compositor João Pedro Oliveira

ENTREVISTA

 João Pedro Oliveira, compositor, nasceu em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1959. Estudou órgão, composição e arquitetura em Lisboa. Doutorou-se em Música (Composição) na Universidade de New York em Stony Brook. As suas obras incluem uma ópera de câmara, um Requiem, várias obras orquestrais, três quartetos de cordas, música de câmara, música para instrumento solo, música electroacústica e vídeo experimental. Recebeu mais de 50 prémios internacionais pelas suas obras, incluindo três prémios no Concurso de Música Electroacústica de Bourges, bem como o prestigiado Magisterium no mesmo concurso, o Prémio Giga-Hertz, o 1º Prémio no concurso de música electroacústica Metamorphoses, o 1º Prémio na Yamaha-Visiones Sonoras Competition, duas vezes o 1º Prémio na Musica Nova Competition, etc.. É Professor Titular na Universidade Federal de Minas Gerais e Professor Catedrático na Universidade de Aveiro. Tem igualmente publicado diversos artigos em revistas nacionais e internacionais, e escreveu um livro sobre teoria analítica da música do século XX. As suas obras são tocadas no mundo inteiro.

Como começou a sua descoberta da arte dos sons?

Formalmente comecei a estudar piano aos 13 anos, mas antes já me interessava por música. Os meus pais tocavam piano e tinham uma coleção interessante de discos clássicos que eu escutava com frequência. Mozart, Beethoven e Stravinsky são aqueles que me lembro com mais clareza.

Quando comecei a estudar música formalmente, o meu propósito principal era pertencer a um conjunto de rock experimental, um dia vir a comprar um sintetizador e poder utilizá-lo para experiências sonoras. Nessa altura um sintetizador MiniMoog custava mais ou menos o equivalente a meio ano do salário do meu pai, então esse desejo não pôde ser concretizado nessa altura da minha vida.

À medida que fui progredindo no estudo do piano e posteriormente quando descobri a literatura para o órgão, os meus caminhos orientaram-se na direção dos compositores clássicos e contemporâneos, se bem que o meu fascínio pela manipulação e pela síntese sonora viria a retornar quando fiz os meus estudos nos USA.

Qual foi o seu primeiro instrumento?

 Antes de iniciar os estudos formais, experimentava com uma flauta de bisel que o meu pai me deu, tentando tocar de ouvido melodias do repertório clássico. Posteriormente comecei os estudos no piano, e seguidamente no órgão.

Como começou a ligação ao órgão?

Foi essencialmente com a escuta dos clássicos e estudo de algumas partituras, especialmente de Bach. O fascínio pelo instrumento veio desde muito cedo, e o estudo do piano foi um caminho obrigatório para depois me dedicar ao órgão.

Quando era criança, já tinha tendência para o experimentalismo e o exploratório?

Sim, ainda mesmo antes de estudar música formalmente eu fazia muitas experiências sonoras, usando um gira-discos muito rudimentar que era do meu irmão, e que tinha o prato livre. Então eu podia tocar os discos “ao contrário”, acelerá-los progressivamente, tocar muito lento, etc. quase como um “DJ dos anos 60”. Nessa altura ficava fascinado com os resultados que podia obter com essas experiências, creio que já era uma antecipação do meu fascínio pela electrónica.

Que música ouvia na sua juventude?

Quando mais jovem (11 a 15 anos), escutava essencialmente rock progressivo dos anos 70 (Yes, Gentle Giant, Genesis, Emmerson Lake and Palmer, etc.). Depois, interessei-me pelo jazz e finalmente, quando já estava a estudar música, escutei essencialmente os clássicos (Beethoven, Bach, Mozart, Stravinsky). Pouco a pouco, com o passar do tempo, avancei para a música contemporânea.

Quando começou a notar a sua faceta de compositor?

Inicialmente fiz algumas experiências muito ingénuas, ao mesmo tempo que estudava piano, teria uns 14-15 anos. Foi pouco a pouco, com a descoberta da música do Séc. XX, através dos Encontros de Música Contemporânea de Lisboa e outros concertos, bem como a leitura de diversos livros sobre o assunto, que comecei a ter mais sensibilidade para a composição. A escuta de obras como Gesang der Junglinge, Kontakte e até mesmo o In C, nessa altura foram fundamentais na minha aprendizagem e no meu desejo de vir a ser um compositor. Com os estudos de órgão, a obra do Messiaen também me incentivou bastante (aliás as minhas primeiras obras são muito influenciadas por este compositor). Então, pouco a pouco fui conjugando o gosto de tocar órgão com um interesse cada vez maior pela atividade de compositor, que se viria a estabelecer como propósito profissional principal, quando tomei a decisão de ir estudar nos USA.

Estudou Órgão e Composição no Instituto Gregoriano de Lisboa e foi organista até 2002. Que motivos o seduziram na composição e na música eletroacústica para abdicar dos concertos?

Foi uma decisão difícil, uma vez que ambas as atividades me traziam satisfação. No entanto, à medida que a idade avançava, a energia necessária para realizar as duas atividades simultaneamente foi diminuindo, pelo que tive que decidir a qual delas me iria dedicar no futuro. Obviamente que existe uma empatia muito forte entre a composição e o meu mundo criativo, pelo que a decisão tomada seguiu nesse rumo. No entanto, quando realizava concertos, a alternância entre o tocar e o compor era muito estimulante para a criatividade. Certos problemas e soluções relacionados com composição tornavam-se mais claros ao estar em contato direto com a música, através do ato de tocar. E muitas vezes, soluções propostas pelos compositores que eu tocava (clássicos e contemporâneos), serviam de modelo ou estímulo para as minhas próprias obras

Qual foi na sua opinião o contributo pedagógico do IGL para a evolução do ensino da música em Portugal?

Sem dúvida, foi muito relevante. O ensino do órgão e também do canto gregoriano foram o seu ex-libris durante os anos em que lá estudei. Pelo facto de ser uma instituição independente do Conservatório Nacional, o seu currículo escolar era muito variado e com muitas disciplinas que foram de grande importância para o desenvolvimento do meu percurso e também da aprendizagem da música em Portugal.

Foi aluno de Antoine Sibertin-Blanc em órgão. Que ensinamentos colheu do mestre?

Num ambiente cultural em que a música contemporânea tinha uma atenção reduzida (ou mesmo inexistente) nas escolas de música e conservatórios, Sibertin-Blanc sempre primou por divulgar as obras do séc. XX e estimular os seus alunos a tocá-las, lado a lado com os clássicos do repertório organístico. Hoje em dia, com frequência recordo conceitos, conversas, exemplos, aprendidos ou discutidos com este professor, e que ainda me servem de modelos e estimulam ideias no dia-a-dia da minha vida musical. O seu ensino foi, não somente sobre o órgão, mas também sobre a composição, o som e a sensibilidade artística.

Quem foram os seus professores no IGL?

De todos os professores que tive destaco, para além do Sibertin-Blanc, a minha professora de piano Margarida Duarte d’Almeida, a professora Júlia d’Almendra, e o Christopher Bochmann. Infelizmente, no ano em que iria começar as aulas com o maestro Frederico de Freitas, ele faleceu.

Dos professores que lecionavam no IGL, quem o impressionava especialmente nessa altura?

Frederico de Freitas, sem dúvida.

Que professores foram mais marcantes na sua vida artística?

Tive diversos professores e compositores que me ajudaram no meu percurso e a quem devo muito da minha aprendizagem inicial. Os seminários com o Emmanuel Nunes na Gulbenkian foram importantes, o Christopher Bochmann ensinou-me os princípios básicos das técnicas de composição do séc. XX, fiz vários cursos, seminários, etc..

No entanto, olhando retrospectivamente para o meu percurso, tenho que pôr em primeiro lugar os estudos de órgão com o professor Sibertin-Blanc, conforme referi anteriormente.

Posteriormente, quando fiz os meus estudos nos USA, recebi um grande impulso, que me levou a uma melhor compreensão das técnicas de composição e suas implicações estéticas. Tive a sorte de ter como professor Bulent Arel, um dos pioneiros da música electrónica dos estúdios de Columbia-Princeton e que nessa altura ensinava em Stony Brook. Os estudos realizados com ele durante o mestrado e doutoramento, quer na área da composição, quer da música electrónica, constituíram a formação avançada no meu percurso.

Aos 20 anos estava num dilema entre arquitetura e música e optou pela música… Foi então que tomou consciência de que a música seria a sua profissão?

Sim. Tomei essa decisão por vários motivos. Senti alguma desilusão relativamente ao que eu esperava da aprendizagem da arquitetura e a realidade com a qual fui confrontado na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. O meu pensamento criativo talvez se orientasse mais para o design, ou para a pintura, do que a arquitetura, e essa tendência talvez se tenha revelado posteriormente em 2013, altura em que comecei a fazer vídeo experimental. Por outro lado o meu fascínio pela composição já tinha amadurecido suficientemente para me ajudar a tomar essa decisão, que foi tomada de forma bastante solitária, uma vez que os meus pais nessa altura não me apoiaram (obviamente, mais tarde compreenderam que esta decisão foi a correta).

Se não tivesse fosse músico, sente que também podia ter sido um arquiteto famoso?

Não sei. Alguém que tenha um pensamento criativo e estimule a sua imaginação de formas diferentes, sem se submeter ao conformismo, geralmente consegue encontrar ideias com interesse. Possivelmente, se tivesse aplicado o meu potencial imaginativo na arquitetura, talvez tivesse conseguido descobrir soluções válidas.

No início da sua carreira teve algumas ligações às semanas gregorianas…

Sim, já as frequentava quando estudante, eram experiências muito positivas, e posteriormente participei regularmente durante alguns anos, dando concertos de órgão.

Os compositores portugueses devem ser mais proativos relativamente à participação em fóruns, concursos e festivais?

Cada compositor tem a sua forma de promover o seu trabalho. Eu escolhi a academia e a participação em concursos/festivais/congressos como o meio ideal de dar a conhecer aos outros o meu trabalho.

Além de compositor, é também Professor Catedrático na Universidade de Aveiro, onde lecciona Composição e Música Electrónica. Lecionar e compor enriquecem-se mutuamente?

Neste momento não leciono na Universidade de Aveiro. Desde 2011 que sou professor Titular na Universidade Federal de Minas Gerais no Brasil, onde resido. A partir de 2020 deverei retomar o cargo de professor na Universidade de Aveiro. Creio que o ensino junto com a composição é fundamental para o percurso do compositor. Muitas vezes ideias que vêm dos alunos revestem-se de tal interesse que podem ser motivo para um renovação do pensamento do professor/compositor.

Na sua perspetiva, o que é ser professor de Composição?

Um compositor não difere muito do cientista, do físico, ou do matemático.  A sua atividade consiste em “resolver problemas”. Podem ser problemas de construção formal, harmónica, tímbrica, frásica, gestual, etc.. Sendo assim, o papel do professor é ensinar o aluno a resolver esses problemas e a conseguir fazê-lo de forma independente, sem estar subordinado aos comentários ou à opinião de outra pessoa. Para além disso, a autocrítica, o distanciamento em relação ao próprio trabalho, e compreensão do momento histórico em que vivemos, são ferramentas indispensáveis para a composição e devem ser transmitidas pelo professor.

O que pensa da evolução do ensino da música em Portugal?

Quando eu estudava, havia sérias limitações no ensino da música. A falta de enquadramento dos graus em música no sistema de ensino superior académico e universitário era um problema bastante complexo. Havia excelentes compositores e professores no nosso país, mas muitas vezes o esquema curricular das instituições não permitia que o aluno usufruísse de todas as capacidades de ensino destes professores, levando a que vários compositores, como é o meu caso, procurassem novos ambientes de aprendizagem no estrangeiro. Felizmente, com a criação dos cursos superiores de música nos politécnicos e nas universidades, esse panorama mudou e hoje em dia, qualquer aluno de composição poderá ter em Portugal um ensino tão bom, ou até melhor, em relação a qualquer grande universidade ou conservatório estrangeiro.

Como nascem geralmente as suas composições? A composição é para si um impulso? Está sempre ocupado com encomendas?

Não gosto muito de falar em “impulso” ou “inspiração” no sentido tradicional novecentista da palavra. Uma obra pode ser motivada por um texto, uma imagem, um espaço, um som, etc.. Mas na sua essência, o pensamento criativo é demasiado complexo para ser limitado a essa ideia de surgimento “do nada”. Machado de Assis escreveu um conto onde esse assunto é magistralmente explicado: O Cônego ou Metafísica do Estilo. Transcrevo aqui um excerto que me parece elucidativo de uma possível representação literária do interior da mente, no momento da busca do impulso criativo: “Vasto mundo incógnito […] embriões e ruínas. Grupos de idéias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências […] Outras idéias, grávidas de idéias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras idéias virgens. Cousas e homens amalgamam-se […] farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura.”

Então essas reminiscências, embriões, ruínas, sensações, de que fala Assis representam de certa forma o material que temos à disposição, quando da nossa busca interna por uma ideia musical. Talvez tudo já tenha sido feito e as nossas memórias (individuais e coletivas) nos aportem reminiscências desse todo que, como diz Assis, é amálgama da nossa vivência passada e presente. Elas vão-se fundindo e transformando em imagens, sons, sensações, que se irão materializar naquele momento em que surge o “eureka”, ou se concretiza outra forma de pensamento criativo. Mas isto é apenas o início. Depois há que descobrir como dar forma a essa ideia, como a situar e como a apresentar. Tudo isso faz parte de um processo dialético que é construído pelo compositor: escreve, avalia, corrige, completa, volta a escrever, volta a corrigir, etc.. Então, raciocínio, impulso, inspiração, intuição, busca, materialização, etc. não são entidades separadas que lutam ou que se opõem na construção do pensamento criativo. Fazem parte de um todo muito complexo, que é uma dádiva única de todos os criadores.

A questão das encomendas (pagas) já teve mais importância na minha vida. Hoje dou mais valor  a um projeto que vai divulgar o meu trabalho, mesmo que não seja pago, do que uma encomenda de grande porte que eventualmente só é tocada uma ou duas vezes. Claro que aceito todas as encomendas que me interessarem, independentemente do âmbito que tenham, desde que sinta que vão contribuir para o meu crescimento.

Nos anos 80 compôs “A cidade eterna”, “Patmos”, “Sete visões do Apocalipse”, “Psalmus e Pneuma Agion”. Qual a influência da Bíblia e da tradição cristã na sua obra?

A Bíblia tem servido de inspiração para uma percentagem substancial das minhas obras. Obras como Espiral de Luz (para quarteto de cordas, de 2005), o ciclo de obras acusmáticas baseadas nas representações dos quatro elementos (fogo, terra, água, ar) no Antigo Testamento (Et Ignis Involvens, ‘Âphâr, Hydatos e Neshamah) têm como inspiração versículos específicos do Antigo Testamento. Tenho também um ciclo de obras baseadas na ideia de “revelação” (equivalente à palavra “apocalipse” do grego), que são baseadas em diversas profecias e outros textos que se relacionam com este livro do Novo Testamento.

É um homem de fé?

Sim. Considero-me um cristão ecuménico, embora a minha formação espiritual derive da tradição protestante.

A maioria das suas obras são música mista, com instrumentos e eletrónica. Que fatores contribuíram para isso?

São vários. Antes de 1998 eu separava as obras instrumentais das electrónicas, ou seja não fazia obras mistas. Em 1998 quando compus a obra Le Voyage des Sons, experimentei com um tipo de interação entre sons instrumentais e sons electrónicos, que me estimulou muito e que viria a ser a base de grande parte das minhas composições posteriores. Depois seguiram-se A Escada Estreita (para flauta e electrónica, de 1999), Íris (para violino, violoncelo, clarinete, piano e electrónica de 2000) e In Tempore (para piano e electrónica, também de 2000). Nestas três obras pude consolidar a técnica de interação iniciada em Le Voyage des Sons, e que ainda uso hoje em dia. Nesse tipo de interação descobri que poderia criar uma identidade musical muito própria que me distinguisse dos outros compositores, pelo que tentei explorar ao máximo as potencialidades de interação na música mista. Além disso, o trabalho com tecnologia entusiasma-me, pelo que a escrita de uma obra mista é um desafio muito estimulante.

Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, o que lhe possibilitou fazer o mestrado em Teoria Musical e o doutoramento em Composição na Universidade de Nova Iorque – Stony Brook. Que contributo musical deu a Gulbenkian para a evolução musical nas últimas décadas em Portugal?

A Gulbenkian, no campo do ensino, de certa forma supriu uma lacuna no meio português, que deveria ter sido responsabilidade do próprio Estado. Era a instituição mais acessível para a obtenção de bolsas de estudo, e foi através desses apoios que muitos compositores puderam fazer o seu percurso no estrangeiro. Para além disso, os extintos Encontros de Música Contemporânea trouxeram a Portugal durante quase 30 anos, novas perspectivas sobre a produção musical dos nossos dias, que nunca teria sido possível  escutar de outra forma.

Quais lhe parecem as maiores dificuldades e vantagens que se colocam hoje aos compositores portugueses na atualidade?

Acho que uma das maiores dificuldades que um compositor dos nossos dias tem, relaciona-se com a produção de concertos pelas agências promotoras multinacionais. Muita vezes, o trabalho de um compositor passa pelas relações públicas, pela insistência junto das entidades, etc.. Aqueles que o conseguem fazer, eventualmente poderão ter a possibilidade de entrar num circuito internacional de grandes produções. Outros, cujo feitio não se preste a isso terão que encontrar outras soluções para divulgar o seu trabalho.

Teve alguma deceção relevante na sua vida?

Muitas. Mas tento sempre aprender com elas.

Tem tempo para ouvir música?

Sim, tenho, mas não ouço muito. Como estou em contato com música maior parte do dia, aproveito os tempos livres para o silêncio ou outras atividades não musicais.

Qual das suas gravações foi mais marcante na sua carreira?

Não tenho uma especial. Cada uma delas representa um período do meu trabalho, e teve o seu valor nessa altura. Olhando retrospectivamente, todas foram marcantes.

Qual o papel do Estado na promoção da música e das artes em geral? A DGArtes e as Direções Regionais de Cultura têm desempenhado o papel que seria de esperar na música portuguesa?

Neste momento não tenho possibilidade de responder a essa pergunta. Como estou há cerca de 8 anos no Brasil, perdi o contato com estas instituições e não sei exatamente como tem sido a evolução do papel do Estado. De vez em quando recebo uma encomenda subsidiada pela DGArtes, pelo que parece que continua a apoiar alguns projetos.

Acha que a Igreja em Portugal valoriza o repertório sacro e o património edificado enquanto espaço privilegiado para a audição de música sacra?

É difícil generalizar essa resposta. Depende muito de denominações, de igreja para igreja e muitos outros fatores. O repertório sacro clássico, em geral parece-me ter sido sempre valorizado, mas de igual forma, creio que deveria haver abertura para as manifestações de música sacra contemporânea dentro do espaço das igrejas. Isso passa por uma compreensão do que é a criação artística nos nossos dias e como ela pode ter um papel fundamental na nossa aproximação ao Divino. Alguns dos trabalhos que tenho feito com música e imagem tentam essa aproximação de uma forma acessível ao público leigo em geral, ao mesmo tempo que introduzem “subliminarmente” as linguagens musicais mais contemporâneas.

Não se recorda certamente de todos os prémios que já recebeu. Que importância têm os prémios na carreira de um compositor?

Acima de tudo, é a satisfação de ver o nosso trabalho reconhecido pelos nossos pares. Mas também tem importância a divulgação nos meios de comunicação (quando eles se interessam pelo assunto, o que é raro), assim como o facto de vermos a obra transportada para o plano internacional e um número maior de pessoas ter acesso a ela.

O reconhecimento de um prémio, a estreia de uma obra em diferentes países, a gravação de um disco… Qual considera ter sido, até à data, o momento mais alto da sua carreira?

Tem vários momentos importantes. Ter recebido o Prémio Magisterium de Bourges ou o Prémio Giga-Hertz foram momentos muito importantes. Fora isso, diversas estreias ou execuções de obras que tiveram sucesso, foram marcando o meu percurso artístico.

Quais as estreias que mais o marcaram enquanto compositor?

Tem aquelas que marcaram pela positiva e outras pela negativa. Ver que o resultado que se esperava de uma obra foi atingido, ou mesmo superado, é um momento de grande alegria e agradecimento a Deus pela dádiva desse momento. Quando a estreia fica aquém das espectativas, está na altura de aprender, tentar saber o porquê, e seguir em frente com os próximos projetos.

Quais as qualidades essenciais para alguém se tornar grande compositor?

Autocrítica, paciência, imaginação. Estar em contato com a realidade musical dos nossos dias e compreendê-la sob o ponto de vista da sua inserção na História.

Pensando só na história da música em Portugal, quem é para si “o compositor”?

São dois: Frei Manuel Cardoso e Jorge Peixinho,

Tem um repertório predileto?

Vários. Por exemplo, grande parte do pensamento construtivo que uso no gesto e na frase musical, assim como o controle sobre tensão e relaxamento, vêm da minha análise e fascínio pelas obras de Beethoven e Brahms, especialmente as sinfonias e sonatas. As técnicas que utilizo para interagir os instrumentos acústicos com a electrónica (e que uso em quase todas as minhas obras mistas) derivam diretamente dos modelos propostos nas Sonatas para Violino e Piano de Beethoven. Para além disso a obra de Bach também é inspiradora. Também continuo a gostar de ouvir jazz, rock e música de outras culturas.

Há algum músico que gostaria especialmente que tocasse ou dirigisse uma obra sua?

Não particularmente. Creio que qualquer músico com um nível de profissionalismo elevado saberá dar soluções interessantes aos meus trabalhos.

O que é a música para a sua vida?

Tornou-se parte da vida, não somente por profissão, mas também por convicção. Faz parte dela da mesma forma que a espiritualidade, a vivência do presente e a minha relação com o mundo.

Quais os seus passatempos não musicais?

Gosto de cinema e de jogos.

Em três adjetivos, como se caracteriza a si mesmo?

Obstinado, introvertido, distraído.

[ Publicada a 07 de novembro de 2018 ]