Bombos reciclados

Défice de atenção e imaturidade psicoafetiva

O défice de atenção corresponde à ocorrência de períodos de atenção escassos ou breves e uma impulsividade exagerada para a idade. Este défice pode associar-se ou não à hiperatividade. Embora seja mais comum nas crianças, pode também afetar os adultos.

CUF

Crónicas de Música Adaptada

Sessão 1

O Micael é uma criança com défice de atenção, imaturidade psicoafectiva e dificuldades relacionadas com os processos de leitura e escrita. Eu espero-o na sala destinada pela escola às sessões de Música Adaptada. Em cima de uma mesa, há copos e um bolo de aniversário ornamentado com uma baliza e uma bola de futebol, sinais de que vai haver festa.

Eu retiro da mala um instrumento digital e coloco-o numa das mesas. O Micael senta-se e olha um instrumento que não conhecia. Digo-lhe que é uma bateria digital e apresento-lhe funções que poderá utilizar: escolher diferentes percussões, percutir com baquetas, selecionar padrões rítmico-harmónicos com os botões para baixo ou para cima. Peço-lhe que selecione o padrão 2, com que vamos cantar a canção de boa tarde.

Eu canto uma vez, ao som da música instrumental:
“Olá, boa tarde,
Olá meu amigo!
Vamos lá cantar,
Depois vou jogar contigo!”

Ele diz-me que o “Carlos” é o seu amigo preferido porque joga à bola com ele. E cantamos como se o colega estivesse presente. Eu pergunto-lhe se tem outros amigos e ele vai dizendo, e nós cantamos aos amigos e à amizade.

Peço-lhe que selecione o padrão 3, que ele faz sem dificuldade. A professora titular disseram-me que ele é melhor a Matemática do que a Português. Como sei que ele gosta de jogar à bola, cantamos, sobre o instrumental selecionado:

Dá-me, dá-me uma bola,
P’ra jogar na escola,
P’ra jogar na escola.

Lanço-lhe uma bola de peluche que ele apanha. Recebe e passa com precisão e satisfação. E ganha-me, porque, entretanto, deixo a bola cair ao chão.

Fazemos alterações no texto:

Quero uma bola nova… ou:
Eu já tenho uma bola…

Ele canta de forma tímida mas apercebo-me de tem uma afinação acima da média e elogio-o. Ele fica contente. O reforço positivo é especialmente importante neste caso, porque o aluno tem baixa autoestima, de acordo com informação da professora titular.

Quase a terminar a sessão, aparece a professora de 1º e 2º anos com a sua turma para celebrar os anos do Rafael. A turma do Micael também é convidada. Enquanto não chega, aprendemos uma canção de parabéns original. O aniversariante toca um tambor da marca Remo que eu lhe empresto, e o Micael toca maraca.

Com todas as crianças reunidas, cantamos a canção de parabéns original:

Vamos lá cantar,
Vamos festejar.
Ao nosso amigo Rafa
Um abraço vamos dar.
Parabéns, parabéns!
Ao nosso amigo Rafa
Um abraço vamos dar!
Oh Yeah!
Um abraço!

Eu pergunto às crianças:

– Que podemos dar-lhe além de um abraço?
– Uma prenda – responde alguém.

E continuamos cantando cumulativamente com:

abraço
prenda
beijinho!

Oh yeah!
Mais uma vez!

– Tiveste sorte, Rafa… Até tiveste animação de graça! Agradece ao professor.

Eu realço:
– Agradece antes ao Mica. A ele o deves!

E ele diz “obrigado” ao amigo.

Sessão 2

Na semana seguinte, como habitualmente, o Micael entra na sala a sorrir. Fala pouco e baixo. Começamos com a canção de saudação da semana anterior. Ele marca a pulsação com duas baquetas, alternadamente, na bateria digital.

Diz-me nomes de amigos, que acompanhamos com ritmo: “Carlos” (tá tá), Manuel (titi tá) e Gonçalo (ti tá ti).

Em seguida, digo a frase, “Toca tu” e ele reproduz o meu padrão rítmico. Trocamos de posições: ele diz e eu toco. Eu toco um padrão mais difícil: “Toca, toca, toca tu”. Ele reproduz; trocamos novamente de posições.

Eu tenho uma arena de plástico (tampa reutilizada de balde de azeitonas). Dizemos e cantamos:

Roda a bola,
Roda, rola,
Numa arena
Da escola.

Depois, ele faz a bola rodar. Mostro-lhe o cronómetro do telemóvel. Ele começa a rodar a bola, no sentido dos ponteiros do relógio. Mostro-lhe o tempo no visor e ele identifica os números: 2’53’’23’’’. Minutos depois ainda se lembra dos minutos, segundos e centésimos de segundo.

Com um pássaro de peluche, cantamos:

Tem coragem passarinho,
Salta agora de teu ninho.

Contamos 10 pés. Ele ao princípio não consegue, mas aprende rapidamente. E consegue receber o pássaro e lançá-lo com precisão, 10, 15, 20 e 25 pés.

Fazemos mais um jogo:

Jogo à bola,
Passo a bola
Aos colegas
Da escola.

Sentamo-nos nos lados menores de uma mesa, passando uma bola, como se fosse um jogo de baliza a baliza. Ele joga passa com precisão e o jogo termina empatado a 0. Depois jogamos com uma bola um pouco maior e ela ganha 3-0 ao professor.

Encontramo-nos para a terceira sessão. A forma de saudar preferida do “Micael” é sorrir. Procuramos melhorar a capacidade de expressão e comunicação com canções e dinâmicas que ele adora e que o levam de forma natural a falar melhor e mais alto.

Entretanto, chega a professora “Adélia”, titular de uma das turmas da escola. Fico a saber que o Micael se esqueceu de dar um recado. Ela adorou a animação ocasional pelo aniversário do seu aluno. Como os alunos não são muitos, as duas professoras titulares desejam que eu faça uma sessão com todos. Tenho a intuição de que a atividade desenvolverá no Micael competências de integração em equipa e lhe dará confiança e autoestima. Para isso, realizamos algumas dinâmicas que serão postas em prática com o grande grupo.

Voltamos à brincadeira cantada do “Passarinho”. O jogo vai-se tornando mais difícil com distâncias maiores, mas isso é um estímulo à coordenação motora da criança, à sua autonomia e capacidade de cantar mais forte. Além dos jogos já realizados que repetimos para avivar a memória e desenvolver técnicas, fazemos um jogo em que ele próprio liga e para o cronómetro, passando uma pequena bola que nos permite somar de dois em dois, sem deixar a bola cair ao chão, até 20, primeiro em 16 segundos até chegarmos aos 10 segundos, após alguma prática.

António José Ferreira

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