Algarve cantado

Ao raiar do dia

[ Corrido Algarvio ]

Ao raiar do dia
Sagres vê passar…
Até no Burgau
Viram navegar.

Vinham quatro barcos
Lá no meio do mar;
Foram para Lagos
Para atracar.

Saem para terra
De malas na mão;
Correm pela vila
Até Portimão.

Seguem o caminho,
Agora à boleia;
Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Faro é em frente,
Com sua magia
Da cidade velha
Sonham com a Ria.

Lá vai o comboio
Para sotavento:
Vai até Tavira
Que inda vai a tempo.

Passa por Cacela,
Por Castro Marim;
Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

E lá vão de roda,
Seguem para trás,
Que o carro não pára
Antes de São Brás.

Agora sem carro
Vão os quatro a pé…
Bem devagarinho
Chegam a Loulé.

Montados num burro,
Pelos montes fora,
Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão até Monchique
Que é sempre a subir:
Só param na Fóia,
Já não voltam a vir.

Que os quatro poetas,
Deitados no chão,
Olham as estrelas,
Luz da criação.

Já passaram anos
E os quatro poetas
Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Da serra veste perfumes

[ De Sol a Sul ]

Da serra veste perfumes,
do levante inquietações.
Do tempo lhe vêm famas
do mar as consolações.
Velha Romana, Tuaregue,
maruja, aventureira,
dos mares sabida e da vida
sabe tudo, de matreira.
Minha loira, meu azul
faz-te ao mar, despe esse manto
de nevoeiro e de sal,
desnuda-te do quebranto
de seres ponto de partir.
Navega com rumo a ti,
descobre-te em Portugal,
teu porto é de hoje e aqui.

Velhas profecias,
meu 29 de Agosto.
Meu queijo de figo,
sueste agreste,
sol posto.
Meu Infante
navegante.
Cheiro a sardinha
no rosto.

Cidade, eu te escuto
tu me acolhes,
tu me afagas.
Regaço de mãe,
doce carícia de algas.
Varanda de sol a sul.
Gente firme não se cala.

Que o sonho se faça
pouco a pouco,
passo a passo.
Que a tristeza afogue na largueza dum abraço.
Que a alegria canse
este cansaço.
É hoje que a gente
vai dizer como é que quer,
seja o bicho homem
ou o bicho seja mulher.
E que venha por bem
quem vier.

Letra e música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias / Trupe Barlaventina (in CD “Lendas do País do Sul “, Concertante, 1999; CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Era um rei

[ Fado das Amendoeiras ]

Era um rei
da terra que cheira a luar
da terra vermelha que tem a centelha
do cheiro do mar.

Terra amendoeira
terraço a sangrar
albufeira dos barcos que pescam
com a lamparina da luz a piscar.
Era um rei que vivia na terra
deitado no mar.

Era um rei
que foi da Moirama lutar
à terra da neve que tem o silêncio
que faz sufocar.

País da princesa
que no seu tear
inventava a lenda da renda
nos olhos de amêndoa do amor por chegar.
Da princesa bordando tristeza
na orla do mar.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul
Do Algarve que roda como um girassol.
VÁ DE BRAÇOS VÁ À PESCA!
NÃO QUEREMOS BRAÇO MOLE!
À aguardente chamamos um figo
à verdade chamamos Aleixo
que ainda é mais doce que um D. Rodrigo.
NÃO O MATAM QUE EU NÃO DEIXO!
O ALEIXO É MEU AMIGO!

É o povo
da maré que cheira a suor
e quer o rei queira ou não queira
resiste num mar que é maior.

O mar da traineira, mar do pescador
este mar amar desta maneira
que é a força primeira
do mar por amor
este mar que morre na esteira
de aquém e além dor.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul

Letra: Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Um Homem no País”, Polygram, 1983)

Praia da Rocha, guitarra

[ Fado de Portimão ]

Praia da Rocha, guitarra
Doirada que o mar dedilha
Ferragudo e a maravilha
Do castelo junto à barra

Mas quer chova ou faça sol
Quer o mar deixe ou não deixe
A cidade é um anzol

Portimão sonha com peixe
Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Ah! Se o luar não vier
Às redes de Portimão
Luar de peixe a morrer
Antes do fim do Verão.

“Vá fome”
Diz Zé Fataça
Que outrora foi pescador
E é agora engraxador
Junto ao coreto da praça

Então a fome é verdade
E alguns vão buscar seu pão
A mil léguas do Arade
E do cais de Portimão.

Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Vai com trote certo

[ Carrinha Antiga ]

Vai com trote certo
Esse cavalinho
Todo empenachado
E o boleeiro esperto
Faz do seu caminho
Seu baile mandado.

Lá vai a carrinha
A carrinha antiga
Com seu toldo armado.
Uma sombra amiga
A sombra fresquinha
Sob um sol doirado

Leva os estrangeiros
Muito prazenteiros
Que vão passear.
Ver a Rocha e o mar
Mar das caravelas
Que inda é mar das velas.

E a carrinha lesta
Do Algarve florido
É folha que resta
De um romance lido
De um conto feliz
De Júlio Dinis.

Letra: José Galvão Balsa
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão* (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

0 comentários

Deixe um comentário

Quer participar?
Deixe a sua opinião!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *