãe, revelando um dos limites da vida; o termo mar, que era o limite do mundo; e a expressão medida, que indica os limites do conhecimento.

A noção de medida como limite do conhecimento é clara nos termos Sânscritos manu, que significa simultaneamente aquele que mede, homem e sábio; manis, que significa pensamento, inteligência; ou mesmo atman, que tem o sentido – ainda que aproximado – de alma ou de sopro vital.

Mas, aquela antiga partícula Indo Europeia *m, desaparecida há mais de vinte mil anos, também indicava a ideia de energia criativa, e está na raiz da nossa palavra mente.

Curiosamente, é dessa mesma raiz que surge a palavra meio. Pois aquilo que está “no meio” forma uma espécie de limite e está sempre na nossa mente, independentemente de onde aquilo a que chamamos mente possa estar localizado.

É isso o que nos ensina Jorge Lima Barreto.

Mas, ele vai mais longe: a essência do meio está na improvisação.

Isto é, a essência da inteligência, da mente, está na surpresa, no imprevisível, no improviso – porque apenas a diferença produz a consciência.

Herbert Read ou Lewis Thomas, sempre sabiamente, diziam ambos que a história das palavras é uma importante chave para a história das ideias.

Assim, se mergulharmos mais profundamente nas origens etimológicas da palavra improvisação, descobriremos que ela se lança ao Indo Europeu *weid, que indicava a ideia de ver – não de olhar.

Daí as nossas palavras ver, visão, previsão e provisão. A palavra provisão, surgida do Latim providere, significa assim ver antecipadamente – de onde nasce a ideia de providência.

Quando Jorge Lima Barreto nos diz que «entramos numa nova era da nossa relação sensorial, imaginária e simbólica, a era das estéticas da comunicação», e que o fundamento essencial do meio é a improvisação – aquilo que não pode ser visto, percebido, antecipadamente – ele transporta toda a reflexão histórica para o tempo presente, eliminando o passado e o futuro.

Pois é no presente que tratamos do passado ou do futuro, e o presente somos nós.

Ele revela o meio enquanto limite – como se resgatasse para a música a célebre afirmação do astrofísico John Archibald Wheeler, segundo a qual «o limite do limite é zero»; e como se, com John Cage, acrescentasse que «tudo é possível quando tomamos o zero como ponto de partida».

Em termos neuronais, todo o universo cognitivo está fundamentado no princípio da improvisação.

A grande diferença entre o mundo animal em geral e o ser humano está naquilo que ficou vulgarmente conhecido como pensamento superior – que antigamente era dado como fator por excelência do tecido neocortical.

Na década de 1960, o neuroscientista Paul McLean criou um modelo – que rapidamente se tornaria mundialmente célebre – para a compreensão do cérebro em termos funcionais a que chamou de sistema triuno, dividido em três grandes setores: uma região filogeneticamente mais antiga, a que chamou de complexo reptiliano, compartilhado com o universo dos répteis; o sistema límbico, que caracteriza todos os mamíferos; e o neocortex, tipicamente humano.

Assim, uma parte do nosso cérebro filogeneticamente mais antiga seria semelhante à dos répteis; outra, responsável pelas emoções, seria filogeneticamente contemporânea do universo mamífero; e, finalmente, o sistema neocortical seria especificamente humano.

O sistema límbico – conhecido como o nosso centro das emoções e também do prazer – também responsável pela ativação daquilo a que chamamos de consciência, pelos estados de atenção, e pela fixação da memória de longo termo.

O elemento central da razão – ou do pensamento superior – está na articulação dinâmica entre os setores responsáveis pela memória de curto termo e aqueles que operam a memória de longo termo.

Para Micchel Serres, «a única diferença assinalável entre as sociedades animais e as nossas reside na emergência do objeto. (…) De facto, o objeto, especificamente feito pelo ser humano, estabiliza as nossas relações, ele retarda o tempo das nossas revoluções. Para um grupo de babuínos, as mudanças sociais queimam a cada minuto. (…) O objeto, para nós, torna lenta a nossa história».

O principal setor para a sedimentação da memória de curto em longo termo nos nossos corpos é um setor do cérebro conhecido como hipocampo.

O hipocampo é parte do sistema límbico – especialmente importante para as nossas emoções – responsável pela fixação de memória de curto em longo termo e pela geração de mapas de navegação. Quando o hipocampo é destruído em ambos os hemisférios cerebrais, não há mais fixação de memória.
Nele, há uma espécie de fluxo padrão de frequência, como se estivéssemos tratando de um processo em loops, em circuitos paralelos de retroalimentação, que flutuam em torno de quarenta ciclos por segundo.Num certo sentido, é como se tivéssemos uma espécie de atrator matemático estranho formado por diversos outros e a frequência geral dos loops, dos ciclos de retroalimentação, não conseguisse escapar a um determinado espectro de órbita.

Quando um evento estabelece um nível de redundância nesse sistema cíclico, uma memória de longo termo é fixada.

Embora a atividade sináptica no hipocampo seja profundamente assincrónica, podendo variar entre cem milisegundos a um segundo, ele possui um interessante fenómeno cíclico relativamente estável.

Simultaneamente àquele complexo conjunto de oscilações distribuído por todo o cérebro, funcionando em loops paralelos, e o seu vasto espectro de ciclos, o hipocampo tem uma espécie de frequência base, relativamente fixa, de natureza interna, conhecida como quarenta ciclos por segundo, ou 40 Hertz, que está presente tanto em setores designados tanto para o processamento visual como para os dedicados aos processamentos olfativo e auditivo.

No hipocampo, esses dois grandes conjuntos de frequências são superpostos: grandes complexos de oscilações e um campo girando em torno dos quarenta ciclos por segundo – tudo funcionando em espécies de conjuntos de informação a cada cinco a sete segundos.

Assim, imaginamos o funcionamento de um interessante atrator estranho: conjuntos de ciclos, como figuras matemáticas, tanto da percepção como de diferentes setores cerebrais reforçando ou enfraquecendo componentes de um sistema dinâmico e interactivo.

Compreendemos, assim como são sedimentadas memórias de longo termo.

Entretanto, o mais interessante é que não se trata de um processo fechado. O fluxo de informação não se realiza apenas em relação àquilo que chamamos de mundo exterior – ou entradas sensoriais – mas também acontece, e de forma bastante dinâmica, com os centros de memória de longo termo.

Improvisação é essa dinâmica associação entre complexos de memória de longo termo distribuídos pelo cérebro e diferentes entradas sensoriais. É o que acontece quando um músico improvisa. A ordem, os elementos de diferenciação, estão nas coisas e não entre elas, não no processo em si.

E está nesse processo caótico o fundamento lógico para o que chamamos de livre arbítrio, que apenas pode existir com o acaso, escapando à voraz rede de causalidade.

Isso também é – exatamente – o que fazemos quando pensamos, quando escrevemos, quando observamos. Por isso a obra de arte é algo íntimo, livre, quase segredo individual, e simultaneamente coletivo, relativamente pertencente ao mundo das causas.

A palavra erudito surgiu do Latim rudis, que significava rude, grosseiro, sem diversidade. Erudito – termo que praticamente não existia antes do século XVIII – significa, literalmente, diversidade, contrário de rude. Esse era o mesmo significado que Montesquieu dava à palavra refinamento.

Assim – como é patente na obra e na vida de Jorge Lima Barreto – a erudição nada mais é que um processo de improvisação sobre improvisação, projetando diferentes camadas nas extensões da memória.

Essa é a tradição do que se supôs ser o contrário da improvisação, como a elaboração de texto escrito, de um corpus teórico.

Qualquer discurso, em qualquer linguagem, verbal ou não verbal, é o resultado de improvisação. Este texto que está sendo lido neste momento, por exemplo, contou com oito lâminas superpostas de improvisação e alguns núcleos com cerca de dez a doze lâminas, como zonas de maior ou menor densidade.

A esse sistema de acumulação de lâminas de improvisação que é este texto, soma-se todos as novas dimensões de improvisação do leitor, em silêncio ou não.

