Criança com necessidades educativas especiais

Música para Necessidades Educativas Especiais

Isabel Ferreira

A Música, quando bem administrada, tem efeitos benéficos ao ser humano e coloca-o em contacto com os seus sentimentos sem causar introspeção. Entre as Expressões, a Música pode ser, se permitirmos, um grande contributo para a ajuda das crianças com NEE. Não só as motiva como também, ajuda a colmatar as suas lacunas. Há Música que condiciona e determina um certo comportamento, uma certa expressão de um sentimento. Isto é, a criança pode estar sob efeito de um nervosismo, de uma depressão ou agressividade e determinada música ou canção mudar o seu estado de espírito, acalmar ou alegrar, servir de estímulo, proporcionar paz. A Música tem aqui a função de uma terapia, a terapia musical.

As crianças com deficiência têm gosto e natural tendência para o ritmo e para a Música. É necessário que se ponha este gosto ao serviço do desenvolvimento da sua expressão corporal e da formação do espírito. É também de muito interesse que as crianças com patologia aprendam a manejar instrumentos de percussão e de sopro pois, estes favorecerão o desenvolvimento auditivo.

A Música como elemento terapêutico é utilizada há mais de trinta mil anos. Ela encontra um grande campo de aplicação em pedagogia, sobretudo na reeducação de pessoas com limitações físicas, com problemas sensoriais tais como a surdez, cegueira e ainda nas pessoas com problemas mentais. Sendo ela um instrumento de disciplina, de pensamento e de expressão de emoções através da motricidade, é capaz de atingir as profundezas do ser que estão inacessíveis e que a Educação entendia no seu aspeto habitual, não é capaz de resolver.

Ao estudar-se o desenvolvimento do ser humano, permite compreender que o som acompanha-nos desde a vida intra-uterina até à nossa morte. Há estudos que comprovam que o feto, através do seu sistema tátil, e posteriormente, através do ouvido, ouve sons e ritmos que fazem parte do universo corporal da mãe. Para além de todos os sons corporais tais como as articulações, os movimentos peristálticos, a voz da mãe, o feto desenvolve-se e vai-se apercebendo da importância vital que este som (batimento cardíaco) tem para a sua vida.

A Música toca em regiões do ser e do inconsciente, impossíveis de obter por outros meios, e exerce uma enorme influência sobre as condições psicofisiológicas do ouvinte. Em consequência, produz efeitos quer a nível físico, quer a nível psíquico. Na medida em que pretende dar resposta a objetivos ora pedagógicos ora terapêuticos, a Música tem um caráter de reeducação. A capacidade que ela tem de desbloquear estados inibidores, de resolver problemas de expressão e de preparar o indivíduo para o acesso a uma psicoterapia essencialmente verbal, faz que seja utilizada no campo psiquiátrico como o meio de comunicação para pessoas com doenças mentais, autistas e outras, que são privadas de certas relações interpessoais.

Podemos considerar a Música como uma outra linguagem, possuindo o seu código específico. A linguagem verbal foi-se desenvolvendo, segundo um processo de evolução cultural permitindo descrições precisas e sendo a base de uma grande parte da nossa cultura. Ela não fornece ao nosso espírito pensamentos claros, mas aparece como um fenómeno global que origina experiências de beleza onde o resultado é a conjugação da sensibilidade e da emoção. Esta dupla linguagem artística, existente na nossa cultura – verbal e musical – encontra-se de maneira surpreendente na função cerebral.

A criança/jovem com défice intelectual, apresenta perturbações e limitações na forma de se relacionar com o meio e com os outros. O facto de essas limitações serem ao nível comunicativo, colocam entraves à forma de ela estar no mundo. É comum constatarem que estas crianças apresentam problemas de ordem emocional e relacional, inibindo o seu potencial de desenvolvimento. Torna-se imperioso reeducá-las de forma a torná-las capazes de desempenhar, dentro de padrões mínimos, as atividades normais para a sua idade, de forma a dar-lhes melhor qualidade de vida.

Segundo Jacques Dalcroze, ”…é indispensável, no campo da Música,…, favorecer na criança a liberdade das suas ações musculares e nervosas, ajudando-o a triunfar sobre as resistências e inibições e harmonizar as suas funções corporais com as do pensamento”. Pelo facto da Música possibilitar a comunicação, ajudar a memória, impulsionar e organizar as ações motoras, ela é de maior importância na (re)educação e desenvolvimento dos deficientes.

