Recursos musicais de apoio a técnicos e famílias de crianças portadoras de necessidades educativas especiais

Cantigas de roda especiais

CANTIGAS DE RODA ESPECIAIS

As cantigas de roda são criações musicais anónimas transmitidas oralmente de geração em geração. Podem tratar de vários temas, como os animais, o amor e a amizade. A letra é simples brincalhona, e a rima favorece a aprendizagem e memorização. O seu potencial é enorme e faz todo o sentido recriá-los e adaptá-los de modo a incluir crianças com necessidades educativas especiais.

Brincar em roda, cantando em uníssono de mãos dadas, possibilita a socialização e a coletividade entre as crianças que podem dançar e fazer coreografias divertidas. Pela sua importância cultural, as cantigas de rodas são realizadas em escolas públicas, privadas, em creches ou em espaços de educação não formal e ONG. Muitos professores fazem estas brincadeiras para ensinar as crianças sobre a importância da cultura folclórica.

Cai, cai balão

– Cai, balão! Cai, balão
Cai na rua do sabão!
– Não cai não! Não cai não,
Cai aqui na minha mão!

Cai, balão! Cai, balão,
Aqui na minha mão!
– Não cai não! Não cai não,
Tem cuidado com o cão!

Instruções

As crianças estão numa roda pequena. Quando começa a canção/poema, o balão é lançado e ninguém deve deixá-lo cair tendo, para isso, de o lançar com a mão para cima utilizando a força adequada.

Pode fazer-se em casa, de forma adaptada, entre adulto e criança sem limitações motoras significativas. Se estas limitações impedirem a mão da criança de se mover, a canção e o balão servirão para chamar a atenção da criança e despertar os sentidos. Neste caso, o adulto deixará que o balão caia tocando na mão, na cabeça ou nas pernas da criança. ]

Meu limão

Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de maracujá.
Uma vez, tindolelé,
Outra vez, tindolalá.

Pirulito bate, bate,
Pirulito já bateu!
Quem gosta de mim é ela,
Quem gosta dela sou eu.

Instruções

As crianças estão numa roda. Uma tem um limão, ou maracujá, que passa de mão em mão, na pulsação, sem cair. A criança que tiver o fruto na última palavra da canção/poema vai para o centro, e assim sucessivamente.

Na roda, ou em família, o grupo ajuda as crianças com necessidades especiais a participar tocando e sentindo o cheiro do fruto. Com dois, passam de um para o outro. Se a criança não conseguir passar, será o adulto a fazer os gestos necessários para que os sentidos da criança sejam envolvidos e estimulados. ]

Em casa, uma roda de cantigas pode ser um momento de diversão e desenvolvimento quando existe na família uma criança pequenina. Faz bem às crianças e dá felicidade aos adultos.

Olha o bichinho

Olha o bichinho
que está no meio
Ele é fofinho
e não é feio.

Deixai-o lá!
Está a dormir, a descansar.
Só depois é que o bichinho
diz quem dele vai cuidar.

Bichinho! 

Instruções

As crianças estão numa roda, com o bichinho no meio, com os olhos tapados. As crianças recitam ou cantam (com a melodia de Ó Laurindinha) as duas quadras andando na roda. Quando as crianças dizem/cantam “Bichinho!”, depois das quadras, o “bichinho” aponta com o dedo (de olhos fechados) e o que for apontado irá para o meio. Na vez seguinte, a criança escolhida para cuidar será substituída por outra, e assim sucessivamente. Quando há uma criança em cadeira de rodas, pode estar na roda ou no meio. Se não conseguir apontar, uma criança fará de tutor.

Em casa, com um balão cheio, o adulto diz um verso e repete; depois dois e a quadra toda. Não podendo realizar-se em pequena roda de três ou quatro, faz-se só entre adulto e criança.

Em casa, entre adulto e criança com deficiência profunda, coloca-se um animal de peluche entre eles. O adulto recita ou canta as duas quadras, (com a melodia de “Ó Laurindinha”). A criança sente a textura do bichinho e interage conforme as possibilidades. Depois dão uma volta, a pé ou em cadeira de rodas, pela sala, e regressam ao lugar do bichinho.

António José Ferreira

Criança com multideficiência tocando

Instrumentos acessíveis e fáceis de reciclar

Acessíveis e inclusivos são os instrumentos musicais que, adaptados a crianças com deficiência, são igualmente eficazes com crianças sem necessidades especiais.

Os instrumentos apresentados neste artigo foram utilizados por crianças em Unidade de Apoio Educativo a Crianças com Multideficiência. Podem ser replicados e tocados por todas as crianças, na escola e em casa, com a ajuda de familiares adultos. Por razões económicas, pedagógicas e ambientais, são uma vantagem para educadores de infância e professores de Música nas Atividades de Enriquecimento Curricular e Música Adaptada.

