Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo

Roncos do Diabo

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

O Diabo já é velho
Mas é grande folião:
Na festa mete o bedelho
P’ra animar a bailação.

P’ra aquecer o bailarico
Abre a torneira ao tonel;
O cura dá-lhe um fanico,
Lá se vai o hidromel.

Essa bebida dos anjos
Que agrada tanto ao Demónio
Já tentou S. Cipriano,
S. João e Santo António.

Santo António milagreiro
Fez um pacto com o Demónio:
O Diabo era gaiteiro
E o santo tocava harmónio.

S. João tocava caixa
Com dois paus de marmeleiro;
Mas o delírio das moças
Era a gaita do gaiteiro.

Guinchava como um leitão
Quando se lhe puxa o rabo;
Pela copa do bordão
Jorravam roncos do Diabo.

Era a gaita do Demónio
Que soava endiabrada,
Afinava com o harmónio
Mas não estava homologada.

Estava fora das medidas,
Saía da convenção,
Tinha veias no ponteiro
E dois papos no bordão.

Criação de Belzebu,
Diabólica magia:
Nas voltas da contradança
Quem dançava enlouquecia.

E nas voltas da loucura,
As almas em desatino
Saltavam de corpo em corpo
Errando do seu destino.

O gaiteiro as reunia
Como se junta um rebanho:
Fê-las descer ao Inferno,
No fogo tomaram banho.

E já os corpos em brasa
Iam fazendo das suas,
As vestes esfarrapadas
Mostravam as carnes nuas.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

As fêmeas eram lascivas:
Ondulantes de paixão,
Corroídas p’lo desejo
Contorciam-se no chão.

No terreiro da função
Os corpos se confundiam:
Seguidores de Belzebu
Das almas santas se serviam.

Foram pela noite fora
Perdidos no bacanal,
Ao som desta banda louca
Até ao Juízo Final.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Letra e música: Carlos Guerreiro
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “A História”, Uguru, 2017; CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

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