Para Jacqueline Verdeau-Paillés e Mario Delli Ponti (1995) “a Música experimentada, compreendida, interpretada como perceção do ritmo e como atividade rítmica, pode ter a sua utilização em pedagogia e em terapêutica, dirigindo-se a indivíduos ou a grupos, a crianças, a adultos, a pessoas idosas; ela permite reunir as luzes de uma fácil aprendizagem, de um melhoramento dos comportamentos, de um desaparecimento de certos sintomas e de uma possibilidade de comunicação para os indivíduos que sofrem de diversos tipos de limitações sensoriais”.

Deste modo, são várias as áreas de conteúdo onde a Música pode atuar: doenças mentais, motoras, sensoriais e outras. Neste sentido, o trabalho tem características distintas, de acordo com as necessidades de cada patologia.
Face a uma criança com deficiência, temos de a encarar como um ser humano com quem se vai estabelecer um meio especial de comunicação, devendo esquecer todas as informações de base sobre a criança, isto é, partir da linha zero, despojar-se de todas as circunstâncias vivenciais que o “deficiente” apresenta para poder exercer nele uma terapia positiva e um meio de comunicação eficaz entre os dois intervenientes nas sessões individuais.

O primeiro contacto com uma criança com deficiência, deverá ser individual, propõe-se começar com algumas sessões individuais, de cinco a dez, para depois se integrar nas sessões de grupo e é nestas que o “deficiente” melhor se enquadra no sentido de uma terapia adequada. Segundo Jacques Dalcroze, “ É indispensável no campo da Música ou qualquer outro domínio, ocupar-se dos ritmos, favorecer na criança a liberdade das suas ações musculares e nervosas, ajudá-la a triunfar sobre as resistências e inibições e harmonizar as suas funções corporais com as do pensamento”.

Com a criança com deficiência todas as obras musicais devem ser do máximo primitivismo, pois trata-se de estimular e tratar um ser humano que apresenta um grave handicap. A regra de ouro desta terapia é a simplicidade. É muito importante que a terapia recorra às canções simples que podem ser inventadas pelo deficiente ou pelo profissional que o acompanha. Deve-se adotar textos primitivos para que sejam entendidos, por exemplo: o cavalo toc-toc, o gato miau-miau, etc. O ritmo cardíaco é outro conceito a ser explorado.

Se a criança com deficiência apresenta agressividade, é importante que se canalize a Música, dando-lhe um tambor para expressar esse sentimento. Deve-se escutar o tempo biológico particular de cada criança, para assim atuar com mais eficácia no tratamento da deficiência. Deste modo, tem de se ter um conhecimento sobre a idade cronológica e o quociente intelectual do indivíduo e, por outro lado tem de se dirigir a um ser humano a quem através de uma linguagem especial vão ser dirigidas uma série de mensagens que servirão para o seu desenvolvimento.

Pelo facto da Música se inserir num contexto não verbal, permite a introdução de mensagens que pareciam difíceis, embora sejam facilmente captadas. Quando a Música e o som se utilizam como agentes de intercâmbio, para estabelecer uma relação terapêutica que possibilite o crescimento e o desenvolvimento da pessoa, encontramo-nos frente a um processo Música/Terapia. Este baseia-se na potencialidade sensório/motor e comunicativa da Música, e é constituída pelo trinómio – ação/relação/comunicação.

A ação consiste em tocar instrumentos, cantar ou mover-se ao som da Música e deve ter um caráter lúdico. O “deficiente” precisa de ser estimulado a brincar, porque só assim é que vai poder manifestar as suas capacidades e criatividade. Através da Música, vão-se desenvolver certas habilidades motoras e as noções de espaço e tempo.

O resultado da ação de tocar, cantar, dançar, chega a todas as pessoas presentes no grupo de trabalho, mesmo àquelas que, aparentemente, não estão a participar na atividade. Começa a ocorrer uma interação e um contacto interpessoal – a relação. Com o decorrer do processo, os membros do grupo ouvem-se e tocam em conjunto. Têm início relações interpessoais mais explícitas. A Música é um meio não verbal de comunicação/expressão de sentimentos e afetos, que mais tarde poderão chegar, ou não, a ser verbalmente explicitados e elaborados.

Leia AQUI toda a dissertação.

A importância da Música no desenvolvimento global das crianças com Necessidades Educativas Especiais: perspetiva dos Professores do 1º Ciclo e de Educação Especial, por Isabel Maria Campos Ferreira, Mestrado em Ciências da Educação na Especialidade em Domínio Cognitivo e Motor, Lisboa: Escola Superior de Educação João de Deus, 2012. Excerto com ligeiras adaptações.

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