A Virgem, o Menino e Anjos, Gregório Lopes, c. 1536 - 1539, Pintura a óleo sobre madeira de carvalho, 125 cm × 167 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Gerhard Doderer

Ao usar as designações “Iconografia” e “Iconologia” aplicamos um tipo de terminologia que tem a sua origem na época do Humanismo: a imagem (εἰκών) é sujeita a processos de descrição (γράφειν) e de compreensão (λόγος).

Ao emanciparem-se, no século XIX, as Ciências das Artes (Kunstwissenschaft), a nova disciplina académica começou a diferenciar formas e estilos, por um lado, e conteúdos, por outro. Assim, a Iconografia e a Iconologia devem ser entendidos, a partir de então, como processos de exames e análises dos cenários contidos nas imagens – estas últimas no sentido mais vasto da palavra -, sem se preocuparem com questões referentes à qualidade artística da representação em questão.

Determinante para as suas afirmações disciplinares foram os trabalhos de Emile Mâle (1862 1954) em França e de Aby Warburg (1866-1929) com os seus seguidores (Hamburg, Londres e Estados Unidos da América). A Iconografia Musical, por seu lado, procurando enriquecer o entendimento de processos musico-históricos, dedica-se principalmente a manifestações musicais no campo das Belas Artes que podem abranger, neste contexto, não só objectos concretos, situações e contexturas onde se reflectem práticas musicais, como também todo o tipo de formas e expressões de motivos musicais com os seus inerentes significados simbólicos em contextos representativos e comunicativos (B. R. Tammen).

Albergando-se no seio das Ciências Musicais, a Iconografia musical serve-se da Organologia como instrumento de trabalho principal e recorre a métodos de trabalho de disciplinas da História de Arte, da Antropologia ou da Sociologia para identificar temas e assuntos visualizados com carácter ideográfico.

Os primeiros cientistas que utilizaram de uma maneira sistemática materiais pictográficos para os seus estudos foram Francis Galpin (1858-1945) e Curt Sachs (1881-1959). Hoje em dia, a Iconografia musical é reconhecida como uma disciplina académica que conta a nível internacional com plataformas e grupos de estudo integrados na International Musicological Society e usufrui de cooperações intensas com a ICTM Study Group on Iconography of the Performing Arts, bem como com o Répertoire International d’ Iconographie Musicale (RIdIM) e o Research Center for Music Iconography (New York).

Desde 1984, o mais reputado órgão de publicação para esta área temática da Iconografia é o Imago Musicae: International Yearbook of Musical Iconography fundado e dirigido durante muitos anos por Tilman Seebass, cuja actividade pedagógica e científica tem marcado, internacionalmente e de uma maneira muito significativa, o desenvolvimento e o reconhecimento da Iconografia musical.

É através de uma colaboração frutuosa como as acima mencionadas organizações que se desenvolveram em Portugal estudos e projectos dedicados à Iconografia Musical, que conquistou com o Núcleo de Iconografia Musical o seu lugar no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde a própria Organologia fazia parte do rol das disciplinas dos estudos musicológicos desde a criação do Departamento de Ciências Musicais no ano de 1981.

Ao alargar o perímetro das intervenções para além de temáticas relacionadas com imagens estáticas e outras de carácter dinâmico, os estudos reunidos na presente publicação exploram não apenas áreas parciais clássicas da Iconografia musical.

Aparecem, portanto, não apenas textos analíticos dedicados a representações reais e imaginárias de instrumentos musicais desde o século XII até ao presente – trabalhos muito vinculados a pontos de partida essencialmente organológicos – mas também outros ensaios concentrados na apresentação de construtores de instrumentos e das respectivas actividades artesanais. Naturalmente, estes últimos abrangem tanto pontos de vista organológicos como, e de forma bem destacada, aspectos antropológicos e sociológicos.

Ao que parece, esta forma de aproximação encontra bom acolhimento no seio dos estudiosos dos países do sul, contrastando, de certa forma, com uma atitude algo mais academista de cientistas do hemisfério norte. O próprio Núcleo de Iconografia Musical do CESEM, na sua qualidade de membro fundador do Study Group on Musical Iconography e devido à sua parceria com grupos de estudo e plataformas estrangeiras como p. ex. Images of Music – A Cultural Heritage ou o Grupo de Iconografia Musical da Universidade Complutense de Madrid, está a dar corpo a esta observação.

Lisboa, 31 de Janeiro de 2018

Iconografia Musical: Organologia, Construtores e Prática Musical em Diálogo,  Edição e Coordenação | Sónia Duarte e Luzia Rocha, Instituição | NIM – Núcleo de Iconografia Musical / CESEM – Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical / FCSH UNL – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, Volume 3 | 2017, ISBN | 978-989-99975-7-8

A Virgem, o Menino e Anjos, Gregório Lopes, c. 1536 - 1539, Pintura a óleo sobre madeira de carvalho, 125 cm × 167 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

A Virgem, o Menino e Anjos, Gregório Lopes, c. 1536 – 1539, Pintura a óleo sobre madeira de carvalho, 125 cm × 167 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa (pormenor)

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