MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
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ORGANEIROS HISTÓRICOS
Órgão da Igreja da Misericórdia, Santarém, de A.X.M.C

Vieira, Ernesto - Diccionario Biographico dos Músicos Portuguezes, 1900.

(Ao ler estes dados sobre organeiros portugueses anteriores ao séc. XX, recorde que, embora tenham certamente utilidade, datam de 1900).

Cunha (João da)

Fabricante de órgãos que havia em Lisboa pouco antes do terramoto. O cataclismo poucas lembranças deixou subsistir do seu trabalho; apenas conheço autenticamente dele o órgão de S. Paulo em Almada, que tem esta inscrição: "João da Cunha o fez. 1748." É um pequeno mas bom instrumento. Sei que ainda existem outros insignificantes em Lisboa e seus arredores. Na mesma época havia outro organeiro, Filippe da Cunha, talvez irmão, do qual há memória no órgão da Igreja paroquial de Belas, o qual tem inscrito: "Phelipe da Cunha o fez em Lisboa no anno de 1744."

Ferreira (Francisco Manuel)

Fabricante de pequenos órgãos, estabelecido em Lisboa entre os anos de 1820 e 1850. Na "Gazeta de Lisboa" de 10 de Março de 1826 publicou este anúncio: "Francisco Manuel Ferreira, Organeiro, conhecido pelas suas obras já vistas e approvadas pelos melhores auctores da mesma arte, aviza a quem quizer utilizar de seu prestimo para qualquer Orgão que seja, seus planos serão preenchidos com as melhores composições, e diversas vozes tudo por preços comodos: he morador na rua dos Calafates, n.º 121." Em Janeiro de 1831 publicou outro anúncio em que se diz morador defronte da Igreja dos Inglesinhas ao Bairro Alto, nº 30. Vi dele um órgão pequeno com 45 registos, na ermida dos Milagres, à Estrela, o qual tem o n.º 20 e a data de 1845.

Fontanes (Frei Simão)

Autor dos grandes órgãos da Sé de Braga, o maior dos quais é sem duvida o mais grandioso que existe nas Igrejas do Minho. Esses órgãos são os que estão colocados no coro grande (o templo tem mais três). No maior lê-se esta inscrição: Fr. Simon Fontanes Gallocianus. Fecit. anno 1738. Era natural da Galiza, pois que se intitula Gallocianus. Este órgão maior, que é o que está da parte do evangelho, tem dois teclados com someiros e registos privativos para cada um. O número total dos registos é superior a cinquenta, dispostos em três filas por lado. O outro órgão de Simão Fontanes, mais pequeno na fabrica de que o seu companheiro, é todavia igual a ele nas partes que o compõem. Ambos são da oitava curta, singular disposição do teclado nos órgãos antigos, muito embaraçosa para os organistas modernos. O órgão do Seminário de Coimbra foi construído em 1763 por um João Fontanes de Maqueixa, que não sei se seria parente de frei Simão Fontanes.

Fontanes (Joaquim António Peres)

Organeiro estabelecido em Lisboa durante os fins do século XVIII e principio do XIX. Construiu três dos seis belos órgãos de Mafra, ao mesmo tempo que Machado Cerveira que construiu os outros três. São de Fontanes o da parte da Epístola na capela-mor e um de cada cruzeiro. O órgão do cruzeiro direito tem esta inscrição: "Joaquim Antonio Peres Fontanes O fes em 13 de junho d' 1807". O do cruzeiro esquerdo é consideravelmente maior, contando trinta registos. Foi apeado para se restaurar no tempo dos frades, mas sobrevindo nesse tempo a extinção das ordens religiosas ficou desarmado em deplorável abandono e ainda assim se encontra. A inscrição que nele se vê tem a data de 1806. Também são de Joaquim Peres Fontanes os órgãos da Sé, Madalena e Loreto, semelhantes na fábrica aos de Mafra mas um pouco maiores. Têm boas vozes e são bem construídos.