Aquilo a que chamamos improvisação é a base do pensamento.

Quando Gerald Edelman, Prémio Nobel em 1974, descreveu o processo de conjunção e disjunção na formação de grupos neuronais especializados a partir do princípio de seleção natural, a essência do processo que ele demonstrou nada mais era que pura improvisação.

A leitura, a razão, a audição ou mesmo a memória nada mais são que improvisações: mesmo nas operações aparentemente mais simples, tal como ler uma palavra ou ouvir uma frase melódica, ativamos diferentes partes do cérebro dependendo do tamanho das letras que vemos ou da intensidade dos sons que ouvimos.

Quando diferentes partes do cérebro são envolvidas, diferentes padrões de memória emergem, imprevisivelmente, improvisadamente.

Em termos cognitivos podemos imaginar que os nossos cérebros são constelações de loops, de sistemas em retroalimentação, como atratores estranhos com órbitas flutuantes.

Os diversos setores neuronais possuem diferentes espectros de campos de frequência que podemos considerar como diversos circuitos cíclicos com órbitas caóticas funcionando em paralelo.

Não há, num tal sistema, qualquer coisa que possa ser chamada de previsível. Tudo é interação, tendência e imprevisibilidade: tudo é improvisação.

Por isso, Jorge Lima Barreto nos diz que «quer escrita quer oral, a música é uma arte concebida no momento».

Muitos ainda têm a clássica ideia segundo a qual a formação de novas memórias de longo termo está fundada na simples apreensão de novas memórias de curto termo. Na verdade, tudo é permanente construção.

Quando um músico improvisa, ele nada mais faz que operar intensamente esse processo, criando quase que um espelho entre as já estabelecidas memórias de longo termo e as entradas sensoriais.

Mas! Isso é exatamente o que chamamos de media!

O que nos faz lembrar, uma vez mais, John Wheeler com a sua afirmação de que «o limite do limite é zero».

Assim, a grande diferença entre o que é considerado ou não improvisação está apenas na natureza do meio. Se a improvisação ficou registada, de alguma forma, em nossas mentes ou – surpreendentemente – fixada através de um sistema mecânico ou electrónico, é considerada como tal. Se depender de interpretação declarada – como se não estivéssemos sempre a interpretar o mundo – deixa de o ser.

Independentemente de como classificamos os fenómenos, a natureza do meio modifica a natureza do processo. Quando operamos acumuladores externos de memória de longo prazo, tal como o papel, os meios de gravação musical ou o computador, para referir apenas três exemplos, alteramos a natureza daquela espécie de grande atrator estranho que possuímos como a base da transformação de conjuntos de memória de curto prazo, modificando o que somos e o que fazemos.

Por isso, o meio é a mensagem.

Mas, o universo que Jorge Lima Barreto nos mostra é ainda aquele onde o meio se expande com tal exuberância parecendo anunciar a emergência de uma nova civilização: «Hoje a música se encontra comprometida com os media».

Na música são os DJ, música de rádio, de cinema, muzak, computer music, multimedia, intermedia, transmedia, telemusic, jazz, rock, samba, morna, salsa, música ambiental e um interminável mundo de músicas e classificações em permanente auto contaminação e em largo espectro.

Todas essas músicas, antigas e novas, constituindo um imenso painel cósmico planetário como uma espécie de bricolagem fractal.

Tudo gerado pelo meio, pelos media, que expandem e estruturam as nossas memórias, redesenhando o nosso processo construtivo, ultrapassando velozmente as extensões humanas e estabelecendo verdadeiras próteses de inteligência.

Para a antiga cultura mecânica, literária e fortemente visual, a afirmação de Claude Lévi-Strauss, segundo a qual para a realização de qualquer estudo se deve estudar a história em primeiro lugar, fazia sentido.

Para o encantatório e narcotizante novo mundo, a história passa a segundo plano.

Palestrina, Bach, Beethoven, Debussy ou Stravinsky viviam a história e, tal como Victor Hugo, buscavam a revolução. Não há revolução sem história.