Tambor de tampa:

Tampa de balde de azeitona e baqueta de plástico

A tampa de um balde de azeitonas pode desenvolver a criatividade e o bem-estar da criança. Basta lavá-la e mantê-la limpa. Há tampas com vários tons de verde, vermelho, amarelo, castanho. São ferramentas úteis para desenvolver o conhecimento das cores. Muitas vezes, a própria criança mostra ao adulto o que consegue e gosta de fazer com o objeto. ]

Maraca-lagarta:

Maraca com arroz feita de tampas de amaciador 

A maraca-lagarta é um objeto múltiplo feito com tampas de amaciador da roupa que encaixam umas nas outras. Para fazer uma boa maraca basta colocar arroz lá dentro e encaixar bem, deixando a última sem tampa. Se o seu educando gosta de encaixar objetos, não coloque dentro grãos pequenos mas objetos maiores como castanha, ou castanha da Índia, ou outros (tendo sempre o cuidado de não serem risco para a segurança.) ]

Almofariz:

Utilização rítmica do almofariz 

O almofariz de madeira que utiliza na cozinha para pisar condimentos, nozes e alho pode funcionar como instrumento musical de percussão direta, batendo com o pilão na base ou nas paredes. ]

Clavas de encaixe:

Tubos de cana abertos num dos lados ]

Além de servirem para bater da forma convencional – batendo com a menor na maior – duas clavas de cana de bambu furadas, com diâmetros adequados, podem ser um instrumento musical e um brinquedo, quando a criança se diverte a encaixar uma na outra e a bater dessa forma. ]

Maraca de braço:

Maraca acessível feita por Sílvia Faria ]

Para crianças com sérias limitações em termos de motricidade, é possível fazer pulseiras sonoras ou maracas de pulso que proporcionam experiências sonoras e bem-estar. Se tiver um familiar que costure, dê asas à imaginação e crie alternativas sonoras para o seu educando.

Saqueta de sons:

Peúga com conchas ]

Tem meias bonitas que já não servem ao seu educando? Guarde-as e poderá criar com elas objetos sonoros interessantes com que pode fazer jogos de música e motricidade. O som e o cheiro vai variar conforme o que colocar na meia: conchas, pedrinhas, caroços de frutos, ervas aromáticas secas, sementes de melão.

Maraca cilíndrica:

Recipiente cilíndrico de toalhitas ]

Um recipiente cilíndrico de toalhitas ou de ração de tartaruga pode tornar-se um brinquedo ou um instrumento sonoro em que pode colocar, conforme as competências e características do seu educando, arroz, grãos ou objetos maiores. 

Pulseira sonora:

Pulseira sonora feita por Sílvia Faria ]

Se tiver na família ou entre os amigos alguém quem saiba de costura, obtenha pulseiras sonoras ou maracas de pulso que proporcionam experiências sonoras agradáveis ou surpreendentes.

Guizeira de pulso:

Instrumento acessível feito por Sílvia Faria ]

Maiores limitações exigem maior engenho. Quando as crianças têm grandes dificuldades em mover o braço, uma das soluções poderá ser criar guizeiras de pulso. 

Chincalho:

Cabo, tampas de frascos de néctar e parafuso ]

A faca partiu e resta um bom cabo? Basta fixar tampas metálicas (de frasco de sumo tipo COMPAL), depois de furadas com prego grosso e martelo. Atravessando-as com um parafuso grande, tem um chincalho seguro, funcional, resistente e duradoiro.

Tambor de frasco:

Frasco de champô percutido com pauzinho ]

Com um pauzinho e um frasco de champô lavado e seco, reciclado, pode ter um instrumento que pode ajudar o seu filho a desenvolver diversas competências psicomotoras, contar, dizer frases curtas, acompanhar canções. ]

Vaso metálico reutilizado:

Vaso utilizado com finalidade diferente ]

Um vaso metálico e uma baqueta que encontra no IKEA a bons preço pode servir para tocar, seja com baqueta de plástico seja com uma colher de pau, ou pauzinho.

Maracas geométricas:

Maracas geométricas ]

Diversos frascos e boiões tornar-se maracas com cores e formas diversas (cilíndricas, oval, paralelipipédica e esférica.) Basta colocar lá dentro sementes ou grãos de cereal.

Saqueta:

Resto de pano com feijão preto dentro ]

Saquetas podem ser reutilizadas para fins didáticos e musicais, colocando dentro cascas de noz, búzios ou conchas. Pode fazer jogos cantados como: “Fui ao saco das amêndoas sem a minha mãe saber. Tirei uma, tirei duas… (até 10).  Que guloso que tu és!

Redinha de pedras:

Rede com pedrinhas recolhidas na praia ]

Areias dentro de uma saqueta podem suscitar o interesse da criança, em termos de som, de cores e de textura. ]

Hemisférios às avessas:

Idiofone feito das metades de esfera ]

Metades coloridas de recipientes esféricos de chocolate ou de surpresas de máquina podem funcionar como castanholas reutilizadas.

Castanholitas:

Doseadores de detergente para máquina de lavar roupa

Tampas maleáveis de doseador de detergente para máquina de lavar roupa podem servir de instrumento musical com timbre agradável e intensidade suave. Também pode utilizá-los para fazer jogo simbólico, fazendo de conta que é um copo (que pode passar-se entre adulto e criança ou encaixar.) ]

Tampa circular multiusos:

Tampa de balde de azeitona ]

Há crianças que, apesar de limitadas em termos de motricidade e fala, entendem muitas palavras e gestos dos adultos e gostam de fazer de conta. Uma tampa circular pode tornar-se um volante, uma máscara, um chapéu, um prato, uma pizza, um leque… Invente como fazia quando o seu filho era bebé, ou utilize canções tradicionais conhecidas. ]

Castanhola de parafuso:

Material para sustentação de cortinas e parafuso 

Em lojas ditas “dos Chineses” encontra estes objetos de madeira que servem para fixar varões de cortinas. Basta colocar um parafuso grande e tem um instrumento de percussão direta que dá para bater ou friccionar. Há crianças que gostam muito deste tipo de instrumentos. ]

António José Ferreira

Instrumento musical reciclado para crianças com ou sem necessidades educativas especiais

Este é um álbum de instrumentos reciclados inclusivos que podem ser replicados e tocados por todas as crianças, na escola e em casa, com a ajuda de familiares adultos. As fotografias deste artigo apresentam crianças portadoras de multideficiência e de necessidades especiais em ação e foram feitas ao longo de anos. Representam parte do trabalho em Unidade de Apoio Especializado à Multideficiência e crianças com NEE do Ensino Regular. Tendo em conta as vantagens económicas, pedagógicas e ambientais, são um recurso que beneficia a prática de educadores de infância e professores de Música nas Atividades de Enriquecimento Curricular/Música Adaptada.

Bombos reutilizados:

Baldes de óleo de motor de automóvel da Shell ]

Castanhola de parafuso:

Material para sustentação de cortinas e parafuso ]

Chinca-chinca:

Idiofone de madeira feito de peças de sustentação de cortina ]

Frascos de vento:

Cabide com frascos de champô presos por fios ]

Geme-geme:

Lata, cabo reutilizado e parafuso grande ]

Tambor de tampa circular reutilizado:

Tampa de balde de azeitona e baqueta de plástico ]

Maraca-lagarta:

Maraca com arroz feita de tampas de amaciador da roupa enfiadas umas nas outras ]

Maraca cilíndrica grande:

Recipiente cilíndrico de plástico (de ração para peixes), com grãos de arroz ]

Requemola:

Mola de guarda-chuva e raspador ]

Almofariz:

Utilização rítmica do almofariz ]

Clavas de cana:

Tubos de cana de bambu ]

Clavas de enfiamento:

Tubos de cana abertos num dos lados ]

Colar de argolas:

Argolas de cortina ]

Chincalho de argolas reutilizado:

Materiais para sustentação de cortina ]

Maraca de braço:

Maraca acessível com velcro feita por Sílvia Monteiro ]

Saqueta de sons:

Peúga com conchas ]

Maraca cilíndrica grande:

Recipiente cilíndrico de toalhitas ]

Pulseira sonora:

Pulseira sonora feita por Sílvia Monteiro ]

Saqueta sonora:

Saqueta com conchas ]

Guizeira de pulso:

Instrumento acessível feito por Sílvia Monteiro ]

Chincalho:

Cabo, tampas de frascos de néctar e parafuso ]

Tambor de frasco:

Frasco de champô percutido com pauzinho ]

Vaso metálico reutilizado:

Vaso utilizado com finalidade diferente ]

Maracas geomátricas:

Maracas geométricas ]

Saqueta:

Resto de pano com feijão preto dentro ]

Redinha de pedras:

Rede com pedrinhas recolhidas na praia ]

Litofone de mão:

Pedras recolhidas na praia ]

Paulitos:

5 pares de paulitos ]

Hemisférios às avessas:

Idiofone feito das metades de esfera ]

Clavas de cana de bambu:

Bocados de cana reutilizados ]

Círculos mágicos:

Tampas que se tornam diferentes objetos em jogos criativos ]

Chocalhos de vento:

Cabide com chocalhos pendentes ]

Castanholitas:

Doseadores de detergente para máquina de lavar roupa ]

Arena com bola:

Tampa circular com bola a rolar no sentido dos ponteiros do relógio ou em sentido contrário ]

Tampa circular multiusos:

Tampa de balde de azeitona ]

Maracas de tampas de amaciador:

Maracas de tampas de amaciador ]
Criança com multidefiência ao teclado

Álbum com crianças portadoras de multideficiência e necessidades especiais, em geral, tocando instrumentos musicais didáticos, tradicionais, digitais e reutilizados, de Unidades de Apoio Especializado à Multideficiência ou de turmas do Ensino Regular.

