Graziela Vieira, poetisa, com a Orquestra Típica de Ourém
Poemas de Graziela Vieira

Graziela Vieira (1944-2021) foi uma poetisa que escreveu letras para numerosas composições executadas pela Orquestra Típica de Ourém.

Caiu a Neve

Certa noite caiu neve
Nas ruas da minha aldeia.
Branca, pura, fofa e leve,
Quais raios de lua cheia.

Tudo branquinho de neve
Manto gigante de arminho,
O belo não se descreve,
Só se sente de mansinho.

De manhã quando acordei
Iam-se os raios da lua,
Já brilhava o astro-rei
Nas pedras da minha rua.

Ai que saudades eu sinto
Da noite distante e bela
Tão remota, que pressinto
Que não voltarei a vê-la

Poema: Graziela Vieira
Música: Armando Rodrigues

D. Gonçalo Hermigues

O D. Gonçalo Hermigues,
Foi Valido, e companheiro
D’el-rei D. Afonso Henriques,
E temível cavaleiro.

Diz a lenda encantadora,
Que o guerreiro trovador,
Se enamorou duma moura,
A quem se deu por amor.

O cavaleiro cantor,
Já prosava apaixonado!…
Não há vitória maior,
Que a de amar e ser amado.

A Fátima da mourama,
Que o nosso herói encantou,
Foi por baptismo, Oureana.
Com D. Gonçalo casou.

Em louvor da sua amada,
Mudou o nome também
De Abdegas, conquistada,
Para castelo de Ourém.

Nas lendas de amor e guerra,
A de Ourém vibra mais forte:
Porque a mesma campa encerra,
Um amor além da morte.

D. Gonçalo, “Traga – Mouros”,
Quando a amada morreu, desilude!
Despojou-se dos tesouros:
E não mais dedilhou o Alaúde.

Na voz do vento, ele a chama,
Do morro de Ourém, lá ao longe.
Oureana!… Oureana!…
Ai de mim!… Sem ti, me fiz monge.

Poema: Graziela Vieira, Ourém, Março de 2004
Música: José António
Intérprete: Orquestra Típica de Ourém

Despedida

Vi partir as andorinhas um dia,
Embevecida,
No meu peito ficou a nostalgia,
Rosa pendida.
Vão levar a outros povos, a graça
E a mensagem que dão em movimento!
Não há mordaça,
Que calar faça,
O pensamento.

Adeus, adeus;
São asas negras a esvoaçar;
Cruzando os céus,
Dizem adeus até voltar.
São poemas vivos das almas singelas.
Como são belas,
Cruzando os céus!

Adeus, adeus.
Os perfumes do estio farão
As despedidas.
Fica o Outono macio, que são
Folhas caídas.
Há promessas doutra Primavera,
No regresso do gorjeio terno!
Fica a quimera,
P’ra quem espera
O sol d’Inverno.

Graziela Vieira
Música: Sérgio Poupado
Intérprete: Orquestra Típica de Ourém

Noite

Noite,
Meu rio das águas mansas!
Meu afluente d’esperanças
Que se espraiam ao luar.

Noite,
Relicário dos meus sonhos!
Dos meus enlevos risonhos,
Com as estrelas a brincar.

Noite,
Minha fiel companheira,
Minha musa conselheira,
Minha amiga e amante.

Noite,
Mãe dos meus cincos sentidos,
Que no céu andam perdidos
Na estrela mais distante.

Noite,
Meu barquinho d`ilusões,
Fogo-fátuo de emoções;
Minha aurora Boreal.

Noite,
És meu castelo de areia
Envolto p’la lua cheia
Que ilumina o areal

Poema: Graziela Vieira
Solista: Natércia Ferreira
Música: Armando rodrigues
Intérprete: Orquestra Típica de Ourém

Vindima

As moças da minha terra,
São como as papoilas formosas,
Quando em setembro vão
Vindimar as uvas
Vindimar as rosas
Vindimar amores
Moçoilas fogosas.

Colhem no campo a flor da giesta,
Na madrugada de alvura
Enchem de sonhos a cesta.
Sobrem às alturas
Perfumes alados
A uvas maduras,
A cachos doirados.

Junto do seu namorico, vão
Cochichando em segredo.
Juntinhos de mão na mão,
Um beijo a medo
Vindimando a gosto,
Doçura e enlevo
De sabor a mosto.

Olha o mosto a ferver.
Vem comigo, anda ver
É a seiva do nosso lavor.
É o sumo da uva
É o sol, é a chuva
Que a gente do campo
Regou com suor
A terra madrinha
Que dá esta vinha.

Poema: Graziela Vieira, abril 1995
Solista: Lelita
Música: Sérgio Poupado
Intérprete: Orquestra Típica de Ourém

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