MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
Siga-nosFacebookFacebookTwitterLinkedInTumblrFlickr
> Organoteca
PRINCIPAL
Registos
Registos
Registos
Registos

 

 

 

 

O REI DOS INSTRUMENTOS

O ÓRGÃO APRESENTADO ÀS CRIANÇAS

Para o Telmo, a música é um jogo que o obriga a treinar, mas dá-lhe grande satisfação. Dos instrumentos musicais, gosta especialmente do órgão de tubos, que tem teclas parecidas com as do piano e muitos tubos, grandes, médios e pequenos. A Juliana também gosta de cantar e tocar flauta de bisel. Um dia, o padrinho levou-a à igreja onde toca, a um lugar por cima da porta principal, chamado coro alto, para lhe mostrar o órgão e contar-lhe a sua história. Sentou-a no banco novo do órgão restaurado e disse-lhe:

- Vês, Juliana? Isto é um órgão de tubos. A fachada é o como que a cara do instrumento. O entalhe de madeira, junto aos tubos que se vêem e o coroamento, lá em cima, têm prata dourada, como quando ele foi construído, há muitos anos. Antes de ser restaurado, este órgão tinha sempre as portas fechadas e parecia apenas um armário de madeira. Isso acontece ainda com muitos outros... Há uns anos, entrei numa igreja, onde eu pensava que existia um órgão de tubos, para o fotografar. O padre preparava-se para celebrar a missa. Eu perguntei-lhe se, realmente, existia esse órgão. Ele respondeu:

- Há 50 anos, um órgão tocava nesta Igreja, mas deve ter desaparecido entretanto.

Ao sair, reparei num armário de madeira, no coro alto, e pensei:

- Cá para mim, aquele armário é especial.

Voltei mais tarde e pedi ao sacristão que me abrisse a porta do coro. Ele encontrou a chave, pesada e ferrugenta, e abriu-me a porta. As escadas eram estreitas, escuras. Subi com cuidado, para não pisar o cócó dos pássaros e uma pomba morta. Os degraus estavam cheios de penas e ovos partidos. Sabes o que encontrei, quando abri as portas daquele armário?

- Um órgão!

- Pois foi. Fiquei encantado com os entalhes dourados, os conjuntos de tubos da fachada e os desenhos de plantas, pássaros e anjos músicos...

- Também há anjos músicos, padrinho? - estranhou a Juliana.

- Não sei se a música do céu é igual à da terra. Mas se a música é uma coisa tão linda que Deus nos oferece, se nós dizemos o nosso amor a cantar, então é verdade que no céu há música. E da melhor! E também há anjos músicos...

A Juliana achou curiosa a resposta, e continuou, como se estivesse a fazer uma entrevista.

- Há muitos órgãos destes?

- Em Portugal, há muitos órgãos, antigos e modernos, grandes e pequenos, de Norte a Sul, feitos cá e no estrangeiro. Porto, Braga, Lisboa, os Açores têm muitos órgãos. Mas, na grande maioria, os órgãos estão velhos e estragados.

- Porque é que isso acontece?

- Houve uma época em que as pessoas não davam importância ao órgão, havia poucos organistas... Imagina que até lhes retiravam os tubos e outras peças. Além disso, restaurar um órgão fica caro. Ter em casa o rei dos instrumentos tem os seus custos...

- O órgão é o rei dos instrumentos? - interrogou a Juliana.

- Pelo menos, Mozart achava que sim... O órgão é um instrumento original, generoso, servido por muitos mecanismos diferentes. É rico, muitas vezes forrado a ouro ou prata dourada. É forte, mas sensível também. Existe nas igrejas e salas de concerto importantes, mas sente-se feliz em tocar para os pobres, que não podem pagar para ir a concertos. Além disso, sabes que a flauta é pequena, a pandeireta é pequena, os ferrinhos são pequenos, mesmo o piano é relativamente pequeno. O órgão é grande!

- Mas alguns são pequenos ...

- São como as pessoas, não têm todos a mesma altura... Há órgãos muitíssimo grandes, outros médios e outros pequenos.

- Como é que o órgão funciona? - quis saber a menina.

- Estás em frente do teclado. Carrega numa tecla à esquerda ou à direita. Sai algum som?

- Não.

- Então eu vou ligar o ventilador e tu vais tocar novamente... Já sai algum som?

- Ainda não... - respondeu a Juliana.

- Pois não! Mas agora eu vou puxar uma destas peças redondas de madeira, chamadas manúbrios, do lado esquerdo e do lado direito e verás que o órgão toca.

A Juliana tentou tocar os "Parabéns" e, desta vez, saiu um som muito doce.