Os órgãos de Fontanes são muito semelhantes aos de Machado e Cerveira, mas este levou-lhe grande vantagem nos frontispícios, muitos dos quais são obras verdadeiramente primorosas. Ignoro quando faleceu Joaquim Fontanes, mas suponho que a sua existência não chegou a 1820. Teve um filho, Antonio Joaquim Fontanes que foi também organeiro, ocupando-se principalmente de restaurar instrumentos construídos pelo pai. Existem todavia alguns que ele fabricou; um deles é o da Igreja matriz de Oeiras, que tem esta inscrição: "Antonio Joaquim Fontanes, o fez em Lisboa no anno de 1829." Tem vinte e dois registos, com uma extensão no teclado de quatro oitavas e meia. Houve também um organeiro, mais moderno que os precedentes, chamado Antonio Luiz da Penha Fontana. Ocupava-se porém só de restaurações. Esta coincidência de organeiros com o mesmo apelido de Fontanes ou Fontana suscita a ideia de que fossem todos membros de uma mesma família, a qual se teria ramificado durante mais de duzentos anos.

Henriques (João)

Organeiro natural de Hamburgo, estabelecido em Lisboa na primeira metade do século XVIII. Foi o construtor do sumptuoso órgão que havia na igreja do Carmo destruída pelo terramoto, e que era um dos maiores existentes em Lisboa, onde havia muitos e riquíssimos antes do grande cataclismo.

Lagonsinha (Manuel de Sá)

Organeiro que trabalhou nos princípios do século XIX, produzindo uma grande parte dos órgãos existentes na Província do Minho, especialmente em Braga. Era natural da Freguesia de onde tirou o apelido, próximo de Santo Tirso, tendo tido por mestre na fabricação de órgãos um frade do Convento de Tibães. Faleceu cerca de 1846. Atribui-se-lhe a construção do grande órgão que está hoje no Santuário do Bom Jesus, o qual pertencia ao convento dos frades bernardos de Bouro, conselho de Amares; este órgão foi concedido pelo governo e transferido para o Bom Jesus em 1855, custando a sua trasladação, colocação e restauração três mil cruzados (1:200$000 reis). Tinha sido construído pouco antes de 1834.

Leite (Agostinho)

Fabricante de órgãos brasileiro, do qual nos da noticia um livro manuscrito que existe na Biblioteca publica de Lisboa, intitulado "Desaggravos do Brasil"; não posso fazer mais do que reproduzi-la, porque nada mais sei a tal respeito. "Agostinho Rodrigues Leite nasceu no Recife em 22 de Agosto de 1722, sendo seus Pais João Rodrigues Leite. Familiar do Santo Oficio, e sua mulher Ana Teixeira Leite. É dotado de um peregrino engenho, sem outro mestre, que a própria penetração faz excelentes órgãos, e para os Templos da Pátria, e da Baía os tem feito primorosíssimos. Ao mesmo tempo que exercita esta rara habilidade, mostra que se não cega do interesse dando a suas obras preço muito inferior do seu devido valor." ("Desagravos do Brasil..." Bib. Nacional de Lisboa, Ms. B. 16. 23 fls. 401.)

Lobo (Heitor)

Organeiro que vivia nos meados do século XVI. Dá notícia dele o padre Nicolau de Santa Maria, na "Chronica dos Conegos Regrantes", tratando do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra: "Tambem no mesmo anno (1559) mandou o P. Prior geral concertar o orgão grande, par Heitor Lobo famoso organista, que lhe acrescentou registos, e o fez como de novo, e fez o orgão pequeno, e tambem o Realeijo com doçainas, e charamelas, que se levava antigamente nas procissões pela Claustro". ("Chronica dos Conegos Regrantes", parte 2.ª, pag. 329.)

Machado e Cerveira (Antonio Xavier)

O mais notável organeiro português e que maior quantidade de trabalho produziu. Era irmão consanguíneo do grande escultor Joaquim Machado de Castro e filho de outro organeiro e escultor em madeira, Manuel Machado Teixeira ou Manuel Machado Teixeira de Miranda. Machado Cerveira nasceu em 1 de Setembro de 1756 na Freguesia de Tamengos, pequena povoação pertencente ao concelho de Anadia, diocese de Coimbra. Seu pai, natural de Braga, tinha casado em primeiras núpcias com D. Teresa Angélica Taborda que foi mãe de Machado de Castro, e em segundas núpcias casou com Josefa Cerveira, natural de Arguim, a qual veio a ser mãe de Machado e Cerveira. O nome do pai dos Machados figura no grande órgão que existia no coro do Mosteiro dos Jerónimos do lado do evangelho, o qual tinha esta inscrição: "Manuel Machado Teixeira de Miranda o fez e acabou no anno de 1781." Esse orgão tinha 4:010 tubos, 74 registros e 12 pedais de combinações; os foles eram em número de sete. É uma fabrica majestosa, ocupando lateralmente todo o comprimento do coro que é extensíssimo, tendo no interior uma escadaria que vai até à abobada do templo para se poder limpar e consertar todas as peças do instrumento.