Guitarra clássica:

Criança com síndrome CHARGE dedilhando ]

Sinetas de botão de altura definida:

Tocando e vocalizando ]

Darabuca:

Criança com atraso do Ensino Regular ]

Pandeiro:

Criança com multideficiência tocando ]

Teclado digital:

Menina com síndrome de Angelman ]

Tambor multissensorial:

Criança com NEE em UAEM ]

Castanhola de cabo com elefante:

Menina com NEE em UAEM ]

Teclado:

Criança com multideficiência em UAEM ]

Pandeireta com abelha:

Menina com NEE em UAEM ]

Teclado:

Atento ao piano ]

Metalofone de lâminas soltas:

Tocando escala pentatónica ]

Maraca dupla de madeira:

Criança tocando em UAEM ]

Pandeireta:

Criança em UAEM ]

Guizeira didática:

Criança com deficiência em UAEM ]

Concertina de brincar:

Criança com síndrome de Angelman tocando ]

Rela:

Criança com multidefciência ]

Pianica de animais:

Menino com síndrome de Angelman ]

Maraca múltipla:

Criança da Pré-Escola tocando ]

Kashaka:

Menino com síndrome de Angelman em UAEM ]

Reco-reco didático:

Criança com síndrome CHARGE ]

Bateria digital Yamaha:

Instrumentos musicais didáticos, tradicionais e reutilizados tocados por crianças com necessidades educativas especiais em Unidades de Apoio Especializado à Multideficiência ou em turmas do Ensino Regular
Criança com NEE do Ensino Regular ]

Maraca cilíndrica de madeira:

Criança com NEE da educação pré-escolar ]

Jambé:

Menino com NEE em UAEM ]

Tamborete:

Criança com NEE em idade pré-escolar ]

Címbalo:

Menino com autismo, em UAEM ]

Maraquita cilíndrica:

Criança com NEE em idade pré-escolar ]

Pandeiro árabe:

Criança com NEE em Educação de Infância ]

Bongós:

Menina com NEE, síndrome de Down, em UAEM ]

Castanhola de cabo:

Criança com NEE de UAEM ]

Caxixi:

Criança com NEE em UAEM ]

Crótalo didático:

Criança com deficiência ]

Tubo melódico:

Criança com síndrome de Angelman ]

Minimetalofone:

Menino com NEE em UAEM ]

Prato suspenso:

Menino com síndrome CHARGE ]

Guizeira semicircular:

Menina com NEE em UAEM ]

Metalofone:

Criança com autismo tocando lâminas do acorde de Dó ]

Metalofone colorido:

Criança com deficiência tocando ]

Nota solta de metalofone:

Criança com multideficiência tocando ]

Tambor circular Remo:

Criança com multideficiência ]

Darabuca:

Menino com síndrome de Angelman tocando ]

Bomwackers:

Menina com NEE em UAEM ]

Pratinhos de choque:

Criança com síndrome de Angelman ]

Teclado eletrónico:

Menino com multideficiência dedilhando ]

Clavas:

Menina com NEE em UAEM ]

António José Ferreira

Caixa metálica quadrada

Quem tem um filho com necessidades especiais, tem um desafio permanente a encontrar o que o desenvolve, relaxa e valoriza. Se estiver atento e desenvolver a criatividade, vai encontrar objetos, ferramentas, canções e timbres que tornam a criança mais feliz: ser criativo é uma forma de amar.

António José Ferreira

A “Música Especial em Casa” é especialmente dedicada a famílias de crianças com necessidades educativas especiais. Os instrumentos foram ou podem ser utilizados com crianças portadoras de deficiência profunda – mas isso não significa que não possam ser utilizadas com todas as crianças do Ensino Regular em contexto de Atividades de Enriquecimento Curricular ou no Jardim de Infância.

A pandemia foi um desafio enorme que gerou uma aproximação que nunca fora possível entre a Escola e a Família. Esteja atento a pequenos objetos cujo conteúdo se esgotou. Por vezes, basta tirar a etiqueta e lavar para ter um pequeno instrumento que faz feliz o seu filho e o ajuda a desenvolver competências. Se este artigo lhe for útil e inspirar boas práticas, marque-o como favorito.

1. O desenvolvimento começa em casa.

Antes ainda de a criança nascer, o seu desenvolvimento faz-se com os sentidos e através dos sentidos. Antes de a criança saber o que é o amor, percebe que é amada. A música e a ternura são aliados especialmente valiosos nos primeiros anos de vida.

2. A cidadania aprende-se com a prática.

Ainda antes de ter noção do que deve ser enquanto cidadão, a criança absorvem os valores da gentileza e da atenção ao outro. Antes de irem para a escola as crianças já viveu o que é ser bondoso, saudar, pedir desculpa, dizer obrigado.

3. A criança tem atividades favoritas.

A criança não fala e não caminha autonomamente mas gosta de apertar e desapertar, de enroscar e desenroscar? Proporcione-lhe momentos de ação com recipientes reutilizados que são fáceis de lavar e desinfetar. Verificando que os objetos não representar qualquer risco para a criança, verá satisfação quando ela se envolve em colocar ou tirar, por exemplo, um pauzinho.

4. A limitação contorna-se com imaginação.

Pela sua problemática, a criança com deficiência tem por vezes tendência para lançar objetos ao chão. Selecione objetos de som agradável de alturas diferentes e ela criará contigo melodias improvisadas. Podem ser canas de bambu de tamanhos diversos ou tubos metálicos.

5. A música promove boas rotinas.

Na infância, especialmente no caso de crianças com necessidades educativas especiais, as rotinas são importantes para a estabilidade e segurança. Crie rotinas em que a música ajuda a memorizar de algum modo os dias, um tempo de exploração sonora ao sábado.

6. A música desperta (os) sentidos.

Quando a criança tem limitações que não são comuns, tem o desafio de utilizar utilizar a música como aliada para o desenvolvimento dos sentidos.

António José Ferreira

Afia sonora reutilizada

Reciclar objetos sonoros em (d)eficiência

Quem tem um filho com necessidades especiais, tem um desafio permanente a encontrar o que o desenvolve, relaxa e valoriza. Se estiver atento e desenvolver a criatividade, vai encontrar objetos, ferramentas, canções e timbres que tornam a criança mais feliz: ser criativo é uma forma de amar.

António José Ferreira

RECICLO EFICIENTE

“Reciclo eficiente” valoriza a reutilização, um novo modo de utilizar objetos que, tendo potencial sonoro e pedagógico, iriam para o contentor do lixo. A reutilização não supõe neste caso trabalhos significativos de transformação no objeto sonoro mas que seja eficaz com pouco trabalho.

O mesmo objeto, nova utilidade

Além disso, há coisas que não são normalmente associadas à Música mas que podem ser utilizadas em Música Adaptada: bola, mesa, cesto de papéis, almofariz. Neste caso, trata-se apenas de utilizar o objeto com uma finalidade diferente da inicial e sem quaisquer custos. Existe à nossa volta uma grande quantidade de materiais que vão normalmente para o ecoponto e que podem ser interessantes fontes sonoras. Há que experimentar e descobrir onde o objeto tem mais potencial sonoro e com que baqueta, ou de que forma deve ser tocado.

Baldes

Há latas e baldes que são ótimos tambores com as baquetas certas: baldes ecoponto, latas de 20 litros de óleos da Shell (Rimula Super). Estes, embora não sejam fáceis de encontrar, contam com mais de 10 cores diferentes, o que permitirá espetáculos de percussão muito interessantes em termos visuais.

Bolas

Certas bolas com diferentes características poderão seduzir as crianças para brincadeiras e produzir novos timbres. Contribuem para melhorar a concentração, incrementar o gosto pela atividade musical, desenvolver a psicomotricidade. Música e atividade física tornam-se aliados no desenvolvimento de crianças com ou sem necessidades educativas especiais.

Copos

Tampas de plástico de certos detergentes para máquina de lavar roupa (Formil activo, por exemplo), servem muito bem para jogos rítmicos com copos. Outros copos gelado conseguem o mesmo efeito. Há crianças com deficiência que gostam de explorar sons de forma espontânea, ou de enfiar objetos uns nos outros.

Frascos

Recipientes de iogurte bastante ergonónicos podem ser utilizados como maracas, depois de devidamente lavados e secos, com a quantidade de arroz adequada. Crianças do ensino regular, com ou sem NEE, podem fazer experiências sonoras e jogos alterando o conteúdo: lentilhas, arroz, sementes de melão, melancia ou abóbora.

Os frascos de champô, creme de banho, ou iogurte, podem tornar-se pequenos tambores, com baquetas adequadas. Agarrando-se a parte que tem a tampa (frasco de Pantene Po-V 200 ml, por exemplo) e batendo de lado com baqueta de borracha produz-se um som interessante. Em muitos casos, as etiquetas de plástico saem facilmente, não sendo preciso demolhar. Na falta de melhor baqueta, certos pauzinhos finos curtos ou mesmo lápis, ou canetas gastas podem ser eficazes.

Recipientes com saliências são ótimos raspadores, como o de Soft Pink Bubble Bath, por exemplo, muito usado por cabeleireiras. Retire as etiquetas de plástico, que saem facilmente. É um raspador muito limpo, simples e eficaz. O frasco de chocolate para leite Toddy, também funciona do mesmo modo.

Requeplás
Requeplás

Tampas de detergentes de roupa podem juntar-se e formar marcas muito eficazes, seguras e coloridas, gastando apenas nesse trabalho um pouco de arroz ou bocadinhos de fio elétrico e cola superforte para as partes não se separarem.

Recipientes de plástico ColaCao ou Ovomaltine, substituindo a tampa por membrana de balão ou borracha. Ou então pode-se bater com baqueta adequada na beira em que a tampa roda, de frente. Se houver uma baqueta com extremidade de borracha (reciclada de uma câmara de ar, por exemplo), a mão esquerda pode agarrar a boca do recipiente e abri-la mais ou menos e fechá-la completamente percutindo com a mão esquerda. Com sensibilidade e prática pode-se tocar várias notas e fazer melodias.