O Telmo continuou a explicar as partes do órgão:

- Assim como nos automóveis há um painel que permite conduzir o carro, também no órgão há um painel de controlo que se chama consola. É a parte do instrumento que fica junto do organista. Nela, o organista comanda o teclado, puxa ou empurra estes botõezinhos de madeira, do lado esquerdo e do lado direito, quando quer escolher certas filas de tubos do mesmo estilo, que se chamam registos. Os dois pedais, aos teus pés, em forma de estribo, também chamados pisantes, ligam os sons cheios e estridentes do órgão. São uma espécie de puxadores para os pés. Sem tirarmos as mãos do teclado, podemos, assim, mudar o tipo de som. Além disso, alguns organeiros, como Machado e Cerveira, deixavam o seu nome e número de obra nos seus órgãos. Nesta estante nova, o organista coloca as músicas; e, através do espelho vê as indicações do director do coro e a assembleia.

- Dantes, havia velas aqui... - observou a menina.

- Antes de haver electricidade, os órgãos tinham castiçais para colocar velas. Mas o fumo é prejudicial, escurece as pinturas e há sempre algum risco de incêndio. Hoje, utiliza-se uma lâmpada eléctrica.

- Este teclado é mais pequeno que o do piano, não é?

- Sim, é um pouco mais pequeno. Conta as notas, brancas e pretas.

A Juliana contou as teclas todas, as claras, mais longas e largas, e as escuras, mais curtas e estreitas - que se encontram sempre entre o Dó e o Ré, o Ré e o Mi, o Fá e o Sol, o Sol e o Lá, o Lá e o Si.

- São 53...

- É um número de notas muito comum entre órgãos deste género. Este só tem um teclado manual, que é tocado com as mãos... claro. Como acontece, em geral, nos órgãos ibéricos, este não tem pedaleira, que é um teclado para os pés. À medida que se avança, da direita para a esquerda, vai diminuindo o comprimento dos tubos correspondentes. É claro que número de teclados do órgão de tubos pode variar, entre um e cinco. Nos Estados Unidos da América há um órgão monumental com 7 teclados manuais, duas pedaleiras e 33000 tubos.

- Quantos tubos tem este órgão? - perguntou a Juliana, admirada com aquele número de tubos.

- Tem 594. Destes tubos, 275 correspondem ao lado esquerdo e 319 ao lado direito. Neste órgão, como em muitos órgãos portugueses antigos, puxadores do lado esquerdo abrem tubos correspondentes às 25 notas do lado esquerdo, mais graves; e os do lado direito abrem os grupos de tubos correspondentes ao lado direito do teclado. Os registos que têm o nome de Fagote, Quinzena, Flautado de 6 tapado e Flautado de 12 tapado, para a mão esquerda, e Clarim, Flauta de 6, Flauta de 12 e Flautado de 12 aberto, para a mão direita, são registos simples, pois a cada nota corresponde um tubo. Vintedozena composta, Dezanovena composta, do lado esquerdo, e Corneta de 4 filas e Oitava Real composta, à direita, são registos compostos, pois a cada tecla corresponde mais do que um tubo. Por exemplo, quando abro o registo Vintedozena Composta, nome que vês escrito à esquerda, abro três filas de tubos do lado esquerdo, o mesmo acontecendo com a Dezanovena composta. Se eu tocar uma nota da parte esquerda do teclado, por cada um destes registos que abro, faço tocar três tubos ao mesmo tempo. Do lado direito, quando eu abro o Cheio, que tem 3 filas de tubos, ao carregar numa das 29 teclas do lado direito, tocam três tubos. Mas repara que, do lado direito, há um puxador cuja etiqueta diz Corneta de 4 filas. Isso quer dizer que, quando eu toco uma das 29 notas do lado direito, tocam logo 4 tubos ao mesmo tempo. Percebeste?

- Alguns nomes são complicados...- respondeu a Juliana.

- Isso tem a ver com o som e com a forma como o ar entra nos tubos e os faz tocar. Claro que os nomes não são iguais nos órgãos feitos na Alemanha, na Itália, na Holanda ou em Portugal. Mas o importante são os órgãos e mão os nomes das peças ou dos registos.

Fez-se um silêncio. A Juliana olhou para cima e quis ainda saber:

- Para que serve esta renda dourada, junto aos tubos da frente?

- Como as pessoas, que se apresentam bonitas, sobretudo em momentos e lugares importantes, os órgãos também têm a sua vaidade. Na fachada, têm uma série de tubos, dispostos de modo agradável. Em certos casos, são um bocadinho falsos, porque alguns tubos (ou todos) são apenas para enfeitar. Mas, escondidos nas caixa, há centenas de tubos, de materiais e tamanhos diferentes.

- De que são feitos aqueles tubos? - perguntou a Juliana, apontando para a fachada.

