Nasci em terras de xisto
à beira do rio Ceira
em lugar de balsa sem porto
numa serra onde o Açor pousou,
em leito de feno dormi.
Cresci na terra de sargaço
correndo em lameiros verdejantes,
ouvi o sopro dos ventos
junto ao correr das levadas
vi noites sem luar.
Ouvi histórias de bruxaria
lendas de lobisomens,
almocreves e mouras encantadas
vi sementeiras e colheitas,
as malhas e debulhas.
Saltei fogueiras de rosmaninho,
acendi o madeiro de Natal,
cantei janeiras pelo povoado,
cheirei alecrim e loureiro,
bebi chá de sabugueiro.
Nadei nas águas do Alva
na ponte que tem três entradas
em Avô, terra de poetas,
cantei baladas ao luar
até o galo cantar.
Que importa ser acordado
dos sonhos desta noite
pela coruja que é a "surga"
ou pelo sino da capela?
Tudo isto existe, tudo isto é belo,
nada mudou, tudo está como era dantes...