MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
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BIOGRAFIA DE CARLOS DE AZEVEDO
Carlos Mascarenhas Martins de Azevedo nasceu em Lisboa a 18 de Maio de 1918 na Rua Alexandre Herculano, 17 - r/c direito (para onde em 1942 irá morar no 3º andar direito durante 30 anos). Filho de António Martins de Azevedo e de Delfina Aureliana Mascarenhas. Seu pai foi casapiano onde tirou o Curso de Comércio vindo a ingressar o Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa. Vai depois para Moçambique como Gerente do Banco da Ilha de Moçambique e posteriormente, é convidado para sócio da Firma Breyner & Wirth. Foi em África que António Azevedo passou parte da sua vida vindo, de tempos a tempos, de férias a Lisboa onde nasce o seu segundo filho Carlos. O primeiro, Álvaro tinha mais sete anos do que o irmão. Carlos vive em Lisboa até aos dois anos, vai com os pais para Lourenço Marques, entra para um kindergarten onde aprende o inglês e torna-se bilingue.

Volta de vez com a mãe para Portugal em 1929, para estudar e frequenta o Liceu Camões. Aos 14 anos perde a mãe, o pai torna a casar e o jovem Carlos de Azevedo entra como aluno interno para o Colégio Infante de Sagres, em Lisboa. Teve como professores Agostinho da Silva, Mário Chicó, Orlando Ribeiro, Ferreira de Macedo, etc., que exerceram nele uma influência para toda a sua vida e se tornaram seus amigos. Completa o 7º ano dos liceus em 1937.

O seu gosto pela música manifesta-se muito cedo, tendo tido lições de piano desde o tempo de Lourenço Marques. O pai compra-lhe um Bechstein de meia cauda. Desejava então ir para a Alemanha estudar música, mas o pai cortou-lhe as lições de piano e convenceu-o a tirar o Curso de Direito, com vista a ser colocado na Breyner & Wirth. Faz a admissão à Faculdade de Direito, em 1937, mas não se dá bem no curso. Por essa altura, namorava Maria Teresa Mascarenhas de Oliveira Falcão com quem vem a casar em 1940 e que o convence a tentar a aptidão à Faculdade de Letras. Tem um mês para se preparar e, com a ajuda de Agostinho da Silva, passa no exame de admissão e matricula-se em Filologia Germânica, em 1939. O pai tem dúvidas quanto ao seu futuro, desfeita que é a esperança de o ter como sócio e morre em 1947, tendo tido porém a satisfação de ver o filho formado.

Carlos faz em Mafra o Curso de Oficiais Milicianos, na Escola Prática de Infantaria. Em 5 de Junho de 1941 nasce o primeiro filho do casal, João António, ao qual se seguiram mais dois, José e Pedro. Em Agosto, é colocado como Aspirante a Oficial Miliciano no Regimento de Infantaria nº 10, em Aveiro, onde dá a sua primeira recruta. Aí arranjou casa tendo levado a família consigo. Como ainda estava a estudar, volta para a faculdade onde se confirma o seu interesse pelas letras. Tem boas notas e bons professores. Em 1945 acaba o curso com 14 valores. Escreve então a sua tese de licenciatura sobre a Teoria Dramática de Wagner e é licenciado em Outubro. O seu gosto pela música não diminuiu e, até mesmo depois de casado, tem lições de piano com o Prof. Botelho Leitão. Ainda na faculdade, dá um concerto de piano no qual colaboram, entre outros, Carlos Picoto e Miguel Emaús Leite Ribeiro.

Pouco tempo depois, o Prof. Dr. Orlando Ribeiro, com boas ligações ao Instituto de Alta Cultura e de quem Carlos tinha sido aluno, chama-o e pergunta-lhe se gostaria de ir para a Universidade de Oxford - Inglaterra, como leitor de Português. Carlos de Azevedo aceita e parte com a mulher em 6 de Janeiro de 1946. Tem já dois filhos que ficam com os sogros em Lisboa. A II Guerra Mundial acabara há pouco tempo e era difícil arranjar alojamento em Oxford. As dificuldades em Inglaterra são grandes devido ao racionamento pós-guerra. Instalam-se numa pensão em Norham Gardens, num bed-sitting room. O presidente do Instituto de Alta Cultura, Dr. Medeiros de Gouveia e o Vogal, Dr. João Couto, tornaram-se então seus amigos. Os primeiros contactos com a universidade foram fáceis embora formais, mas o seu fluente inglês e a sua excelente cultura granjearam a simpatia por parte do director da cadeira de Português e dos seus colegas. Carlos de Azevedo ensinava Camões e Literatura Portuguesa. Ainda em 1946, foi-lhe concedido o grau de Master of Arts pelo Wadham College e no ano seguinte é nomeado Fellow do mesmo College, o que lhe conferia certas regalias universitárias. Estava assim integrado numa das mais prestigiosas universidades do mundo.

