António José Ferrreira, Meloteca e Musorbis

Meloteca, dificuldades e soluções

“No dia 29 de maio de 2020 decorreu o 1.º Encontro on-line Perspectivas da Música Portuguesa – Cooperação em Rede, iniciativa organizada pelo Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa – MIC.PT, que reuniu 40 participantes – incluindo os membros do Conselho Científico do MIC.PT e ainda representantes de 27 entidades do meio da Música de Invenção e Pesquisa em Portugal.”, incluindo a Meloteca.

Para a Meloteca, as dificuldades financeiras são crónicas, independentes de crises e de pandemias. Em 17 anos, o projeto candidatou-se duas vezes a apoios da DGArtes e não foi contemplada; da DRC do Norte recebeu 1500 euros de uma vez, e 750€ de outra. É provável que não volte a candidatar projetos a apoios, dessas ou de outras entidades, preferindo contar apenas com meios próprios.

O que mantém o projeto, a desenvolver-se há dois anos com assessoria profissional, é uma grande paixão pela música. Trabalho em média mais de 40 horas por semana, desde 2003. Além disso, a manutenção da Meloteca faz-se com parte do vencimento de professor e outras receitas relacionadas com o sítio. Se a minha mulher não tivesse uma situação profissional e financeira estável, a Meloteca teria estagnado ou desaparecido.

Trabalhar sozinho neste projeto, de forma direta, não é nem exemplo para ninguém, mas dá-me segurança porque o risco é nulo. Se eu tivesse formação em gestão cultural poderia ter sido mais fácil obter apoios. Mas também é verdade que, com formação nessa área, muitos projetos musicais de divulgação na rede tiveram vida curta nos últimos.

A Meloteca só é lucrativa no sentido de eu lucrar muito em termos de conhecimento, de pedagogia e de gozo pessoal. Nem eu ambiciono outro lucro, apenas saúde para continuar.

Em 2007, com o aparecimento das Atividades de Enriquecimento Curricular, investi na criação de conteúdos e na formação. Durante uma década dei ações de curta duração a 1550 professores de música e educadores de infância. As formações revelaram o alcance que a Meloteca tinha já tinha na altura. Graças ao sítio, dei formação a professores de todos os distritos, e dei cursos no Algarve em quatro verões consecutivos, enquanto a família estava de férias. Como as AEC são um trabalho precário e sem perspetivas de melhorar, há hoje pouca oferta e pouca procura dessas formações. Por outro lado, os centros de formação dos agrupamentos socorrem-se de professores seus e, quando contratam, pagam mal – como testemunhou o formador da última ação que frequentei.

Neste momento, uma das apostas prioritárias da Meloteca é a Loja virtual, com venda de recursos digitais, sem gastos com correio e sem risco. Sendo professor, crio e testo a criação com os alunos e faço revisões periódicas. Só é possível porque sou eu a criar e sei trabalhar com o Sibelius.

Com as transformações na plataforma espero que mais músicos, mesmo tendo uma versão gratuita de biografia na Meloteca, queiram aderir à opção de um micro-sítio com plano de divulgação anual ou bienal. E espero que nos próximos anos donativos e publicidade dêem também uma ajuda.

Esta noite terminou uma remodelação que beneficiou cerca de 10 000 artigos da Meloteca, continuando a estrutura a parecer simples. Há 3 anos isso era impensável. Os primeiros orçamentos eram exorbitantes e eu tinha de contrair ao microcrédito. A  direção da Associação não concordava com o que eu pensava ser a última hipótese de remodelar a Meloteca. Acabei por ter sorte com uma herança familiar, um donativo de um antigo barítono e ter encontrado a  agência digital certa que encontrou a fórmula para a atual parceria.

Vários indicadores revelam que os artigos e sugestões para a expressão na infância têm sucesso. A divulgação em grupos numerosos de professores e educadores, sobretudo no Brasil, e grupos de emigrantes por todo o mundo.

De qualquer modo, a divulgação da música em Portugal, da contemporaneidade e da memória, está no ADN da Meloteca e estou a aberto à publicação de biografias atualizadas e textos académicos sobre música que levem mais longe a música e a cultura de Portugal. Em poucos dias recebi 20 catálogos de obras atualizados para um projeto no sítio da Música e outro no Musorbis.

[ Este texto não é a reprodução exata da intervenção no Perspectivas da Música Portuguesa – Cooperação em Rede. ]

Sandim 29 de maio de 2020

0 comentários

Deixe um comentário

Quer participar?
Deixe a sua opinião!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *