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Alfredo Teixeira
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ENTREVISTA

CÂNDIDO LIMA

Cândido LIMA, portuguese composer

1. A música acompanhou-o sempre, mesmo no seminário de Braga e no serviço militar. Qual a noção que tem dessa importância da música na sua vida?

Foi longa essa experiência, plena de histórias de toda a natureza. Tive de vencer toda a espécie de obstáculos para sobreviver como pessoa e como músico. Foram sistemas criados, não para proteger ou acolher artistas, mas para proteger ideologias, onde as artes poderiam aparecer com um epifenómeno. A música, entendida como um centro de gravidade da natureza de um indivíduo, era um intromissão num e noutro sistemas; a música constituía, como arte, uma aberração da natureza, contaminando a ordem e os princípios dos sistemas.

 

2. Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era fundamental para si?

Foi na idade de 16 anos quando me perguntava como se fazia música. Tentei ter lições de harmonia, mas não havia profissionais nesse tempo para me poderem ajudar. Mas a música praticava-a na infância, vivida na aldeia, onde todos os sons do mundo inundavam campos, montes, vales, riachos, rios, céus e oceanos. E a família de cantadores e de tocadores.

 

 3. Que professores foram mais marcantes na sua vida?

Foram tantos, de música e de outros domínios, que tenho dificuldade em citar um ou alguns apenas. Distingo dificilmente professores de solfejo, de harmonia ou de composição de professores de filosofia e de ciências, em Portugal e no estrangeiro. Por outro lado, convivi com individualidades que, não sendo professores, me marcaram mais do que professores propriamente ditos: maestros de coro, compositores contemporâneos europeus.

 

4. Chegou a ser seminarista. Essa experiência foi para si potenciadora ou limitadora enquanto músico?

Dessa presença liceal e religiosa ficaram-me memórias nulas dos primeiros quatro anos, mas não sei bem explicar porquê: era uma espécie de the other side of the moon, até muito recentemente, quando me começaram a questionar sobre as minhas origens de músico. Isso levou-me à infância e à família de músicos dos campos e das liturgias da igreja da terra e aos tempos de adolescência de solfejo. A experiência nesses tempos de estudos liceais  (o religioso praticava-se, não se estudava) foi ao mesmo tempo limitadora, potenciadora e aniquiladora. Seria longa e fastidiosa a explanação desta afirmação.

 

5. A experiência como organista, na Sé de Braga e na igreja de São João de Deus em Lisboa, foi importante?

Foi sobretudo a função de organista mor da Igreja de Santiago e da Sé Catedral de Braga  que me permitiu, numa dimensão profundamente assumida, clandestinamente, de auodidacta, desenvolver em várias direcções técnicas musicais, sobretudo de pianista e de organista que, futuramente, iriam ser determinantes na minha actividade como compositor e como professor.

 

6. Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?

Não vejo qualquer papel da igreja na minha vida musical, já que tudo se processou à margem das normas e das orientações, assumindo toda a liberdade à margem das estruturas existentes e, na idade de jovem, na programação de organista, fora o repertório litúrgico da comunidade do povo e dos estudantes (era um igreja destinada a públicos híbridos: para o povo e para os estudantes). Da hierarquia familiar (mãe) e religiosa (abade, chamado de reitor, naquela aldeia), a música como ocupação nuclear era interdita e completamente fora de todas as normas regulamentares das estruturas rurais e urbanas.

 

7. Considera-se um pioneiro da música contemporânea na Televisão Portuguesa? Quem incluiria nesse grupo pioneiro?

Penso que os meus programas na televisão foram uma pedrada no charco, pois apresentava obras e compositores que ninguém tinha apresentado antes, além de se misturarem expressões distantes umas das outras, como música erudita, música pop, rock, etc.. Da primeira, da erudita, ia da música medieval até à música contemporânea, não como um rebuçado para os telespectadores, mas como fazendo parte da ementa principal da programação, sobretudo nas séries Sons e MItos, Fronteiras da Música e No ventre da Música de 1978 a 1983.

 

8. Como vê o serviço público na Rádio e Televisão, no que se refere à música erudita?

Há uma ausência gritante de músicos e de música eruditos em todos os canais. Houve tempo em que clássicos tinham séries a eles dedicadas. De vez em quando há manifestações de presença, mas ou em pouca quantidade, ou a música abordada de uma forma superficial e demagógica, como em alguns casos antigos.

 

9. O que acha do contributo dado à música em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian?

Tenho uma dívida que nunca pagarei, nem moralmente, nem à Fundação Gulbenkian, nem aos seus Serviços de Música, o país tem uma dívida infinitamente colossal, passe a redundância, para com a Fundação Gulbenkian que, por isso mesmo, foi sempre considerada “um Estado dentro de outro Estado”, sobretudo antes de 25 de Abril de 1974.

 

10. Tendo participado nas reformas do ensino nas décadas 70-90, o que lhe parece a situação atual do ensino da música?

Participei em reformas desde a Experiência Pedagógica e tive de me confrontar com a desordem, com o caos, com a irresponsabilidade, com a corrupção, com os oportunismo de todo o tipo de pessoas, de todos os agentes do ensino. Senti-me verdadeiramente um D. Quixote contra grupos lisboetas e os seus seguidores ao longo do país. Cheguei a falar, em dado momento, em “tempos de barbárie”. As coisas boas proliferaram com coisas más, e dessa mistura deixo a quem me ler a liberdade e a lucidez de ver o que vigorou, cresceu e se cimentou no “satus quo” dos últimos anos.