Trabalhava na Biblioteca Bodlean em Oxford quando lhe foram dizer que Charles Boxer gostava de o conhecer. Foi o princípio de uma grande amizade. Boxer, que se encontrava em Oxford a tratar-se de um ferimento de guerra estava muito interessado na história dos portugueses no oriente. Falava português, japonês e muitas outras línguas. Sem ter nenhum grau académico, era apenas major, foi director da cadeira de Português no King's College em Londres e toda a sua vida foi consagrada a estudos orientais. Era um dos grandes lusófonos da altura. Carlos de Azevedo correspondeu-se por toda a vida com Charles Boxer. Mais tarde em 1957, a convite do Governo do Kenya e sob os auspícios da Fundação Calouste Gulbenkian, Carlos Azevedo e Charles Boxer deslocaram-se a Mombaça para colher informação histórica sobre a Fortaleza de Jesus, que está publicada no livro de que são autores, sob o título Fort Jesus and the Portuguese in Mombasa.

Em Inglaterra conheceu um compositor e etnomusicólogo português de muito valor, o Prof. Artur Santos, que era bolseiro do Instituto de Alta Cultura e estava acompanhado da sua mulher Túlia Santos. Foi uma relação de amizade que se prolongou por toda a vida.

Em 6 de Maio de 1947, Carlos de Azevedo e Artur Santos organizam na Universidade de Oxford uma conferência com o título Portugal, the Country and the People com canções populares compiladas e harmonizadas pelo Prof. Artur Santos e cantadas por Túlia Santos. Assistiu o Embaixador de Portugal, na altura o Duque de Palmela. Pouco tempo depois, repetiam a conferência em Londres.

Nesse ano em Agosto durante as férias na Figueira da Foz em casa do sogro João da Costa Falcão, recebe a notícia da morte do seu pai vítima de congestão cerebral.

Poucos dias depois recebe uma carta do Instituto de Alta Cultura informando que o seu lugar como leitor em Oxford tinha terminado por ordem do Ministério da Educação. Posteriormente veio a saber-se que o motivo fora devido à sua assinatura constar de uma petição para eleições livres em Portugal. Salazar não gostou e retirou dos lugares de Estado todos aqueles que assinaram essa petição. A Universidade de Oxford ficou perplexa com aquela acção e convidou de seguida Carlos de Azevedo para ficar como leitor agregado. Embora com muita mágoa, declinou o convite pois isso obrigá-lo-ia a exilar-se de Portugal. Durante dois anos, o Instituto de Alta Cultura não consegue ninguém para substituir Carlos de Azevedo no cargo que exercia em Oxford, porque a universidade invariavelmente respondia desejando que ele voltasse. Vai entretanto a Inglaterra para liquidar diversos assuntos pendentes e volta para Lisboa sem emprego, afastada a hipótese de concorrer para professor numa universidade portuguesa.

Durante os dias de Oxford, o Dr. João Couto manteve correspondência com Carlos de Azevedo e este começa a interessar-se por História de Arte. Vai assim oferecer os seus préstimos ao Museu de Arte Antiga como voluntário. Em 1949, tem lugar em Lisboa o I Congresso de História de Arte e Carlos de Azevedo integra uma equipa de voluntários com os mesmos interesses, composta pelo Dr. José Ferreira de Almeida, Raquel Henriques da Silva, Nôra Zeia Bermudes, Adriano Gusmão e outros. Carlos de Azevedo, com o dinamismo dedicado à sua equipa, a sua disponibilidade total e o seu método apreciável, sempre pronto a dirigir-se a todo o lado, falando inglês e francês com o à-vontade de quem tinha vivido e viajado fora de Portugal, tornou-se um precioso auxiliar do Dr. João Couto. Nesse mesmo ano, durante o Verão empreende uma volta à Europa no seu próprio automóvel, visitando museus e monumentos, conversando com conservadores e directores dos mesmos e, sem ser essa a sua intenção, foi preparando terreno e amigos que mais tarde, como conservador de museus, bibliotecas e monumentos nacionais muito lhe haviam de servir. Entretanto já tinha desistido de ser professor universitário, pois a célebre petição tinha-lhe vedado esse lugar. Todo o seu interesse e cultura voltara-se para a História de Arte e durante cinco anos trabalhou no Museu Nacional de Arte Antiga.

Em 1951, é convidado pelo Dr. Mário Chicó para participar numa viagem de estudo a Goa, Damão e Diu. Participou nessa viagem de 60 dias, subsidiada pela Junta de Missões do Ultramar com o fotógrafo Carvalho Henriques, o director dos Edifícios e Monumentos Nacionais Arqº Humberto Reis e com o próprio Dr. Mário Chicó. Foi uma viagem de grande sucesso, até porque pouco se havia escrito sobre os monumentos da Índia Portuguesa. Carlos de Azevedo traz dezenas de diapositivos a cores e material que dá para escrever vários livros e artigos em revistas. Fez também inúmeras palestras em Portugal e no estrangeiro sobre a Índia Portuguesa.

Por volta de 1953 foi aberto concurso para conservadores de museus. Carlos de Azevedo volta à universidade e faz duas cadeiras - Numismática e História de Arte - que lhe faltavam para o seu currículo e lhe davam possibilidade de concorrer. Em 1955 é nomeado conservador do Museu de Arte Contemporânea em Lisboa, sendo director o escultor Diogo de Macedo. A entrada para o cargo só foi possível através da intervenção do Dr. João Couto que foi à PIDE falar com um dos directores e disponibilizou-se a garantir que as ideias políticas de Carlos Azevedo nada tinham contra o regime da altura. Na ficha da PIDE apenas constava que tinha assinado a petição para eleições livres e nada mais. Essa garantia prontificou-se João Couto fazê-la por escrito. Foi graças a ele que Carlos de Azevedo ficou a dever o seu rumo para a profissão que, de uma maneira definitiva, o realizou na vida.

Também teve grande influência na sua cultura o Dr. Mário Tavares Chicó, professor de História de Arte na Faculdade de Letras e director do Museu de Évora, que também tinha sido seu professor e amigo desde os tempos do Colégio Infante de Sagres.

Em 1960, é nomeado o pintor Eduardo Malta para Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea e Carlos de Azevedo discorda dessa nomeação quando sabia da existência de pessoas formadas em museologia. Comunica ao próprio a sua opinião e demite-se do lugar de conservador. Na altura, há no Museu Nacional de Arte Antiga uma vaga para conservador, decorrente da saída de Maria José de Mendonça para a Fundação Calouste Gulbenkian. Carlos de Azevedo concorre, mas sabendo que aquela senhora não se dera bem com a mudança, retira a sua candidatura e Maria José de Mendonça é reconduzida como conservadora.

Naquele mesmo ano, é assinado entre o Governo Português e o Governo dos Estados Unidos, o acordo Fulbright, no âmbito da Comissão Cultural Luso-Americana, que tem por função atribuir bolsas de estudo a americanos e portugueses. Carlos de Azevedo é convidado para secretário executivo, aceita e permanece nesse lugar durante 14 anos.

Ainda durante o seu cargo de conservador em 1958, é-lhe oferecido pelo Departamento de Estado Norte-americano um header grant de 60 dias nos Estados Unidos para visitar cidades à sua escolha, ver museus, universidades, arquitectura moderna, etc. Para poder ir com a sua mulher, organiza uma tournée de conferências em todos os museus que visita, sempre com grande sucesso. Faz nada menos do que treze palestras sobre pintura, arquitectura e casas portuguesas, o que lhe abriu as portas para muitas oportunidades durante toda a sua vida.

Nenhum levantamento capaz em termos de História de Arte fora anteriormente feito em Portugal sobre arquitectura no âmbito da habitação civil. Carlos de Azevedo procurou reunir elementos sobre residências senhoriais de várias épocas e em várias regiões do país. Para o efeito, empreendeu diversas deslocações por muitas terras, inclusivamente algumas das mais remotas de Portugal, num trabalho de pesquisa sem precedentes que certamente foi aquele que é conhecido como um dos mais importantes da sua vida. A partir daquilo que colheu nas suas viagens, apontamentos e inúmeras fotografias que tirou, escreveu e fez publicar em 1963 uma obra prestigiosa digna de grande mérito com o título Solares Portugueses.

Em 1966, recebe um convite para passar uma semana em Florença, na Villa I Tatti e tomar conhecimento do programa de estudos da Fundação Bernard Berenson, grande crítico e historiador de arte americano que viveu naquela Cidade e dono de uma fabulosa biblioteca que deixou à sua Villa, recheada de obras de arte, principalmente de pintura italiana. Entre outras coisas, deixou o piano de Wagner à Universidade de Harvard. Era director da Villa na altura, Myron Gilmore e, com sua mulher eram um casal encantador do qual Carlos de Azevedo ficou amigo. A Villa I Tatti pede à Fundação Gulbenkian um subsídio e este é-lhe concedido. Resolve então, à maneira de agradecimento, convidar um historiador de arte de renome nacional e não só, para passar uma semana de férias em Florença. É escolhido Carlos de Azevedo. Parte com a sua mulher a 7 de Maio de 1966, sendo-lhes posto à disposição o automóvel particular de Berenson, com o respectivo motorista. Não tem programa estabelecido, só lhe é pedido que uma vez por outra almoce na Villa onde todos os dias os bolseiros têm à sua disposição um buffet com uma óptima collazione tipicamente italiana. Há estudantes e professores de toda a parte do mundo, bolseiros da Fundação, estudando na biblioteca.O almoço é pretexto para o convívio e troca de impressões. Um dia Myron pede a Carlos de Azevedo que faça uma palestra informal para os bolseiros sobre o assunto que entender, na qual improvisa e fala sobre a Renascença. Foi uma das suas mais brilhantes palestras que lhe granjeou a admiração dos novos e velhos professores e dos alunos. Com o automóvel posto à sua disposição, visitou Florença e arredores como poucos o poderiam fazer no espaço de uma semana.

Em 1974, dá-se em Portugal o 25 de Abril. Salazar era já falecido e o Presidente do Conselho de Ministros que se lhe seguiu desiludiu as esperanças dos portugueses. A guerra em África ceifava algumas vidas jovens e o descontentamento era geral. Marcello Caetano nada fazia para resolver a situação. As Forças Armadas conspiram e derrubam o regime. Foi um golpe sem derramamento de sangue. A extrema-esquerda aproveita-se da situação e os comunistas entram em acção. O caos reina em Portugal. Este estado de coisas acaba parcialmente em 25 de Novembro de 1975 e o povo é restituído à liberdade e democracia.

Durante o período de instabilidade, Carlos de Azevedo é chefe de Serviço do Património Cultural e as sequelas deixadas por esse período criam uma certa confusão generalizada. A UNESCO, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros pede ao Governo Português, à semelhança do que estava a fazer em outros países, que envie um candidato ao lugar de director de um serviço para a avaliação de subsídios para restauro de monumentos nacionais em toda a parte do mundo.

Consultado o Ministério da Educação, a escolha vai para Carlos de Azevedo que parte para Paris para, juntamente com mais 26 candidatos serem apreciados por um júri composto por funcionários superiores da UNESCO, um francês e outro inglês. O exame é feito simultaneamente nas duas línguas e Carlos de Azevedo fica em primeiro lugar. O Governo dá a sua concordância para a ida do seu funcionário para França. Carlos de Azevedo faz as malas e prepara-se para deixar o país. Dois dias antes, recebe uma carta da UNESCO em que lamenta dizer que não pode ocupar o cargo porque essa organização é excedentária em funcionários portugueses. Certamente que essa recusa seria uma história muito mal contada e depois de uma troca de correspondência, o assunto teve o seu termo. Mais tarde veio a saber-se através de interposta pessoa a verdadeira razão dessa atitude vergonhosa da UNESCO. Fora devida a razões meramente de cor política por parte de funcionários daquele organismo. Depois desse lamentável procedimento Carlos de Azevedo decide ir passar uns tempos aos Estados Unidos. No Ministério da Educação o ambiente era de alvoroço com reuniões quase diárias de delegados sindicais, comissões de trabalhadores, etc., e pouco se trabalhava. Nessa altura, Carlos de Azevedo fora convidado para director do Museu Nacional de Arte antiga pela segunda vez, porque Maria José de Mendonça tinha falecido. Apesar de significar o topo da carreira de conservador e sendo certo que todos os funcionários do Museu gostariam de o ter como Director, Carlos de Azevedo não aceita.

Escreve para os seus amigos nos Estados Unidos e na volta do correio e pelo telefone tem logo três lugares à sua disposição: o de professor de História de Arte na Universidade de Miami, em Oxford, Ohio, o de director de um museu a ser criado com o nome de Portuguese Heritage em Fall River e ainda o de director do Instituto de Arte Ibérica, Colomal, Santa-Fe, New México, pois o Director deste Instituto, Arqº Charles Collier tinha atingido o limite de idade e iria ser reformado. Carlos de Azevedo escolhe a Universidade de Miami em Oxford, Ohio que já conhece, onde tem amigos e fizera já uma palestra integrada no Programa Fulbright. Nessa universidade o ambiente entre os docentes é muito agradável, os dias decorrem sem problemas e os convites sucedem-se para almoços e jantares. É-lhe dada a chave da Escola de Música para que possa tocar depois de acabadas as aulas, tendo à disposição nada mais do que 36 pianos. No curso de 1976-77, as inscrições têm de ser limitadas a 200 por excesso de alunos. A boa reputação de Carlos de Azevedo está consagrada e a cadeira de História de Arte que era facultativa na Universidade passou a fazer parte do currículo de alguns cursos.

Carlos de Azevedo tinha tal gosto por aquilo que ensinava tendo sido graças a ele que uma aluna da universidade que estava hesitante no curso a seguir, se começou a interessar seriamente por História de Arte e se realizou nessa especialidade. Reconhecendo a boa influência que Carlos de Azevedo teve nessa decisão, o pai dessa aluna entregou um donativo em dinheiro à universidade.

Entretanto o Museu da Universidade estava para ser organizado e Carlos de Azevedo é chamado para colaborar. Saiu-se tão bem dessa tarefa que lhe propuseram candidatar-se a director. Mais uma vez não aceita, alegando que é estrangeiro e não pensava permanecer por muito mais tempo naquela universidade. Particularmente, pensava que não era justo ficar como director quando sabia de um colega que sempre pugnou pela criação do Museu da Universidade, pessoa muito conhecedora, mas sem grau académico. Carlos de Azevedo, preferiu continuar na catalogação das fichas das obras de arte do Museu, onde fez um trabalho muito importante. Foram-lhe concedidas todas as verbas que pretendia para fotografias, etc., sem a mínima objecção. Assim se passaram sete anos muito agradáveis, vindo a Portugal de férias duas vezes por ano, no Natal e no Verão.

Em 1983, já com sinais de doença de Parkinson regressou definitivamente a Lisboa. Como estava com licença ilimitada, tinha direito ao seu antigo lugar na Direcção-Geral do Património Cultural, mas esse lugar estava naturalmente já preenchido. Natália Correia Guedes, ao tempo Secretária de Estado da Cultura, cria o lugar de assessor que não existia, para Carlos de Azevedo e que terminaria quando ele se reformasse. Poucos anos ficou, pois não lhe agradava o trabalho e a Parkinson avançava lentamente. Depois da reforma em 24 de Outubro de 1986 é ainda convidado para director do Convento de Cristo, pois estava a escrever um livro sobre esse monumento. Tinha casa em Constância e os seus últimos anos activos foram inteiramente dedicados a esse trabalho que já não teve ocasião de publicar. Em 1990 faz 50 anos de casado ainda relativamente bem. A partir dessa data, a doença agrava-se, deixa de trabalhar e morre em Lisboa a 14 de Outubro de 1995, após internamento no Hospital Inglês. Está sepultado no cemitério de Constância.

Dos 2 aos 77 anos, as Ilhas Britânicas tiveram sempre muita importância em toda sua vida. Foi feliz, sempre trabalhou naquilo que gostava. Apreciado pelos seus colaboradores, que sempre respeitou, foi considerado por todos e nunca se serviu dos amigos para subir na carreira.

Tinha duas paixões na sua vida, a Música e a História de Arte. De uma vasta cultura, era modesto e não gostava de dar nas vistas, mas nas suas lições, nas suas palestras, nos artigos e livros que escreveu, deu a conhecer a sua qualidade intelectual - granjeou grande prestígio. Realizou-se plenamente, foi um bom marido, um bom pai e um óptimo avô.

A paixão pela música antiga levou-o a adquirir em 1960 um cravo Neupert. Matricula-se no Conservatório Nacional no curso de Maria Malafaia e aprende a tocar cravo. Tempos depois, com mais conhecimentos técnicos, vende o seu Neupert ao adido cultural americano Rod Horton, de quem é amigo, tem os mesmos gostos musicais e também toca flauta. Durante uma viagem em serviço que fez à Alemanha, escolhe e encomenda na fábrica outro cravo, um Neupert Händel, de maiores dimensões. Também gosta de tocar órgão e interessa-se por esse instrumento, facto que o leva a escrever e publicar um livro com o título Baroque Organ-Cases of Portugal.

Percorreu o país fotografando e colhendo elementos sobre vários instrumentos para a edição daquele livro, tocando até em órgãos de algumas das igrejas que visitou. Como pertencia à Comissão de Arte Sacra, levava consigo uma credencial passada pelo Patriarcado de Lisboa e o seu contacto com os párocos foi-lhe extremamente facilitado. Entre os elementos que colheu sobre os órgãos históricos que investigou sob o ponto de vista artístico exterior, dá fé pela primeira vez no âmbito da organaria ibérica, da existência de um género de instrumento regionalizado a que hoje se chama propriamente o órgão português.

Em Lisboa, onde todos o conheciam no meio artístico, tocou especialmente em S. Vicente de Fora que tem um dos mais famosos órgãos do país. Conheceu os organeiros portugueses da altura com quem trocou impressões quanto a restauros, etc. Era amigo do conhecido e célebre organista americano Edward Power Biggs.

Em 1972, muda de casa e vai viver para a zona das Amoreiras. O apartamento é maior mas o espaço para um piano e um cravo não é suficiente. O prédio é seu, faz obras mas não consegue espaço para os dois instrumentos. Teve então de optar e escolheu ficar com o Bechstein, instrumento oferecido pelo seu pai, vendendo o Neupert ao Conservatório Nacional. Restou-lhe então para tocar, o seu piano e… o órgão da Igreja de S. Vicente de Fora.


Além de inúmeros artigos publicados em revistas, Carlos de Azevedo deixou os seguintes livros que escreveu e foram editados durante a sua vida:

1. ARTE CRISTÃ NA ÍNDIA PORTUGUESA. Junta de Investigação do Ultramar. Lisboa, 1959.

2. FORT JESUS AND THE PORTUGUESE IN MOMBASA, 1593 - 1729. Escrito em co-autoria com Charles Boxer. Hollies & Carter. London, 1960.

3. A FORTALEZA DE JESUS E OS PORTUGUESES EM MOMBAÇA. Em co-autoria com Charles Boxer. Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. Lisboa, 1960.

4. MONUMENTOS E EDIFÍCIOS NOTÁVEIS DO DISTRITO DE LISBOA. Quatro volumes em colaboração com Adriano Gusmão e Julieta Ferrão. Junta Distrital de Lisboa, 1962-1965.

5. SOLARES PORTUGUESES. Livros Horizonte. 1963.
2ª edição. Livros Horizonte. 1988.

6. A ARTE DE GOA, DAMÃO E DIU. Edição da Comissão Executiva do V Centenário do nascimento de Vasco da Gama. 1970.
2ª edição. Pedro de Azevedo. Lisboa, 1992.

7. BAROQUE ORGAN-CASES OF PORTUGAL. Fritz Knuf n. v. Amsterdam, 1972. Refª ISBN 90 6027 238 2.

8. CHURCHES OF PORTUGAL. Scala Books. New York, 1985.

9. IGREJAS DE PORTUGAL. Círculo de Leitores. 1985.


Agradecimentos

Colaboraram na compilação desta biografia, a minha irmã Maria Teresa Falcão de Azevedo, viúva de Carlos de Azevedo (com a cedência de manuscritos elaborados por ela), seu filho e meu sobrinho, Pedro Falcão de Azevedo, o mestre organeiro Dinarte Machado, a minha filha Maria Antónia Lino Neto Falcão e o meu irmão João Mascarenhas Falcão.

Francisco Mascarenhas Falcão

Lisboa, Março de 2004

 
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