Cantas e cramóis, ft Arouca Geopark
Canto da polifonia tradicional

Existem diferentes designações locais para o canto da polifonia tradicional: cramol, terno, lote, cantada, cantedo, cantarola, moda ou cantiga.

A agência Lusa noticiou a 21 de abril de 2021 que a candidatura de “Canto a vozes” a Património da UNESCO seria formalizada em breve. A Associação Canto a Vozes-Fala de Mulheres candidata, instituição que junta 30 grupos, de Viseu até ao Alto Minho, teria dentro de duas semanas o processo pronto para ser entregue a nível nacional e, posteriormente, apresentado junto da UNESCO”, a organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Josefina Bouças, responsável daquela associação, referia-se à inscrição da candidatura no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que dá início ao processo de classificação, formalmente iniciado em março de 2020, num encontro que juntou, no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, mais de 300 pessoas que decidiram constituir a associação Canto a Vozes-Fala de Mulheres.

A Associação de Canto a Vozes-Fala de Mulheres foi formalmente criada em Viana do Castelo, no dia 01 março de 2020, com o propósito de avançar com o processo.

A decisão saiu de um encontro que decorreu em janeiro de 2020, na cidade de São Pedro do Sul, no distrito de Viseu, onde teve lugar a mesa-redonda “O património somos nós”.

Nessa altura, em comunicado, foi anunciada a constituição de uma comissão organizadora da futura associação de defesa dos interesses dos grupos que formalmente ou informalmente cantam, a três e mais vozes, um repertório legado pela sociedade agrária tradicional, acrescenta o comunicado dos promotores.

A nota então enviada à imprensa destacava que, por iniciativa do município de São Pedro do Sul, foi feito um protocolo com a Universidade de Aveiro, tendo sido constituída uma equipa de investigação que, desde 2017, acompanha a atividade dos diferentes grupos, ao mesmo tempo que desenvolve uma pesquisa em fontes históricas.

“Uma vez que o Cante Alentejano e o Fado já estão classificados como Património da Humanidade, decidiu-se que a candidatura partiria de São Pedro do Sul e seria extensível a todo norte, até ao Alto Minho. São cerca de 300 a 400 pessoas que estão integradas nos cerca de 30 grupos inscritos nesta candidatura”, especificou Josefina Bouças.

A professora reformada de 65 anos, que também faz parte do grupo As Cantadeiras do Vale do Neiva, de Viana do Castelo, acrescentou que a candidatura “também integra grupos informais, que não estão constituídos enquanto associações”, como é o caso, ainda no Alto Minho, das Cantadeiras de São Martinho de Crasto, da União das Freguesias de Crasto, Ruivos e Grovelas, no concelho de Ponte da Barca.

A responsável está confiante na classificação de um património que classificou de “muito representativo dos usos, costumes, e da identidade” das regiões abrangidas.

“Afinal de contas é a identidade de um povo, muito representada pelas mulheres, porque quem cantava eram as mulheres, mesmo que fosse para chorar. Cantavam do nascimento até à morte, para não chorar. São esses os testemunhos que recolhemos. Temos consciência de que fizemos um trabalho de excelência, porque estamos a ser muito exigentes e estamos rodeados de pessoas extremamente competentes”, referiu.

“Seria qualquer coisa de bradar aos céus, sem menosprezar e desprestigiar o Cante Alentejano e o Fado. Mas seria muito mau que a candidatura desta polifonia tão rica, do centro e norte, não fosse aprovada. Seja por enaltecer as mulheres, seja por enaltecer este tipo de canto que está realmente votado ao abandono”, sustentou.

Cantado “por grupos de mulheres ou mistos, este canto é, no século XXI, uma expressão artística e um património imaterial que vincula as mulheres e homens [com maior destaque na mulher] no combate à vulnerabilidade das comunidades onde residem; reforça a identidade local e ‘desoculta’ o papel das mulheres nos processos e práticas culturais ancestrais”, definiu.

Cantas e cramóis, ft Arouca Geopark

Cantas e cramóis, ft Arouca Geopark

O Grupo “Terras de Arões”, fundado em 1997 e sediado na freguesia mais distante do centro de Vale de Cambra é um dos grupos que integram este movimento.

A 4 de março de 1941 nascia em Manhouce (São Pedro do Sul) Isabel Silvestre, a mulher que seria uma das pedras basilares da criação da associação e um nome maior do canto a vozes. Em 1978 foi a responsável pela criação de As Vozes de Manhouce, um dos grupos mais representativos do que é esta forma de cantar e aquele que tem dado maior visibilidade a este tão rico património. No dia 4 de março de 2021, houve um concerto pelo grupo As Vozes de Manhouce, em sua homenagem, com transmissão online.

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