Diz a tradição que o fabricante tinha deixado um volumoso livro manuscrito com minuciosa descrição da sua obra, mas esse livro desapareceu. Teixeira Machado, porém, se planeou e dirigiu os trabalhos desse magnifico instrumento, teve seguramente um ajudante activo e vigoroso que inteligentemente lhe secundasse a direcção, porque ele em 1781 estava já decrépito devendo contar mais de oitenta anos de idade, visto que o seu primeiro filho nasceu em 1721. É esse ajudante não podia ser outro senão o filho mais novo, que com o pai aprendeu a arte de construir órgãos. O último trabalho do mestre foi ao mesmo tempo o primeiro do discípulo, que ao tempo contava vinte e cinco anos de idade. Em face do orgão precedentemente nomeado, estava outro de igual construção, mas que não chegou a ficar concluído; tinha esta inscrição: "O Ex.mo D. Fr. Diogo de Jesus Jordão sendo bispo de Pernanbuco mandou fazez este orgão no anno de 1789." Foi construído por Machado filho, porque o pai já a esse tempo era falecido.

O primeiro orgão completo que Machado e Cerveira construiu e hoje existe em perfeito estado, é o da Igreja dos Mártires. Tem na inscrição a data de 1785 e o número 3 indicando os instrumentos construídos pelo autor até essa data. Talvez ele contasse como números 1 e 2 os do Mosteiro dos Jerónimos. É um bom instrumento, não de grande fabrica interna mas de vozes fortes e estridentes segundo o gosto da época. O seu frontispício tem um belo aspecto ornamental, perfeitamente em harmonia com o local em que foi posto e produzindo óptimo efeito olhado do corpo da Igreja.

Depois de ter feito o orgão dos Mártires, Machado e Cerveira ganhou um grande credito e foi incumbido de construir todos os órgãos que as igrejas de Lisboa, reedificadas depois do terramoto, tiveram de adquirir; a sua missão nesta especialidade foi idêntica à de Pedro Alexandrino na pintura. Assim é que, com as mesmas dimensões do orgão dos Mártires embora com diferentes frontispícios, produziu sucessivamente os órgãos de S. Roque, Convento da Estrela, convento de Odivelas, Sacramento, Santa Justa, os três de Mafra, o da Capela Real de Queluz, além de muitos outros menores, como os do Socorro, Santa Isabel, Boa Hora (em Belém), Anjos, S. Tiago, S. Lourenço, ermida da Vitória, Encarnação, etc. Fabricou também muitos instrumentos para diversas igrejas das proximidades de Lisboa, como Barreiro, Lavradio, Coruche, Marvila, Santarém (onde há três, sendo o mais considerável o da Misericórdia), Santa Quitéria de Meca, etc.

Igualmente mandou muitos para o Brasil, alguns deles de grandes dimensões. Por motivo de ter construído os órgãos de Mafra e Queluz, foi nomeado organeiro da casa real - Organorum regalium Rector, como ele mesmo se intitulava - e condecorado com o hábito de Cristo. Um dos últimos instrumentos produzidos por este laborioso fabricante foi o orgão que existe Freguesia do Barreiro; tem o número 103 e data de 1828, exactamente o anno em que ele morreu. Machado e Cerveira entrou para a Irmandade de Santa Cecília em 22 de Novembro de 1808, sendo muito considerado nesta corporação. Exerceu com a maior pontualidade e zelo, durante os últimos anos e até poucos meses antes de falecer, o cargo de primeiro assistente, presidindo a todas as sessões da mesa.

