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A CANÇÃO DE PORTUGAL
 
 
O CANTO DA PAIXÃO NOS SÉCULOS XVI E XVII
A SINGULARIDADE PORTUGUESA
O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII: A Singularidade Portuguesa, de José Maria Pedrosa Cardoso. Prefácio de Ruy Vieira Nery. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. 2006.
José Maria Pedrosa Cardoso
O Canto da Paixão
NOTA PRÉVIA

O conteúdo deste livro é o resultado essencial da investigação que levou a uma tese apresentada como prova de doutoramento na Universidade de Coimbra em Outubro de 1998. Sendo forçoso reduzir quantitativamente a informação ali consignada, foram eliminados todos os dados referentes aos séculos posteriores ao período constante do título, adiando-se a publicação e actualização dos dados já encontrados e constantes do trabalho original.

A todos os leitores, mas especialmente aos curiosos e estudiosos apresenta-se, pois, uma espécie de música sacra portuguesa até agora praticamente desconhecida: a música litúrgica da Paixão na sua dimensão mono e polifónica dos séculos XVI e XVII. Sabia-se já da existência de quatro passionários portugueses impressos no período maneirista e barroco, mas ignorava-se por completo a sua singularidade frente a espécies congéneres no resto da Europa cristã, desconhecendo-se de todo a sua relação com as formas polifónicas elaboradas na sua base pelos maiores representantes da polifonia clássica em Portugal. Quer se trate ou não de uma originalidade inteiramente portuguesa, o certo é que o canto da paixão na liturgia da Semana Santa foi especialmente enfatizado ao longo dos séculos, a julgar pela abundância e qualidade das sub-espécies que então se cultivaram, tais como o Texto a 4, os Bradados integrais ou simplesmente as Turbas e ainda os Versos a 3 da Paixão, de que sobressaem, pela sua raridade, os Ditos de Cristo.

O facto de aparcerem como cerne deste trabalho os passionários polifónicos de Guimarães e Coimbra, produzidos no Mosteiro de Santa Cruz, não diminui, antes sublinha, a importância do seu modelo mono-polifónico no resto das igrejas do país e, pode-se já acrescentar, nos povos evangelizados pelos portugueses. Efectivamente aquele Mosteiro de Cónegos Regrantes terá sido o primeiro centro onde se utilizou o estilo polifónico na celebração da Paixão. Todavia os compositores que apresentaram polifonia sobre estas formas fizeram-no sobre um cantus firmus já então consagrado na Capela Real e provavelmente, mercê das edições sucessivas, generalizado nas igrejas de Portugal. Por outro lado, a influência daquele mosteiro crúzio nas restantes instituições religiosas também neste domínio se fez sentir. Na verdade ante o panorama histórico-religioso de Portugal, o símbolo da cruz parece uma constante ao longo do tempos, justificando-se assim a importância verificada na música da paixão, não apenas nos mosteiros e na Congregação de Santa Cruz, mas também em todas as instâncias religiosas.

O conhecimento e divulgação desta música aparece, pois, com interesse acrescentado na cultura e música portuguesa. Para além da informação musicológica, cujo atraso nada pode justificar, se este trabalho ajudar a descobrir mais um traço da identidade cultural portuguesa, todos os esforços serão suficientemente compensados.

 
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