- Os que estás a ver são de metal, uma mistura de estanho e chumbo. Dentro da caixa, há diferentes tipos: uns são inteiriços, flautados, como as flautas de bisel; os tubos de palheta, como certas gaitas de brincar que se vendiam nas feiras quando eu era miúdo, ou um instrumento chamado clarinete, têm várias partes.

O Telmo abriu a porta lateral esquerda.

- Que vês ali? - perguntou.

- Tubos de madeira e tubos de metal.

- Os maiores tubos são de madeira, em forma quadrangular, por ser mais fácil a construção. Há tubos de madeiras variadas: carvalho, abeto, mogno, nogueira, pereira... Os que estás a ver, mesmo os de metal, são tapados, para produzirem sons uma oitava mais abaixo. Sabes o que é um intervalo de oitava... É entre o Dó central e o Dó mais próximo à sua esquerda, por exemplo... Fechados na extremidade, os tubos comportam-se como se tivessem o dobro do comprimento do mesmo tubo aberto. Isso poupa espaço e dinheiro... Os tubos têm formas diversas, imitando instrumentos diversos, como trompete, clarinete, fagote e oboé. O tamanho pode variar entre os 10 metros e 1 centímetro, do som mais grave para o mais agudo.

- Mas aqui não há nenhum tubo desse tamanho...

- Pois não. Os órgãos que têm muitos tubos, desde muito grandes até muito pequeninos, chamam-se grandes órgãos. Este é um órgão médio/pequeno, chamado positivo.

- E dentro, o que é que existe, além dos tubos?

- Dentro deste órgão de tubos, há uma parte chamada someiro, escondido e importante como o nosso coração. É uma caixa rectangular, toda em madeira de mogno e pinho fino, fechada, escondida dentro das paredes do órgão. Nele assentam os tubos. Tem uma série de válvulas, ligadas às teclas através de varetas. Quando se carrega numa tecla, abre-se uma válvula, o que permite a passagem do ar da caixa de vento para o tubo. É essa corrente de ar que provoca determinado som. O comprimento do someiro é proporcional ao número de teclas e ao tamanho dos tubos. O coração e os pulmões das crianças são pequeninos; o coração e os pulmões dos adultos são maiores: se o órgão de tubos é pequeno, o someiro é pequeno; se for grande, o someiro terá de ser grande também.

- É o someiro que faz com que o órgão toque?

- Tu sabes, Juliana, que todos os membros do nosso corpo são importantes, embora uns sejam mais importantes que os outros. Se o someiro estiver bom, mas se não houver ninguém que lhe mande ar, ou se não houver tubos, o órgão não toca. Tem de haver um fole, de madeira e pele de carneiro, que envia o ar para os tubos através de uns canais largos até chegar às gravuras e, depois, ao pé de cada tubo. O ar pode ser produzido por uma pessoa, através da alavanca que vês do teu lado direito, ou por um motor eléctrico que aqui foi colocado para não dar trabalho às pessoas. Se não houver fole, ou se ele estiver roto, como acontecia antes do restauro, também não conseguimos tocar.

- Mas se estas peças à direita e à esquerda não estiveram para fora, o órgão não toca...

- Pois não. Quando eu puxo cada um dos manúbrios, dentro da caixa uma peça em ferro chamada molinete roda e desloca uma régua de madeira com buraquinhos, chamada "corrediça", no someiro. Quando os buracos da régua coincidem com os do someiro, o ar passa. Por exemplo, quando se puxa o manúbrio do registo Fagote, à esquerda, disponibilizo os tubos dessa fila para tocarem quando eu carregar numa tecla, na metade esquerda do teclado. Quando puxo o manúbrio onde está escrito Clarim, do lado direito, fico com a possibilidade de tocar uma outra fila de tubos, na metade direita do teclado. Posso conjugar, é claro, mais do que um registo, isto é, com mais do que uma fila de tubos.

- Sabes quem inventou o órgão? - perguntou a Juliana.

- Não se sabe muito bem. Diz-se que foi um homem chamado Ctesíbio, na Grécia, há 2300 anos. Nessa altura, não tinha mais do que 7 teclas para 7 tubos. Muitos milhares de anos antes, alguém deve ter soprado, por acaso, numa cana. Fez vibrar o ar lá dentro, e dela saiu um som doce e agradável. As pessoas foram experimentando canas de tamanhos diferentes e viram que as maiores produziam sons mais graves, mais parecidos com as vozes masculinas, enquanto as canas mais pequeninas se aproximavam das vozes das senhoras. Foram juntando vários tubos até aparecer um pequeno instrumento de sopro chamado flauta de Pan. Há quem diga que aí nasceu o órgão de tubos.