Tinha ultimamente oficina e moradia numa das propriedades da Casa de Bragança ao Tesouro Velho, creio que a mesma que ocupara seu irmão Machado de Castro. Morreu em Caxias, para onde tinha ido já muito doente, em 14 de Setembro de 1828, contando 72 anos de idade; foi sepultado nos covaes dos Jerónimos. A oficina de Machado e Cerveira continuou ainda a funcionar, dirigida pelo seu ajudante e discípulo José Teodoro Correia de Andrade, sendo proprietária a viúva D. Maria Isabel da Fonseca Cerveira. Extinguiu-se porém pouco tempo depois sem ter produzido mais trabalho algum importante. Os maiores órgãos de Machado, com excepção dos dois que estavam nos Jerónimos, não têm uma fabrica muito grande; podem até considerar-se pequenos comparados com os instrumentos monumentais que existem espalhados pela Europa, e em Lisboa mesmo, antes do terramoto, havia-os muito mais grandiosos. São porém muito bem construídos, com solidez notável, no gosto italiano predominante em toda a Península desde os fins do século XVII. Por isso nenhum tem o teclado de pedais e raros têm dois teclados manuais. São muito pobres nos registros graves, tendo apenas um flautado de 24 palmos ou 16 pés. A sua maior riqueza consiste na palheteria e nos registros compostos, que são sempre muito numerosos havendo registros com sete ordens de tubos. São por isso brilhantes e estridentes nos cheios, mas pouco nutridos nos flautados. Satisfaziam ao gosto vulgar da época que exigia, mesmo na igreja, música alegre e ruidosa.

Como se vê, o carácter desses instrumentos é completamente oposto ao dos órgãos modernos, cujas tendências são para adoçar os timbres suprimindo de todo os registros compostos, diminuindo a palheteria e aumentando os flautados principalmente nos registros graves. No que porém os órgãos de Machado são por vezes admiráveis, é na escultura ornamental. Vê-se que conhecia a arte de modelar a madeira, fazendo-o com aprimorado gosto. Já me referi sobre este ponto ao orgão dos Mártires; os do Jerónimos, que foram planeados pelo pai, mas cuja execução não pode deixar de lhe ser atribuída, são muito mais grandiosos e de superior beleza. Mas o que a todos sobreleva no fino acabamento dos pequenos ornatos e emblemas em relevo é o de Odivelas.

Tambem é notável sob o ponto de vista ornamental o orgão do Convento da Estrela. É dividido em cinco corpos laterais, porque a pequena distancia que separa o coro da abobada não permitia desenvolve-lo em altura; os emblemas, festões e figuras inteiras nos remates assim como os finos embutidos nos teclados. Constitui tudo trabalho de muito gosto para se admirar. Tem este orgão dois teclados, quarenta e três registros e sete pedais de combinações. A sua inscrição, manuscrita com letra bastarda muito bem lançada sobre uma prancheta de marfim, diz: "Este Orgão fez Antonio Xavier Machado e Cerveira no anno 1789. N.º 23."

Varella (Frei Domingos de S. José)

Organista e organeiro muito notável, natural de Guimarães. Professou na ordem de S. Bento, residindo primeiro no convento de Tibães como diz Balbi no Essai Statistique, e mais tarde no convento de S. Bento da Vitoria, no Porto. Era na portaria deste convento que se vendiam em 1825 os exemplares da obra que publicou, segundo se lê nos respectivos anúncios.

Essa obra, apesar de pouco volumosa, é uma das mais interessantes que se têm publicado em português, reunindo muito resumidamente mas com a maior clareza e perfeita ciência, os mais variados assuntos. Tem este título: Compêndio de Musica, teórica, e pratica, que contem breve instrução para tirar musica. Liçoens de acompanhamento em orgão, cravo, guitarra, ou qualquer outro instrumento, em que se pode obter regular harmonia. Medidas para regular os braços das violas, guitarra, etc., e para a canaria do Orgão. Aprendiz em que se declaram os melhores métodos de afinar o órgão, cravo, etc. Modo de tirar os sons harmónicos ou flautados: com varias, e novas experiências interessantes ao Contraponto, Composição e á Física. Por Fr. Domingos de S. José Varella, Monge Beneditino. (Uma fina gravura emblemática). - Porto: Na Typ. de Antonio Alvarez Ribeiro, Ano M.DCCCVI.) Tem por epigrafe um trecho dos "Elementos de Musica" de D'Alembert, como que indicando ter sido este o seu principal guia. Pelo decurso da obra e tambem citada, mais de uma vez, a "Encyclopedia Methodica". Divide-se em três partes. A primeira compreende 15 páginas e trata dos princípios de música, concluindo com um capítulo sobre o "Modo de teclear e dedilhar". São muito sensatas embora muito breves as regras que Varella dá sabre a dedilhação.

 
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira