Maria Teresa de Noronha

Cai Chuva do Céu Cinzento

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizê-la mas pesa
O quanto comigo minto.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Murcha a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Mas nisto tudo a verdade
Ai! É só eu ter que morrer.

Poema: Fernando Pessoa (excertos adaptados de três poemas)
Música: Maria Teresa de Noronha (Fado das Horas)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

*Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

Maria Teresa de Noronha
fadista Maria Teresa de Noronha

Cai chuva do céu cinzento

Fernando Pessoa, 15-11-1930, in “Poesias Inéditas (1930-1935)”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 25

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Se tudo o que há é mentira

Fernando Pessoa, 14-10-1930, in “Poesias Inéditas (1930-1935)”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 22

Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.

O ruído vário da rua

Fernando Pessoa, 21-2-1931, in “Poesias Inéditas (1930-1935)”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 29

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

0 comentários

Deixe um comentário

Quer participar?
Deixe a sua opinião!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *