O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida. Fontes: Blogue A Nossa Rádio, Álvaro José Ferreira.

A presença das formigas

Ai que ricas orelhinhas!

Na verdade
Odeias e destróis
Tão certo de uma vã verdade
Que constróis

Na verdade
Amas a quem matou
Tão firme numa crença
Que alguém inventou

A verdade é bonita é
Quando nua então é que é linda
Sinuosos os contornos
Irresistivelmente doces
E pecaminosos

Na verdade
Não tens por que saber
Não tens por que pensar
Não tens por que querer

Na verdade
Não tens por que sentir
Não tens por que amar
Não tens por que sorrir

A verdade é bonita é
Quando nua então é que é linda
Sinuosos os contornos
Irresistivelmente doces
E pecaminosos

Mas que ricas orelhinhas que tu tens
Tão lindas como a verdade que deténs
Redondinhas
Tão perfeitas que mais parecem conchinhas
Delicadas e tão bem torneadinhas
Dá vontade de trincá-las, tão fofinhas

Ai que ricas orelhinhas que tu tens
Tão lindas como a verdade que deténs
São de BURRO!!!
Asininas e muito pouco garbosas
Não te tiro que ao menos são vistosas
Bem compridas, felpudinhas e mimosas
Ai que ricas orelhinhas!

A verdade tem mil caras e mil crenças
É volátil, é mutante
Evapora-se no ar

E condensa-se em gotículas escuras
No espelho dos interesses
De quem manda ou quer mandar

A verdade é bonita é
Quando nua então é que é linda
Sinuosos os contornos
Irresistivelmente doces
E pecaminosos

Mas que ricas orelhinhas que tu tens
Tão lindas como a verdade que deténs
Redondinhas
Tão perfeitas que mais parecem conchinhas
Delicadas e tão bem torneadinhas
Dá vontade de trincá-las, tão fofinhas

Ai que ricas orelhinhas que tu tens
Tão lindas como a verdade que deténs
São de BURRO!!!
Asininas e muito pouco garbosas
Não te tiro que ao menos são vistosas
Bem compridas, felpudinhas e mimosas
Ai que ricas orelhinhas!

A verdade é bonita é
Quando nua então é que é linda
Sinuosos os contornos
Irresistivelmente doces
E pecaminosos

A verdade é bonita é
Quando nua então é que é linda
Sinuosos os contornos
Irresistivelmente doces
E pecaminosos

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

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Bolinhas de sabão

Bolinhas de Sabão

Minha fonte de chafurdo
Onde eu queria mergulhar
Minhas ânsias e desejos
Minha sede, meu penar
Por te não ter a meu lado
Ao teu lado ficarei
Eu contigo e tu comigo
Tu não sabes, mas eu sei!

Mui asinha gostaria eu
De te dar consolação
Dos fantasmas e demónios
Que te levam pela mão
Mas a vida são dois dias
São dois dias a correr
Antes queria eu, em podendo,
Dar-te um pouco de prazer!

Ai eu não sei, não
Que fazer dos teus intentos
Que fazer das palavras que desfias
São verdades, são mentiras?
São bolinhas de sabão?
Eu confesso que me agrada ver-te assim
Tanta rima p’ra chegar junto de mim
Toma lá! hoje levas um beijinho
Amanhã mais um carinho
Só depois te digo “não”

(Ele vai querer-te p’ra sempre
Vai ter-te juntinho ao seu coração
Vai amar uma ideia
Do que jamais será seu)

És tão bela como a Lua
Mais cheirosa que uma flor
És a minha perdição
És um rio de calor
E se diz que és insossa
Quem já fez por te provar
Boto-te um pouco de sal
P’ra te dar um paladar

Ai eu não sei, não
Que fazer dos teus intentos
Que fazer das palavras que desfias
São verdades, são mentiras?
São bolinhas de sabão?
Eu confesso que me agrada ver-te assim
Tanta rima p’ra chegar junto de mim
Toma lá! hoje levas um beijinho
Amanhã mais um pouquinho
Só depois te digo “não”

(Ele vai querer-te p’ra sempre
Vai ter-te juntinho ao seu coração
Vai amar uma ideia
Do que jamais será seu)

P’ra que fique bem assente
Digo e torno a redizer
Que de todos que te querem
Mais do que eu não pode haver
São o teu porto seguro
As portas do meu coração
Que se agita e bate forte
Toca como um carrilhão!

Ai eu não sei, não
Que fazer dos teus intentos
Que fazer das palavras que desfias
São verdades, são mentiras?
São bolinhas de sabão?
Eu confesso que me agrada ver-te assim
Tanta rima p’ra chegar junto de mim
Toma lá! hoje levas um beijinho
Amanhã mais um carinho
Só depois te digo “não”

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014).

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A presença das formigas

Dá-me o amanhã!
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero o teu calor
Quero o teu ser, o teu eu, o teu haver
Quero provar-te e beber a tua dor

Quero-te nos braços
Toma-me nos braços!
Quero as lágrimas que choras
Não por mim, mas já que as choras
Quero a pele que elas molham
E os meus lábios as sorvam
Quero o corpo onde moras

Dá-me o amanhã!
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero-te as entranhas
Quero-te por dentro e por fora e já agora
Quero roubar-te os sentidos
Quero-te a ti por inteiro
Quero que unamos destinos
Quero-te a ti por inteiro
Por inteiro

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

A presença das formigas
A Presença das Formigas
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Que Bonito Que Seria

Cantiga primeira:

Eu ia não sei p’ra onde,
Encontrei não sei quem era:
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Cantiga segunda:

Não há bem que sempre dure
Nem mal que não acabe;
Mas há quem lute
Pelo fim desta nossa Liberdade.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Primeira versão do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, 1997)

*Ponto – António Dias
Alto – Francisco Damas
Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”: António Diogo, António Infante, António Mira, Álvaro Custódio, Dinis Belchior, Filipe Pratas, Florival Prazeres, Francisco Damas, Francisco Matos, Francisco Mestre, João Ribeiros, Joaquim Canário, Joaquim Farias, José da Conceição, José Jerónimo, Jorge Guerreiro, José Leitão, José Mestre, Manuel Custódio, Manuel Pancadas, Manuel Pontes, Pedro Mestre, Vítor Pratas

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Os Ganhões de Castro Verde

Há lobos sem ser na serra

Cantiga primeira:

Por eu ser alentejano,
Alguém me chamou ladrão;
Foi o que eu nunca chamei
A quem me roubava o pão.

Moda:

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Cantiga segunda:

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada:
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada!

Moda:

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Há Lobos sem Ser na Serra
Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

*Ponto – Manuel Pancadas
Alto – Manuel Pontes

Os Ganhões de Castro Verde
Os Ganhões de Castro Verde
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Luís de Camões

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Poema (soneto): Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967)

* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris

Nota:
No manuscrito da “Década VIII”, atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas “Lusíadas”, como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: “Alma minha gentil, que te partiste…»

Aquela Triste e Leda Madrugada

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando à terra claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada;

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Juntando-se, formaram largo rio;

Ela ouviu as palavras magoadas
Que poderão tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

Poema (soneto): Luís de Camões (ligeiramente adaptado)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Aquela triste e leda madrugada

(Luís de Camões, in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 12)

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando à terra claridade,
Viu apartar-se de ũa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada;

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Juntando-se, formaram largo rio;

Ela ouviu as palavras magoadas,
Que poderão tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

Arrocachula

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gravê

Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer
Ai, as palavras têm raízes
Que começam no som que eles estão a perder

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

Arrocachula, arrocachula
Arrocachula na espinal-medula

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gravê

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer
Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

Poema: Luís de Camões (1.ª estrofe d’ “Os Lusíadas”) e José Mário Branco
Música: José Mário Branco e Popular
Intérprete: José Mário Branco* (in LP “A Noite”, de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)

* Viola eléctrica – Rui Veloso
Viola “raspada” – José Mário Branco
Roland JX-8P – António Emiliano
Bateria – Henry Sousa
Baixo – Paulo Jorge
Trompete – Tomás Pimentel
Saxofone tenor – Rui Cardoso
Trombone – José Oliveira
Clarinete – Artur Moreira
Pífaro – José Pedro Calado
Violino “rabecado” – Luís Cunha
Viola acústica, viola braguesa e cavaquinhos – Júlio Pereira
Bombos e caixas – Rui Júnior e José Mário Branco
Ferrinhos – Rui Júnior
Coro – Formiga, Isabel Campelo, Madalena Leal, Graça e Necas Moreira, Rui Vaz e Gustavo Sequeira
Coro do refrão – Rui Veloso e José Mário Branco
Arranjo de metais – Tomás Pimentel e José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes

As Armas e os Barões Assinalados

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana…

Poema (excerto): Luís de Camões (estrofes 1.ª, 2.ª, 3.ª e 6.ª do Canto I d’ “Os Lusíadas”, Lisboa, 1572) [texto integral em “Jornal de Poesia”]
Música: José Cid
Intérprete: António Pinto Basto (in LP/CD “Camões, as Descobertas… e Nós”, de José Cid* e Amigos, Mercury/Polygram, 1992)

* António Pinto Basto – voz
Músicos participantes:
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Francisco Martins – viola de 12 cordas solo baixo
Francisco Cardoso – bateria e percussões
José Cid – sintetizadores, cítara indiana e coros
João Veiga – viola acústica
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa

Arranjos e produção – José Cid
Gravado e misturado em casa de José Cid, Mogofores, Anadia
Engenheiros de som – Vítor Moreira e Jorge Barata
Montagem digital – Jorge Hipólito

Canta o caminhante ledo

[ Babel e Sião ]

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo.

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Poema (trova em redondilha maior): Luís de Camões (excerto adaptado)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967) *Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris

Sôbolos rios que vão

(Luís de Camões, in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 711-721)

[ Texto integral ]

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião,
e quanto nela passei.

Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado;
e tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
na alma se representam;
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes,
como se nunca passaram.

Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura;
o mal quão depressa vem;
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi ao bem suceder mal,
e ao mal muito pior.

E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou;

assi, despois que assentei
que tudo a tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.

Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: — «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir;

jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que por vos ouvir deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florescente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.»

Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.

Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que, quanto da vida passa,
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade,
não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.

Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas em tristezas e enojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente à los ojos
por quien muero tan contento.

Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava,
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças de afeição
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
que eu cantava em Sião?

Que foi daquele cantar,
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo.

Canta o preso docemente,
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti
na alma, de mágoas tão cheia,
como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.

Que, quando a muita graveza
da saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei
o que passo, e passei já,
nem menos o escreverei,
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha;
e se Amor assim o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.

Porém se, pera assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento
da alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.

A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser,
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.

A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.

Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobre à Pátria divina.

Não é, logo, a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade
donde esta alma descendeu.

E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio de Fermosura,
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do Sol, nem da candeia,
é sombra daquela Ideia,
que em Deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram,
são poderosos afeitos
que os corações tem sujeitos;
sofistas que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o manto tirano
me obriga, com desatino,
a cantar, ao som do dano,
cantares de amor profano
por versos de amor divino.

Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que eu tomei por vício
me faz grau pera a virtude;

e faz que este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra ao Real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti.

Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal,
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.

E, tomando já na mão
a lira santa, e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão de paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.

A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.

Aqueles que tintos vão
no nobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasá-los igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos afeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvidrio que tenho;

estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.

Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se Vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia:

beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que ũa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez.

E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo,
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;

quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível:

ali achará alegria,
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que, nem por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia;

ali verá tão profundo
mistério na Suma Alteza,
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,
minha Pátria singular,
se só com te imaginar,
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente,
que, despois de a ti subir
lá descanse eternamente.

Quem Ora Soubesse

MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

VOLTAS

D’Amor e seus danos
me fiz lavrador;
semeava amor
e colhia enganos.
Não vi, em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.

Vi terra florida
de lindos abrolhos:
lindos pera os olhos,
duros pera a vida.
Mas a rês perdida
que tal erva pasce
em forte hora nasce.

Conquanto perdi,
trabalhava em vão:
se semeei grão,
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.

Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 771-772)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

*Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris

CANÇÃO IX

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)

Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido,
é Félix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando à parte donde
o Sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
Africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo; que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
por que ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algũa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas que caía
— e vede se seria leve o salto! —
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar e nuns suspiros,
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna:
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algũa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe é dor e causa que padeça,
mas que pereça não, por que passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algũa hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada — inda que tarde — piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais que, cá tão longe, de alegria
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co eles fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos, com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.

Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa

[ Fonte: Blogue A Nossa Rádio ]

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Gaio-verde

Pena Verde

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Verde-Gaio, Pena Verde,
(Ai!) Vem cantar ao meu jardim!
Põe o pé na manjerona,
(Ai!) O bico no alecrim!

Não há nada que mais cresça
(Ai!) Como o pé da melancia!
Quem tem o amor ausente
(Ai!) Chora de noite e de dia.

O Verde-Gaio é meu
(Ai!) Que me custou bom dinheiro:
Custou-me quatro vinténs
(Ai!) Lá no Rio de Janeiro.

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Verde-Gaio, Pena Verde,
(Ai!) Empresta-me o teu vestido!
O meu vestido são penas,
(Ai!) Em penas ando vestido.

Ó terra da minha terra,
(Ai!) Sombra da minha ramada!
Eu hei-de voltar a ela
(Ai!) Ou solteira ou casada!

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Letra e música: Tradicional (“Verde-Gaio” de Casal d’Álvaro, Espinhel, Águeda, Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Gaio-verde
Gaio-verde
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António Gedeão/Rómulo de Carvalho

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa…

Poema: António Gedeão (excerto)
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes (in LP “Fala do Homem Nascido”, Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)

Arranjos e direcção de orquestra – José Calvário
Produção – José Niza
Gravação de orquestra nos Estúdios Celada, Madrid, por Pepe Fernandez, Enrique Rielo e Vinader, em Novembro de 1972
Gravação de vozes nos Estúdios Polysom, Lisboa, por Moreno Pinto

CALÇADA DE CARRICHE

António Gedeão, in “Teatro do Mundo”, Coimbra: Edição do autor, 1958; “Poesias Completas”, Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; “Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor”, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37).

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão/Rómulo de Carvalho
António Gedeão/Rómulo de Carvalho
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Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte

Saias dos Foros

São saias, meu bem, são saias;
São saias que andam na moda.
Segura-te, amor, não caias
Qu’ elas têm pouca roda!

Segura-te, amor, não caias
Qu’ elas têm pouca roda!
São saias, meu bem, são saias;
São saias que andam na moda.

Oh maçã encarnadinha
Bicada do rouxinol,
Se não fosses tão baixinha
Eras mais linda que o Sol!

Se não fosses tão baixinha
Eras mais linda que o Sol,
Oh maçã encarnadinha
Bicada do rouxinol!

Nos foros da Fonte Santa
Não se pode namorar:
De dia as velhas à porta,
À noite os cães a ladrar.

De dia as velhas à porta,
À noite os cães a ladrar.
Nos foros da Fonte Santa
Não se pode namorar.

Estas é que são as saias
Que cantam em Portugal:
Trouxeram-nas as ceifeiras
Na ponta do avental.

Trouxeram-nas as ceifeiras
Na ponta do avental;
Estas é que são as saias
Que cantam em Portugal.

Saias dos Foros
Letra e música: Tradicional (Alto Alentejo)
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)

Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte
Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte
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Nascer do Sol no Alentejo

Arquinhos

Cantiga:

O Sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce;
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse!

Moças, façam arquinhos!
Moças, façam arcadas
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada!

P’ra passar a minha amada,
O meu benzinho,
Moças, arquinhos!
Moças, arcadas!

P’ra passar o meu benzinho,
A minha amada, |
Moças, arquinhos!
Moças, arcadas!

O meu benzinho…

A minha amada…

Arquinhos (dança de roda)
Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Alentejo)
Informantes: Grupo Coral e Etnográfico “As Papoilas do Corvo” (Aldeia do Corvo), Manuel Bento (Aldeia Nova) e Pedro Mestre (Sete)
Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 36-37)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Nascer do Sol no Alentejo
Nascer do Sol no Alentejo
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