Orquestra Geração no São Luís em 2016

A Orquestra Geração

Vânia Moreira

(…) Em Portugal, deu-se continuidade aos ideais e fundamentos do El Sistema através da implementação do projeto Orquestra Geração. Visando incidir sobre as problemáticas sociais vivenciadas pelas crianças pertencentes a bairros socialmente desfavorecidos, o projeto recorre à prática intensiva de orquestra para atingir os objetivos a que se propõe:

  • Promover a inclusão social das crianças e jovens de bairros social e economicamente mais desfavorecidos e problemáticos;
  • Combater o abandono e o insucesso escolar;
  • Promover o trabalho de grupo, a disciplina e a responsabilidade para uma melhor cidadania;
  • Promover a autoestima das crianças e das suas famílias;
  • Aproximar os pais do processo educativo dos filhos;
  • Contribuir para a construção de projetos de vida dos mais novos;
  • Promover o acesso a uma formação musical que seria impossível para a maioria das crianças e jovens que vivem em contextos de exclusão social e urbana.

Este projeto teve início no Casal da Boba, no Concelho da Amadora. O referido bairro, construído em 2000/2001 para receber os moradores de três bairros degradados, encerrou em si diversas problemáticas sociais e económicas que favorecem a tendência para a exclusão social. Com o intuito de promover o desenvolvimento social e humano dos jovens deste bairro, foi implementado, em 2005, o Projeto Geração/Oportunidade que visava intervir ao nível da formação, educação, saúde, emprego, justiça e ocupação dos tempos livres destes cidadãos. Dois anos mais tarde, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação EDP, a Câmara Municipal da Amadora e o Conservatório Nacional unem esforços no sentido de integrar no Projeto Geração/Oportunidade uma orquestra, iniciando-se assim a implementação em Portugal dos fundamentos do Sistema de Orquestras Infantis e Juvenis da Venezuela.

Foi no ano letivo de 2007/2008, na Escola EB 2,3 Miguel Torga, que a Orquestra Geração teve o seu início, com 15 alunos distribuídos por instrumentos pertencentes à família das cordas. Os instrumentos de sopro seriam introduzidos no ano seguinte, e a percussão surgiria no terceiro ano do projeto nessa escola. Ainda no ano letivo de 2007/2008, o projeto Orquestra Geração seria implementado também no agrupamento de escolas da Vialonga e, em novembro de 2008, numa outra escola da Amadora, no bairro da Mira.

Ao longo dos anos letivos que se sucederam, o projeto alargou-se a escolas situadas em Camarate, Sacavém, Apelação, Zambujal, Damaia, Carnaxide, Algueirão, Ajuda, Boavista e Sesimbra. Cada escola criou a sua própria orquestra (multiplicando-se o número de orquestras por escola em níveis diferenciados ao longo dos anos), constituindo vários núcleos da Orquestra Geração. À exceção do polo de Vialonga, que funciona em regime integrado, as aulas do Projeto Orquestra Geração são lecionadas nas escolas como atividades extracurriculares. No ano letivo 2010/2011, o projeto foi implementado em Mirandela e Amarante, e, no ano letivo seguinte, em Murça e em Coimbra.

Em abril de 2012, o projeto Orquestra Geração englobava já 879 alunos, distribuídos por 16 núcleos. À semelhança do que acontece no El Sistema, o ensino proporcionado pela Orquestra Geração é inteiramente gratuito para os alunos, pelo que o apoio dos parceiros financeiros que se associaram ao projeto revela-se essencial para que este possa ter continuidade. Entre eles conta-se a Escola de Música do Conservatório Nacional (responsável pelo serviço pedagógico e administrativo), a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação EDP, a Fundação PT, o Ministério da Educação (que, desde o ano letivo 2008/2009, assegura a contratação dos professores do projeto da zona metropolitana de Lisboa e de Coimbra), as Câmaras dos municípios em que as escolas se inserem, a TAP, o Barclays Bank, o BNP Paribas, a Embaixada da Venezuela e a Atral Cipan.

Desenhado à semelhança do projeto El Sistema, a aprendizagem instrumental no projeto Orquestra Geração inicia-se pela imitação, tendo contacto com o instrumento desde o início do seu percurso. A concetualização formal decorrerá a posteriori. Apesar de a carga horária semanal ser bastante inferior à praticada pelo El Sistema, o coletivo é privilegiado também na Orquestra Geração; assim, as 8 horas semanais são distribuídas de forma a contemplar 3 horas de orquestra (em duas sessões de 1h30), 2 horas de naipe (em duas sessões de 1 hora), 1 hora de aula de instrumento (partilhada por dois alunos), 1 hora de formação musical e coro, e 1 hora de expressão dramática.

O processo de integração social passa também, obviamente, por envolver a comunidade com a orquestra. Para tal, torna-se necessário adaptar o método e o material de ensino à realidade cultural em que se insere. Nesse sentido, apesar de na Orquestra Geração se utilizar os manuais do El Sistema, é imprescindível incluir no repertório música tradicional portuguesa, música dos PALOP, música referente à etnia cigana, assim como jazz ou pop.

O corpo docente da Orquestra Geração é composto essencialmente por jovens adultos, maioritariamente de nacionalidade portuguesa, e com formação musical na metodologia europeia convencional. Desta forma, torna-se imperativo que os professores tenham uma formação contínua com as diretrizes do El Sistema para que o possam implementar adequadamente. Assim, a direção pedagógica e artística da Orquestra Geração desenvolve com regularidade ações de formação dirigidas aos professores do projeto, cuja realização é levada a cabo por formadores venezuelanos do El Sistema que se deslocam a Portugal, no sentido de prestar formação, monitorizar e avaliar a aplicação do programa no nosso país.

Tal como no El Sistema, na Orquestra Geração não há uma avaliação quantitativa, privilegiando-se as apresentações públicas regulares como momentos de aplicação de todo o conhecimento que vão adquirindo ao longo do processo educativo.

Os concertos, além de constituírem um forte fator motivacional para o aluno, funcionam também como um forte elo de ligação e inserção do projeto na comunidade, e de aproximação entre a comunidade e a cultura, a escola e o processo educativo dos seus educandos.

Vânia Moreira

Ao longo do ano letivo, cada escola realiza vários concertos, quer sozinha, quer inserida num grupo de dois ou mais núcleos. Nas interrupções letivas decorrem frequentemente estágios mais intensivos em que se juntam as orquestras de todos os núcleos de cada nível, culminando no estágio do final do ano letivo, que é sempre o mais intenso – quer pela duração (geralmente de 5 dias consecutivos), quer pelo concerto final, que decorre sempre em salas emblemáticas da cidade de Lisboa. (…)

A aprendizagem de um instrumento musical em contexto individual e em contexto de grupo, por Vânia Filipa Tavares Moreira – Mestrado em Ensino de Música – Instrumento e Música de Conjunto – Orientadora Doutora Maria Luísa Faria de Sousa Cerqueira Correia Castilho, Coorientadora Especialista Catherine Strynckx. Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicadas, janeiro de 2015. Excerto.

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

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