Matilde Margalho, aluna do professor Augusto Trindade

Performance instrumental

Vânia Moreira

(…) Todas as horas de prática instrumental são realizadas com vista à aquisição de diversas competências, mas também com o objetivo de tocar em público as obras que trabalhou arduamente. Contudo, todas as expectativas canalizadas para o momento performativo podem conduzir a ansiedade, que, quando excessiva, se torna prejudicial ao desempenho.

No momento performativo, um certo grau de adrenalina e excitação pode ser benéfico para o desempenho do músico, aumentando a sua concentração e capacidade de resposta. Porém, as sensações experienciadas pela reação corporal do músico em palco podem assustá-lo pela falta de controlo que sente relativamente ao seu próprio corpo. É neste contexto que se desenvolve a ansiedade de performance, que tanto afeta músicos amadores, como profissionais, e que se refere ao pânico sentido face ao palco e à atuação perante um público. A taxa de incidência da ansiedade em contexto performativo é bastante elevada, e pode estar relacionada com aspetos da personalidade do indivíduo, como o perfecionismo ou a excessiva necessidade de controlo das situações.

Tal como em qualquer outra fobia, os sintomas desencadeados num momento de ansiedade de performance derivam da ativação do sistema de emergência do corpo, podendo desencadear-se as seguintes reações:

  • Aumento significativo de adrenalina no fluxo sanguíneo;
  • Aumento do bombeamento cardíaco;
  • Aumento da atividade pulmonar e alargamento das vias aéreas;
  • Diminuição da nitidez da visão;
  • Desconforto a nível estomacal pelo desvio de recursos do processo digestivo;
  • Redireccionamento de fluídos corporais como a saliva para a corrente sanguínea;
  • Ativação do sistema de arrefecimento corporal.

Há alguns fatores que se podem considerar como atenuadores desta ansiedade. Além da idade e da experiência – cujo aumento contribui para a diminuição de ansiedade em contexto performativo –, tocar em conjunto parece também ajudar – sendo tão menor a tensão e ansiedade, quão maior for o grupo. A relação existente entre o músico e o público também influencia diretamente a ansiedade do executante, sendo esta maior na presença de colegas músicos, assim como em auditórios onde a proximidade do público (e, consequentemente, das suas reações à performance) é maior. No sentido de ajudar os artistas a lidar com o pânico que sentem face ao palco, têm surgido propostas de diversos tipos de tratamentos, entre os quais se pode destacar:

  • Uso de drogas e medicamentos – como álcool, Valium e cannabis.
  • Psicanálise – procura interpretar a origem da ansiedade.
  • Terapia comportamental – insiste no treino de relaxamento corporal em contextos imaginários potenciadores de gerar ansiedade, recorrendo a diversas estratégias de relaxamento; adoção de rotinas prévias ao momento performativo; estabelecer e seguir uma hierarquia de ansiedades que varia entre a situação que potencia o mínimo de ansiedade até à situação que desencadeia uma ansiedade extrema, trabalhando assim ao longo da hierarquia por fases – só passam para a fase seguinte quando o indivíduo se sentir confortável na fase em que está a trabalhar; e a adoção de um estilo de vida saudável – exercício físico regular, descanso e alimentação saudável.
  • Terapia cognitivo-comportamental – recorrendo ao uso de estratégias cognitivas que incluem a visão da ansiedade como algo positivo para a performance; ao desenvolvimento de um discurso realístico e pessoal positivo; à recriação do ensaio mental que permite ao indivíduo antecipar e vivenciar as sensações que sentirá em palco, ter uma visão exterior da sua performance e, em simultâneo, ter uma visão interna que lhe permite praticar o discurso pessoal positivo; definição de objetivos.
  • Hipnoterapia – recorre ao uso da hipnose, indiciando no indivíduo sugestões de relaxamento, respiração lenta, imaginação de cenários agradáveis acompanhados de sugestões verbais que associam essas imagens a um maior controlo mental.
  • Técnica Alexander – consiste numa reeducação cinestésica que recorre a instruções verbais e demonstração prática para corrigir posturas corporais desadequadas.

Apesar de seguirem caminhos e perspetivas distintas, todas as técnicas apresentadas são propostas válidas. A opção por uma delas deverá ser feita consoante a identificação do sujeito com a mesma.

Porém, convém não perder o foco relativamente a esta questão, e não procurar anular as reações vivenciadas em momento performativo.

São diversos os estudos que comprovam os efeitos fisiológicos desencadeados pela música – influenciando o ritmo respiratório, a pressão arterial, as contrações estomacais, os níveis hormonais, o ritmo cardíaco que procura sincronizar-se com a pulsação musical, e influencia, até mesmo, os ritmos elétricos cerebrais.

Vânia Moreira

Contudo, em vez de reagir com inquietude perante todas essas respostas fisiológicas, será sensato relembrarmo-nos que um certo grau de adrenalina e excitação pode ser benéfico para o desempenho musical e que devemos aproveitar toda a influência que a música tem sobre nós para exteriorizar as nossas emoções, sensações e sentimentos, vendo o instrumento como um meio para essa exteriorização. (…)

A aprendizagem de um instrumento musical em contexto individual e em contexto de grupo, por Vânia Filipa Tavares Moreira – Mestrado em Ensino de Música – Instrumento e Música de Conjunto – Orientadora Doutora Maria Luísa Faria de Sousa Cerqueira Correia Castilho, Coorientadora Especialista Catherine Strynckx. Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicadas, janeiro de 2015. Excerto.

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

Matilde Margalho, aluna do professor Augusto Trindade
Matilde Margalho, aluna do professor Augusto Trindade na Academia de Música de Paços de Brandão
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