- O órgão mudou muito nestes anos todos... - pensou a Juliana em voz alta.

- Sim. O órgão foi-se transformando, como as pessoas. No princípio, tinha poucas teclas, que eram grandes e pouco práticas, tocadas com as mãos e não com os dedos. Tinha uma fila de tubos apenas. Durante muito tempo, não era admitido nas igrejas. Tocava nos circos romanos e animava as festas nos palácios. Por ter um som forte, chamava a atenção e servia para apresentar o imperador nas suas aparições em público. No século XII, apareceram órgãos portáteis: uns apoiavam-se no colo; outros, no pescoço. Eram usados, muitas vezes, em procissões. A mão direita tocava e a esquerda dava ao fole. Outras vezes, havia um ajudante para dar ao fole, ficando disponíveis ambas as mãos do organista para tocar. Certos órgãos eram colocados em cima de uma mesa. Até ao século XIII, o órgão manteve-se rudimentar. Mas foram surgindo alguns melhoramentos, como a pedaleira e novos sons. O tamanho das teclas foi diminuindo e tornou-se mais prático. Na Alemanha, apareceu, em 1361, um órgão com três teclados manuais e pedaleira, sendo necessários 10 homens para dar ao fole!

O órgão foi-se adornando com imagens, inclusive das histórias e mitos gregos. Apareceram grupos de tubos ornamentais e jogos que lembravam brinquedos. Na fachada de muitos órgãos portugueses e espanhóis, há tubos na horizontal, trombetas com uma sonoridade muito presente. Eles são óptimos para reproduzir peças musicais chamadas batalhas que representam, de certo modo, o combate entre o bem e o mal, a vitória de Jesus e dos cristãos sobre o mal e o pecado. Se fores à Igreja de São Tiago de Torres Novas, ou à Misericórdia de Santarém, podes ver desses tubos horizontais. O som destes conjuntos entra mais directamente no ouvido.

O órgão positivo era um órgão pequeno, maior que o portativo, ou portátil, muitas vezes poisado num móvel luxuoso, geralmente para uso doméstico. Muito utilizado nos palácios reais, é um instrumento estimado desde o século XV, tanto na Igreja como fora dela. Tem geralmente um só teclado, sem pedaleira, foles reduzidos e um número de registos entre três e doze.

As portas que fecham os tubos em muitos orgãos portugueses e espanhóis são uma característica que apareceu no século XVI. Por vezes, quando abrimos o armário do órgão, deparamos com belos motivos vegetais, pássaros, instrumentos, cenas musicais e temas bíblicos, desenhados no lado interior das portas. Outras vezes surpreendem-nos autênticas filigranas em talha, na fachada.

- É difícil tocar órgão de tubos? - perguntou a Juliana ao Telmo.

- É um bocadinho diferente de tocar órgão electrónico. Nos órgãos ibéricos, geralmente não há pedaleira, a sensibilidade das teclas é diferente, é preciso escolher os sons e aplicá-los à música que se quer fazer... Há que aprender, estudar, praticar...

O Telmo sentou-se ao órgão e tocou uma peça. No fim a Juliana disse:

- Parece uma música de enterro, padrinho...

- Tens razão, Juliana; é um bocadinho triste. Mas escuta esta peça de Bach.

O Telmo tocou a música "Jesus alegria dos homens", que a Juliana já conhecia de um CD. E disse-lhe:

- A tua escola é uma espécie de oficina em que se vai construindo o teu órgão, feito de tubos diferentes, em parte igual aos outros, mas único, belo e não escondido nas portadas de um armário. Vou contar-te uma história que se passou com Mozart. Conheces Mozart?

- Sim, em casa temos um CD com música dele.

- Um dia ofereci um disco de Mozart à tua mãe e ela punha-o às vezes, quando eras pequenina. E, pelos três anos, pedias, às vezes:

- Põe aquela música que faz chorar!

Mozart tocava piano desde muito pequenino e os pais levavam-no a dar concertos em palácios importantes. Todos ficavam maravilhados com aquele miúdo. Às vezes, ele perguntava às pessoas:

- "Gostas de mim? Gostas mesmo de mim?" Se a pessoa dizia que o amava, sabes o que o Mozart fazia?

- Tocava...

- Exactamente! Sentava-se ao piano e tocava uma peça bonita. A melhor música é a que sai de um coração que ama e se sente amado. Não achas?

A Juliana concordou. Compreendeu que as profissões de restaurador, organeiro e organista são muito interessantes. E foram-se embora, felizes e orgulhosos por terem falado com o rei dos instrumentos.

António José Ferreira

TOPO

Órgão histórico da Sé de Miranda

Órgão histórico da Sé de Miranda

TOPO