 

11. É difícil ser pianista em Portugal?

Sou também pianista, mas essa pergunta tem de ser feita a concertistas, a estudantes de piano, a professores de piano, a participantes em concursos, etc. Uns dirão que não é difícil, os poucos que podem subsistir, vivendo como concertistas. Mesmo esses, conciliam essa actividade com a actividade docente, Mas, como em outros instrumentos, não há muitos espaços, num país tão pequeno, para que os instrumentistas possam subsistir enquanto executantes e intérpretes. Em piano, nem as orquestra poderão ser uma saída profissional os pianistas, como, conjunturalmente, alguns instrumentistas o podem. Quase todos se acantonam no ensino em disciplinas várias, tantas vezes fora das suas zonas de conforto, isto é, à margem do curso em que se diplomaram.

 

12. Quais lhe parecem as maiores dificuldades e vantagens que se colocam hoje aos compositores portugueses na atualidade?

As dificuldades para um compositor dependem de como o compositor se posiciona enquanto artista: se como criador, se como reprodutor, se independente, se dependente dos padrões de escuta e padrões culturais de quem o ouve e de quem o julga. As vantagens, no plano da sua presença junto do público e dos poderes privados ou de Estado, provém disso mesmo, de se manter incólume a valores éticos ou morais não condizentes com a integridade intelectual e integridade ética, ou pactuar com processos de divulgação e de patrocínio que vão contra princípios por que se deverão reger indivíduos e instituições.

 

13. Qual foi a maior deceção musical na sua vida?

Tive várias decepções musicais na minha vida, mas como guardo só as coisas  boas da vida, as más ficaram enclausurados no tempo, cristalizadas em cantos ocultos da memória, e só saem de lá, para sorrir e para comparar com o que de bom existiu. E se mo perguntam…

 

14. Qual foi, até à data, o momento mais alto da sua carreira?

Tive tantos que não posso senão evocar alguns locais onde foram estreadas algumas obras: Fundação Gulbenkian, Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, Teatro Rivoli, no Porto, Casa da Música, Póvoa de Varzim, Mosteiro dos Jerónimos (Festival Música Viva). E tantos factos relevantes que vão muito além da minha actividade de compositor. Mas nada disto ocorreu no interior daquilo a que se chama carreira: aconteceu à margem de paradigmas convencionais da vida artística ou académica. Aconteceu, naturalmente, sem pensar nesse paradigma, antes no interior do homem. É semelhante a uma carreira, mas não é carreira.

 

 15. Quais foram os compositores que mais o marcaram e inspiraram?

Da música grega e do canto gregoriano a Machaut e a Pierre Boulez, de Bach a Xenakis, de Beethoven a Stockhausen, de Debussy a Messiaen, e tantos e tantos. Músicas do mundo envolveram-me desde muito cedo e sem dúvida, discretamente, sonoridades da música pop, cruzando-se com mecanismos intervalares e harmónicos de músicas eruditas e de músicas de tradição popular. São infinitos os locais e gentes que me informaram desde sempre.

 

16. Há músicos portugueses que tenham influenciado especialmente a sua carreira?

Há música tradicional portuguesa que tenho introduzido em algumas das minhas obras. Da música erudita não encontro fontes, senão as mesmas que influenciaram todos os músicos portugueses, da Idade Média e da Renascença, dos clássicos aos românticos, dos modernos aos contemporâneos.

 

17. O que acha da evolução da música em Portugal?

Os chamados pós-modernos subverteram e eliminaram os caminhos abertos pelos grandes transformadores da linguagem musical, aqueles que exprimiram mudanças de pensamento musical em obras imortais. A música, entendida como uma arte aberta, como uma arte em transformação, projecção e evolução, características específicas da música ocidental, desapareceu, para muitos, em Portugal. Há mundos opostos, mais do que nunca, entre manifestações e práticas, da criação propriamente dita aos critérios de difusão e divulgação por parte das instituições.

 

18. O que pensa do papel da música na igreja?

Sou indiferente a esta questão, ainda que, como observador do fenómeno religioso e observador das práticas religiosas, desde sempre, tenha dúvidas se os que adoram Deus, e O servem como músicos, o fazem devidamente através da música compatível com o Objecto dessa adoração, ou se o fazem, medíocre e pomposamente para se glorificarem a si mesmos.

 

 19. Quais os compositores que ouve mais?

“De toda a música”, foi uma rubrica que mantive durante ano e meio no Programa da Manhã” de Júlio Montenegro, na Antena 1 da RDP. A resposta está ali , naquele título e na actividade múltipla que tenho exercido ao longo de décadas nos mais diversos lugares, instituições académicas e meios de comunicação audiovisual: rádio, jornais e televisão. No meio dos milhões de neurónios do meu cérebro cabem todas as músicas da Terra, e agora, com os meios tecnológicos ao nosso dispor, como a Internet, o campo de observação e de fascínio de todas essas músicas estão ao alcance de um gesto e de um olhar.

 

20. Em três adjetivos, como se caracteriza a si mesmo?

Íntegro, tolerante, optimista

 

Porto, 6 de Agosto de 2017

Cândido Lima

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