Neste porto manso eterno onde descanso
porque me fica aqui o peito e o sentido
com aquela água imensa navegando,
este rio, ao passar, fala comigo
e parece murmurar-se quente e brando
como o mundo é mais sereno em Porto antigo.
O velho Douro é como um hino à natureza
escorrendo entre os dedos da montanha
ao sol que o faz vibrar e pressentir
mostrando a história em socalcos vinhateiros
nos solares de baronetes e herdeiros
com brasões verdadeiros ou a fingir
Dos barcos que se cruzam indo e vindo
alguém levanta a mão saudando ao longe
como um monge pagão fugido à norma.
O próprio rio me esmaga e me transforma,
o casario dá impressão que vai cair
e eu sei que vou chorar quando partir.
Sei que o tempo ali parou naquele cais
e não quero saber de mais informação
que a que me traz com majestade o Douro amigo.
Eu quero ficar ali para sempre, ali contigo,
olhos nas margens do sentir, a mão na mão.
Ai, como o mundo é mais sereno em Porto Antigo.
Cinfães, 2003