Recipientes geométricos

Reúna um conjunto de recipientes em forma de sólido geométrico de plástico (esfera, oval, cilindro, paralelipípedo, cone, cubo). Têm excelente potencial para aplicar conhecimentos de Matemática e para fazer maracas bonitas e resistentes. Entre essas formas contam-se as esferas que saem de muitas máquinas que dão brinquedo ou chocolate quando se mete uma moeda. A junção de uma tampa de amaciador com outra de diâmetro ligeiramente menor combina cores e permite fazer facilmente maracas cilíndricas.

Tampas

As tampas de plástico, coloridas (com cerca de centímetros de diâmetro e de altura) podem ser utilizadas para batucar com os dedos (indicador, médio e polegar), tal como as tampas em forma de dedal que encontramos em detergentes da roupa. Estas podem ser utilizadas para bater uma contra outra, ou contra tampas maiores, produzindo-se por vezes sons semelhantes ao de pingos de água, ou de estalidos com a língua. Tampas de amaciador de roupa, tipo copo, podem ser ótimas para jogos rítmicos em cima da mesa ou exploração sonora no chão.

Cabos

O cabo de esfregona ou de vassoura (de madeira) que se partiu pode fazer de cajado (a utilizar em canção de pastor), de guarda-chuva (para cão sobre a chuva) ou de vassoura (para o Halloween). Canas de bambu, pauzinhos de diversos tipos que vão para o lume ou para o ecoponto podem dar origem a eficazes e belos instrumentos: clavas, paulitos, reques, chincalhos, baquetas.

Pedras (litofones)

pedras de rio ou de mar que, em pares e conjuntos, podem produzir ritmos pequenas melodias. Pedras pequenas (em registo agudo) são acessíveis à criança e à família. Encontram-se com frequência em praias fluviais e marinhas. Acresce que podem ser utilizadas para melhorar o desempenho de contagens, somas e subtrações com crianças portadoras de atraso e deficiência mental do ensino regular, ou em idade pré-escolar. A prática de utilizar litofones remonta à pré-história e continua como tradição musical em vários países (especialmente asiáticos), que aperfeiçoaram as técnicas de transformação e suporte. Na Península Ibérica há grupos folclóricos que utilizam pedras de rio à maneira de castanholas.

Metal

Um objeto metálico que – não sendo um risco para o seu filho – tem forma, cor, som e potencial pedagógico, pode tornar-se um instrumento para o desenvolvimento do seu filho. Guarde-o no seu baú de exploração musical.

Tubos

Tubos de diversos diâmetros que produzem, conforme o comprimento, sons mais graves ou mais agudos. Batendo o tubo, ou batendo com a mão na boca do tubo, ou utilizando uma baqueta de borracha (câmara de ar) podem obter-se resultados surpreendentes.

Objetos mecânicos

Há crianças com deficiência que gostam especialmente de objetos mecânicos ou brinquedos com botões que produzem determinado som quando a criança carrega num botão ou aciona manivela. Este tipo de brinquedo ou objeto sonoro promove o desenvolvimento psicomotor em crianças do Jardim de Infância e crianças do NEE.

Afia sonora reutilizada
Afia sonora reutilizada

António José Ferreira

Acenos

Ser educado e atencioso

Em contexto de pandemia e para além dela, as atividades desta página em desenvolvimento podem ser feitas em casa com crianças portadoras de NEE, mas poderão ser utilizadas também em educação pré-escolar e mesmo no 1º e 2º anos de escolaridade em AEC.

A gentileza gera gentileza, cria bom ambiente, promove o bem-estar e contribui para a saúde mental. Ela é, por isso, muito importante para a boa convivência social. Saudar, dizer “bom dia” ou “boa tarde” de forma cordial, contribui para a felicidade, incluindo as crianças com necessidades especiais.

Na escola em contexto de UAEM, as rotinas dão previsibilidade e segurança. A música pode dar uma ótima ajuda nesse sentido, começando com uma “canção do olá” e terminando com a “canção do adeus”, por exemplo.

A família desempenha um papel insubstituível na assimilação de práticas de gentileza. Nesta atividade, o adulto nomeia e saúda a criança com voz e gesto e ela responde à saudação, na medida das suas possibilidades. Em famílias com crianças NEE, o toque, a brincadeira e o humor poderão ocupar um papel muito importante.

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Saudação

Oiça em formato MIDI.

Bom dia, ó Joana,
é bom estarmos lado a lado!
Com a música, o dia
fica bem mais animado.

O adulto diz a quadra e tenta cantar com a melodia, ou dizer à maneira de poesia ritmada (RAP), com palmas, ou pés no chão, ou movendo ritmicamente a mão da criança. E improvisa ou utiliza outras rimas:

Bom dia, ó Gonçalo,
é bom ‘star à tua beira.
Hoje é dia de tocarmos
porque é segunda-feira.

Tratando-se de crianças que não falam, ou que têm um vocabulário muito reduzido, as expressões faciais do adulto, o desafio é maior. Proporcionará movimento, usará criativamente a voz, e usará contrastes e diversos andamentos. Quando a criança não bate palmas sozinha mas consegue percutir com uma das mãos, por exemplo, pode bater na palma do adulto ou num tupperware.

O dia da semana

Oiça em formato MIDI.

Há crianças que têm dificuldades em dizer ou não dizem mesmo o dia da semana. Adaptando-se às circunstâncias, o adulto canta depois de ouvir o MIDI. E brincam com o “Yeah”, que pode ser acompanhado de um gesto com a mão e de uma expressão facial.

É segunda-feira!
Yeah!
Estou à tua beira!
Yeah!
Hoje tenho música e danço,
depois vou p’ra a brincadeira.
Yeah!

Esta é uma adaptação da canção de Boss AC, tendo em conta as características das crianças com necessidades especiais. Despois de cantar, as crianças podem dizer expressivamente o texto, se possível, ou realçar algumas palavras, como “yeah”, “música”, “danço”, “brincadeira”.

Ritmo com o corpo

Oiça em formato MIDI.

A adaptação de uma canção dos brasileiros Rionegro e Solimões nasceu da sugestão de uma criança em Unidade de Apoio Especializado à Multideficiência.

É na sola da bota,
é na palma da mão. (bis)
Põe na cara um sorriso,
diz adeus à solidão. (bis)

É na sola da bota,
é na palma da mão. (bis)
Faz do corpo um instrumento
que tem mais animação. (bis)

É na sola da bota,
é na palma da mão. (bis)
Pisca o olho e acena,
dá um abraço, amigão! (bis)

Professor e alunos realçam em cada estrofe o ritmo com o pé, as palmas, o sorriso, o adeus, o vir, o abraço.

António José Ferreira

Limões e hortelã

As “Canções para Sentir” nascem em contexto de pandemia para famílias com crianças portadoras de deficiência. Propõem atividades originais e acessíveis que podem melhorar o bem-estar dos educandos, promover o desenvolvimento e fomentar as relações entre pais e filhos. Podem ser realizadas com crianças sem NEE, tanto em casa como na escola, nº 1º Ciclo e Jardim de Infância.

António José Ferreira

Nas crianças com (multi)deficiência, tal como nos bebés, o tato e o olfato devem ser muito valorizados. Os familiares e educadores devem ter em conta as portas de acesso ao mundo de que a criança dispõe. Se a criança não tem visão, se não ouve, se não fala, o adulto tem um desafio pela frente no sentido de valorizar as capacidades da criança.

Dá-me

Esta canção pode ser recitada de forma teatral e criativa, ou com duas notas. Se a criança entender as palavras, mesmo que não acompanhe o texto, pode vocalizar; ou bater palmas; ou percutir com uma colher de pau num tupperware.

O adulto favorece a fruição do abraço, do beijinho, da mão e do toque.

Oiça a melodia AQUI.

Dá-me,
dá-me um abraço,
forte como um laço,
forte como um laço.
Um abraço!

Dá-me,
dá-me um beijinho,
cheio de carinho,
cheio de carinho.
Um beijinho!

Dá-me,
dá-me a tua mão,
sente o coração,
sente o coração.
Tua mão!

Dá-me,
dá-me uma bola,
p’ra jogar na escola,
p’ra jogar na escola.
Uma bola!

Antonio José Ferreira

Limão

Para crianças com certas deficiências, é especialmente importante envolver na música sentidos que a ela muitas vezes não estão ligados.

Seja verde ou amarelo,
que bem cheira o limão.
Se o agarro fica logo
perfumada a minha mão.

António José Ferreira

Oiça a melodia em MIDI.

O adulto entrega à criança um limão e ela experimenta o limão, a cor, forma, a textura (rugosidade), o cheiro, conforme as suas capacidades. Aproveita a oportunidade para cheirar a mão da criança, colocar a mão na sua face, criando momentos de brincadeira e bem-estar.

Se a criança fala, repete os versos, um de cada vez; em seguida, dois a dois; finalmente os quatro versos. Neste caso, improvisam como se cantassem em teatro musical. Se a criança não fala, o adulto proporciona à criança experiências auditivas, tácteis e olfativas.

Mãos bem lavadas

Molha as mãos, molha as mãos,
Bem molhadas, bem molhadas.
Esfrega as tuas mãos, esfrega as tuas mãos,
bem esfregadas, bem esfregadas.

Com a música de “Frère Jacques” , o adulto canta o texto com andamentos e timbres diferentes. Depois lava bem as mãos da criança com sabão durante 40 segundos, envolvendo os sentidos, enquanto improvisa sobre a canção.

Oiça a melodia AQUI.

Rosas

Seja branca ou vermelha,
é a rosa a minha flor.
Tem espinhos, tem perfume,
vou dar-te uma, meu amor.

Amarela ou cor de rosa,
é a minha flor preferida.
Uma é para a minha avó,
outra para a mãe querida.

António José Ferreira

Oiça a melodia AQUI.