É o que Edgar Varèse dizia, de facto, quando proclamava que queria «exprimir as minhas convicções pessoais num meio de expressão completamente novo, numa máquina de sons e não numa máquina de reproduzir sons»; ou Ferruccio Busoni quando alertava que «o poder criador não pode ser conhecido senão em função da sua ruptura com a tradição» no seu clássico e genial Ensaio para uma Nova Estética da Arte Musical, de 1910, onde todos estudamos, como Jorge Lima Barreto nos mostra.

Mas, para o amorfo universo da música entretenimento sem fim, presente em todo o lado, do cinema aos elevadores ou supermercados, a história pertence a outro domínio e a revolução simplesmente deixou de existir.

Essa é a crítica que se faz ao que se acredita ser boa parte da chamada arte contemporânea: não mais referências filosóficas e históricas, mas um mundo feito simplesmente de efeitos.

Jorge Lima Barreto utiliza com grande destreza, como sempre, os instrumentos históricos para, paradoxalmente, revelar a não história, o não futuro.

Pois enquanto que o futuro está na memória do passado, o meio é o presente eterno – limite do limite.

Somente os grandes mestres são capazes de lidar com um paradoxo de tal dimensão, como se fosse uma espécie de koan iluminado.
Trata-se de um universo onde a cultura material se desmaterializou para, paradoxalmente, estar presente em tudo, de forma fragmentária e superficial, constituindo, como um novo paradoxo, um sistema contínuo. Por isso Nan June Paik dizia «vídeo é voar».

É então que alcançamos um dos pontos mais profundos do pensamento de Jorge Lima Barreto, quando – ao tocar a conserva musical, ou música em conserva – afirma que «na massmediatização progressiva e imparável, a tecnocracia musical consiste numa tentativa de industrialização, de mecanização do comportamento, através de métodos eles próprios criadores da realização musical, a culminar nas músicas automáticas», ou então, quando nos diz que «a maior parte dos sons que ouvimos ditos ou considerados como música provêem dum sistema sofisticado e totalitário da indústria sónica» – e com razão.

Um mundo onde o privado e o indivíduo se desintegram gradualmente.

Um mundo onde tudo se torna potencialmente Muzak: «para ouvir sem escutar».

Um universo paradoxal onde o colecionismo simplesmente deixa de ter lugar. Tudo passa a estar acessível em praticamente todo lugar. Assim, também a crítica séria – que deve visar o desnudamento das relações escondidas estabelecidas pela obra e não a sua simples e vulgar negação – praticamente desaparece.

E nesse oceano medieval de uma formidável riqueza fractal, Jorge Lima Barreto nos diz que «o avant garde leva o discurso a uma diferente linguagem como ‘metaplano da auto-reflexão’». Isto é: quando o avant garde acontece, é pura filosofia em oposição ao puro entretenimento – fenómeno raro, como a emergência de nódulos de erro numa hiper-rede de supercomunicação planetária em tempo real.

E, então, Jorge Lima Barreto nos confessa a sua poesia espiritual, o seu mais profundo desígnio de existência, quando diz que «apenas pela música pode o ser humano contemplar e (re)viver a fabulosa experiência da Natureza».

Pois nada mais somos que Natureza e Jorge Lima Barreto se encanta, encantando a todos nós, com a sua sabedoria, iluminando-nos e dizendo que «ao lembrar a naturalidade sonora o ser humano regressa ao passado natural», à sua essência, a sua alma.

Como se nos alertasse, sempre, para as palavras de Lao Tsé no Tao Te King:

To be and not to be are mutually conditioned
The difficult, the easy, are mutually definitioned
The long, the short, are mutually exhibitioned
Above, below, are mutually cognitioned
The sound, the voice, are mutually coalitioned
Before and after are mutually positioned

(tradução para o Inglês de Daisetz Teitaro Suzuki e Paul Carus)

Ser e não ser são mutuamente condicionados
O difícil, o fácil, são mutuamente definidos
O longo, o curto, são mutuamente exibidos
Acima, abaixo, são mutuamente compreendidos
O som, a voz, são mutuamente ligados
O antes e o depois são mutuamente posicionados

2010

Jorge Lima Barreto

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