Castelo de Beja

Caminhos do Alentejo.
Terra bravia de fomes
com piteiras aceradas
como pontas de navalhas
em esperas de encruzilhadas!
Caminhos do Alentejo.
Desde valados e sebes,
searas, vilas, aldeias
e chuvas e descampados
— caminhos do Alentejo
desde menino vos piso!

Caminhos do Alentejo.
Desde valados e sebes,
searas, vilas, aldeias
e chuvas e descampados
— caminhos do Alentejo
desde menino vos piso!

Caminhos do Alentejo
Poema: Manuel da Fonseca (excerto inicial da parte I de “Para um poema a Florbela”)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro* com Vitorino (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

*Paulo Ribeiro e Vitorino – vozes
Tomás Pimentel – trompete
Rui Teixeira – trombone

Castelo de Beja
Castelo de Beja

Para um poema a Florbela

Manuel da Fonseca, in “Planície”, Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 119-133; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 129-140

I

Caminhos do Alentejo.
Terra bravia de fomes
com piteiras aceradas
como pontas de navalhas
em esperas de encruzilhadas!
Caminhos do Alentejo.
Desde valados e sebes,
searas, vilas, aldeias
e chuvas e descampados
(sem manta de me abrigar,
ai, sem Maria Campaniça!…)
— caminhos do Alentejo,
desde menino vos piso!

Charneca de vida a vida
tolhida de solidão;
névoa da água dos olhos…
Rude coração pesado
do coro de ganhões perdidos
na sombra que cai do céu.
Ladrões a comerem estradas
entre cavalos da guarda
para a cadeia das vilas.
Bebedeira de malteses
desgraçados e terríveis
gritando facas de mola!
Caminhos do Alentejo,
desde menino vos piso
no meu caminho pra Beja!

Que Beja tem um Castelo,
mirante do Alentejo:
— quando a gente olha de longe
vê Florbela na torre alta,
esguia como quem era!
Que da torre alta de Beja
os olhos de Florbela,
tão rasgados de lonjuras,
vagueiam nos horizontes
— como dois verdes faróis
dos passos do meu caminho!
Que a noite não é a noite
tombando na planície:
— é da torre alta de Beja
os cabelos de Florbela
destrançados sobre o mundo!
Que a manhã não é manhã
iluminando a charneca:
— é da torre alta de Beja
os olhos de Florbela
abrindo-se, devagar!…

Ó navalhas de malteses,
coro de ganhões perdidos,
emboscadas de ladrões,
ó urzes, cardos, esteveiras,
terra bravia de fomes,
caminhos do Alentejo
— deixai-me passar em frente!
Que na torre alta de Beja
Florbela grita o meu nome
Sorrindo para os meus olhos!…
Sorrindo para os meus olhos
com os seios tão redondos
como duas rosas cheias!

II

Florbela não foi à monda
nem às searas ceifar.

Nasceu senhora da vila:
— nunca as suas mãos esguias
colheram as azeitonas
nos galhos das oliveiras.

Mas ela sabia tudo
que há no coração da gente:
— ouviu a gente cantar.

Desde menina cresceu
ouvindo a gente cantar
em ranchos, pelos montados,
quando a noite vai subindo!…

III

Florbela às vezes descia
às casas ricas da vila.
Falava de tal maneira
que ninguém a entendia
nas casas ricas da vila.

Senhora na sua terra,
sua terra abandonou…:
— porque lá ninguém a queria…

Senhora numa cidade.
Florbela as vezes descia
às casas dos lavradores.
Falava (como tu cantas
ó Maria Campaniça!…)
falava… — quem a entendia
nas casas dos lavradores?!…
Senhora numa cidade,
a cidade abandonou…:
— porque lá ninguém a queria…

IV

… Jogou-se às estradas da vida,
caminhos do Alentejo,
esbanjando braçados cheios
da grande vida que tinha!

E os campaniços leais
que bem a compreendiam!
Raparigas de olhos pretos
o modo como a olhavam!
Maiores de largo gado
ínvios atalhos desciam
até às estradas reais.
Moinhos presos nos cerros,
velas pelo céu giravam;
nos longes do descampado
ardem queimadas vermelhas!…

E Florbela, de negro,
esguia como quem era,
seus longos braços abria
esbanjando braçados cheios
da grande vida que tinha!

V

Quando o vento leva o Sol,
apaga a Lua e as estrelas
e grita pelos pinhais;
junto a brasas esquecidas
— das esperas de ladrões
pelas noites desgraçadas,
carreiro da negra sina
as mortes que te contava!…
E o porcariço, menino
solitário no montado,
estremecendo em teu peito
que apaixonado terror
toda a noite o acordava!…
Pobre cavador de enxada
na dura terra sem fim…
da fome da sua casa
que lágrimas te chorava!…
Maltês de correr o mundo,
tão rasgado e tão senhor,
da sua vida de sol
linda manhã te ofertava!…
E as camponesas, em coro
pelas searas e olivais,
um hino feito de mágoas
em tua glória cantavam!…

VI

… Té que um dia, cansada
de tanta vida dar,
Florbela adormeceu
antes da noite vir.

Ora foi que passava
a nossa boa mãe
Senhora Dona Morte.
E vendo aquela moça
caída a meio da estrada,
com ternura a ergueu.

— Que alta e formosa
Florbela era!

Ceifeiros que a viram
passar junto à seara,
a seara deixaram!
Cavadores, nos cerros
prà terra dobrados,
os bustos ergueram
descendo as encostas.
Malteses sem rumo
na estrada pararam.
E as moças dos montes,
que em casa lidavam,
abriram postigos,
de olhos deslumbrados!…

VII

… Ceifeiros sentiram
que estavam bebendo
água fria da fonte;

cavadores pensaram
que tinham herdado
a grande courela;

malteses juraram
haver descoberto
uma Estrada Nova!;

e as moças dos montes
tremeram de espanto
como se na noite
um homem viesse
tocar-lhes nos peitos!…

E Florbela passando
parecia levada
na vela da saia!…

VIII

… A cidade onde viveu
seus olhos não a olharam:
porque lá inda a não querem…
Porque lá ninguém a quis,
os seus olhos se voltaram
da vila onde nasceu…

Senhora — como quem era!,
alto Castelo de Beja
para morada escolheu.

IX

Veio a noite e a manhã,
veio um dia e outro dia:
a Lua cresceu, minguou.
E agora, na lua nova
das negras noites sem fim,
Florbela não aparece
a ensinar o Caminho!…
Florbela não aparece
a levar-nos à Courela
onde há a fonte e a moça,
que são nossas!…,
onde há a água e o pão
e o amor que prometeu!…

X

Longínquos ecos que ouvi
quando acordei noite fora,
não eram vozes do vento
falando pelas searas:

— eram os rumores dos gestos
de Florbela despertando.

Sombra que surpreendi
quando meus olhos voltei,
não era sombra da árvore
fugidia pelo chão:

— era Florbela errando
inquieta ao meio do montado.

O calor que vem da terra
ondulando como asas
de subtilíssima chama,
não é do lume do Sol:

— é cio que treme, solto
dos alvos seios de Florbela.

A calma que cai do céu
quando a noite principia
e eu tombo de cansado
faminto de a procurar,
não é frescura da noite:

— é a mão de Florbela
tocando na minha fronte.

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