O adulto colhe uma rosa, se possível, com a criança, sentindo o perfume, vendo se há algum inseto, verificando os botões e as flores abertas, o caules espinhoso e as folhas. Se aplicável, a criança diz um verso, ou dois, depois quatro. Cantam com uma melodia conhecida como “As pombinhas da Cat’rina”. Se a criança não fala, o adulto recita e canta em andamentos e com timbres diferentes fazendo sentir à criança a cor, textura e cheiro do botão ou da rosa aberta.

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Música e síndrome de Angelman

M. tem síndrome de Angelman. Não fala. No caminho para as sessões individuais, caminha bastante bem com a supervisão do professor. Ao longo do corredor há muitas portas e ela gostaria de entrar nas salas onde estão os colegas do ensino regular, mas o nosso destino é a sala de música.

A síndrome de Angelman (SA) é uma condição neuro-genética caracterizada por atraso no desenvolvimento, deficiência intelectual severa, ausência/dificuldade na linguagem e ataxia. Igualmente característicos são os distúrbios do sono e crises convulsivas acompanhadas por anomalias específicas do eletroencefalograma (EEG).

Sara Silva Santos, investigadora

Ataxia (do grego ατάξις, sem coordenação) ou distaxia é um transtorno neurológico caracterizado pela falta de coordenação de movimentos musculares voluntários e de equilíbrio. É normalmente associada a uma degeneração ou bloqueio de áreas específicas do cérebro e cerebelo.

Wikipédia

Gosta de manusear objetos, de tirar e por, desenroscar e enroscar novamente. Explora diversos instrumentos de percussão. Quando lhe parece possível, tenta desmonta certos instrumentos e objetos sonoros.

Por vezes deixa cair, quando já não lhe interessa.

Ri-se com certas situações (meter o pé no triângulo, por exemplo) e conversas do professor.

Gosta de tocar piano, sentada ou em pé, dedilhando as teclas e explorando botões. Agarra a mão do professor para que ele também toque.

António José Ferreira

Música e Síndrome CHARGE

O “Rui” foi diagnosticado com a síndrome CHARGE (Coloboma, Heart disease, Atresia choanae, Retarded growth and development, Genital anomalies, Ear anomalies). CHARGE é uma doença rara que consiste na associação de características incomuns na criança: coloboma ocular, cardiopatia congénita, estenose das coanas, atraso do crescimento e/ou desenvolvimento, anomalias genitais e/ou urinárias, e anomalias dos pavilhões auriculares e surdez, uma doença rara e complexa.

O Rui não é autónomo na marcha, mas tem registado progressos a caminhar de mão dada. Já sobe dois vãos de escadas e percorre comigo um longo corredor em direção à sala de música, sem se deixar cair à espera que o leve ao colo. Não fala e produz um número de sons vocais que se contam pelos dedos de uma mão.

Já na sala, puxo uma cadeira e sento-o. Ele mantém-se sentado e eu coloco-lhe uma pulseira musical com velcro feita pela Sílvia Monteiro, especialmente pensada para crianças com mais limitações em termos de motricidade. Há crianças que gostam de a ter no pulso. Não é o caso do “Rui”: sabe como retirá-la e consegue fazê-lo rapidamente.

Apresento-lhe um reco-reco de plástico constituído por um frasco de espuma de banho (Soft Pink 500ml Avon) que me foi dado por uma cabeleireira. Limitei-me a lavá-lo e a tirar a etiqueta, que sai facilmente. As reentrâncias conferem-lhe um som agradável, melhor do que muitos reco-recos comprados. Além disso, é lavável, o que tem muitas vantagens, sobretudo em contexto de unidades de apoio na multideficiência. O “Rui” não quer raspar, mas agarra a minha mão e fá-la deslizar repetidamente pelo reque adaptado. Ao som de música instrumental, tocamos, à vez, por pouco tempo, para ele não se fartar.

Criança com tambor de mão
Criança com tambor de mão

O “Rui” também toca tambor, tamborim, com baqueta ou com as mãos. Toca também outros pequenos instrumentos de percussão, durante algum tempo, lançando-os ao chão quando a sua capacidade de permanência na atividade se esgota.

Há na sala um teclado, que é um dos seus instrumentos preferidos. Por vezes acompanha com sons vocais. Ainda antes de o ligar, já ele desliza a mão direita pelas teclas, produzindo sons que ninguém valorizaria. O piano acalma-o: permanece bastante tempo tocando e não se morde nem mete a mão à boca durante esse tempo.

Música e síndrome CHARGE, tocando piano
Música e síndrome CHARGE, tocando piano

A criança tem tendência para meter alguns instrumentos à boca, por vezes com a intenção de os tocar com as mãos. Tenho de estar atento para evitar que o faça por questões de higiene.

A criança gosta de dedilhar as cordas da guitarra clássica, colocada sobre a mesa na posição que é mais confortável para ele. Em simultâneo, utilizo uma das cordas mais graves como bordão enquanto faço improvisação vocal ou canto uma melodia infantil.

Em Música Adaptada, cada um toca de acordo com as suas capacidades.

António José Ferreira

Música e Síndrome CHARGE
Dedilhando as cordas da guitarra clássica