MÚSICA E POESIA |
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5º Andamento do Concerto para violino de Karl Fiorini, Rotterdam Sinfonietta, Emanuel Salvador, violino, Roberto Beltran, maestro. Gravação ao vivo. |
Os mansos sons, vogais, bem definidos
Pelos duros ruídos criadores,
Produzem sinfonia, que os cantores
Espalham, pura e bela, em teus ouvidos.
Se saires ao campo, são as flores;
Se fores ao mar, os gestos repetidos;
Na mata, são os melros foragidos:
Vão cantando sem plano, nem temores.
E se ouvires cantar cantora estranha,
A gralha negra, a bela cotovia,
E, no meio de tudo, a linda azenha,
Colhe os maduros grãos dessa alegria,
Faz que a farinha mais depressa venha
E com ela brindemos à harmonia.
Manuel Aguiar (dedicado a António José Ferreira)
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CITAÇÕES MUSICAIS DE POETAS |
Inúmeras, as aves voavam
sobre a sua cabeça
e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
ao som do seu belo canto.
Simónides (Séc. VI-V a.C.)
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Quando soam as cordas
do seu instrumento,
doces e suaves,
então dissolvem-se as dores de quem sofre.
Da epopeia dos Nibelungos (c. 1200)
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O que me dá prazer não é o vinho, não!
Nem tão pouco a música, nem sequer o canto.
Apenas os livros são o meu encanto
e a pena: a espada que tenho sempre à mão.
Al-Kutayyir (séc. XIII)
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Nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-te neste arvoredo,
à memória consagrada.
Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
p'ra onde estáveis correndo,
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir.
Luís de Camões (n. Lisboa? 1524/1525; m. Lisboa 10 Junho 1580)
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Naquele canto decadente no meio das montanhas
Sob o pálido luar, a erva canta
Sobre as tumbas caídas, em volta da capela.
A capela está vazia, apenas refúgio do vento.
Não tem janelas e a porta bate,
Ossos secos não fazem mal a ninguém.
Sobre o telhado apenas um galo
Cocoricó, cocoricó,
Sob a luz do relâmpago.
T. S. Eliot (n. St. Louis, 1888; m. London 1965)
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Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som.
Alfredo Pedro Guisado (n. 1891; m. 1975)
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Tem a música o poder
de tornar o homem f'liz
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz.
António Aleixo (n. Vila Real de Santo António 1899; m. 1949)
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Sofres?
Respira.
Não há outra lira.
José Gomes Ferreira (n. Porto 1900, m. Lisboa 1985)
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Quando fiz a primeira comunhão, aos dez anos, pensava que no céu a maior felicidade era cantar, dançando.
Leopold Senghor (n. Joal, Dacar 1906; m. França 2001)
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Com que canção deverei cantar-te, minha mãe?
Perguntei.
Deverei cantar
Os Himalaias com os seus cumes nascidos da neve,
Os três mares que banham a palma da tua mão?
Deverei cantar
A aurora clara com os seus raios de ouro puro?
Disse a Mãe imperturbável, calma:
Canta o mendigo e o leproso
Que enchem as minhas ruas.
Vinayak Krishna Gokak (n. Índia 1909; m. 1992)
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Tem de lançar-se alto e mais alto ainda
De galáxia em galáxia,
Arrancar às estrelas as suas notas momentâneas
Roubar música à lua.
Dorothy Livesay (n. Canadá 1909; m. 1996)
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O seu canto ecoava de uma ponta à outra
da escuridão sob uma árvore batida pelo vento
onde reluziam as asas de pequenos insectos.
O seu canto fendeu o céu em dois.
Elizabeth Bishop (n. EUA 1911; m. 1979)
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Vulgar, ligeira, música sem nome,
adoecida num rascante falso
de orquestração pedante e requebrada,
tão apelante para o sentimento
e a fácil lágrima pi-rí-pi-rí-
mas em momentos de abandono é como
lubrificante cuspo que, secreto,
faz deslizante n'alma até ao fundo
o membro imenso de aturar-se a vida.
Depois, mesmo sem música, já está,
e a fêmea humana de aceitar-se a dor
até que as pernas junta de prazer
lembrando a melodia oleante e fluida,
vulgar, ligeira, música sem nome.
Jorge de Sena (1971) (n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)
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Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia.
Sophia de Mello Breyner Andresen (n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)
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Estava feito. Enrolando as mangas
Pegou na flauta
E ao caminhar para o local da execução
Tocou uma nova melodia.
Rosemary Dobson (n. Austrália 1920)
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Canto porque sou homem.
se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.
Eugénio de Andrade (n. Póvoa da Atalaia, Fundão 1923)
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Junto aos rios de Babilónia
Estamos sentados e choramos
Ao lembrar-nos de Sião.
Ao olhar o arranha-céus de Babilónia
e as luzes reflectidas no rio
as luzes dos night-clubs e dos bares de Babilónia
e ao ouvir suas músicas
E choramos
Nos salgueiros da margem
Penduramos nossas cítaras
Dos salgueiros chorosos
E choramos.
Ernesto Cardenal (n. 1925)
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Se perguntares à música
que tem para dizer,
imagens ou prodígios
a emoção mais real,
viverás bem no fundo
com o ser todo inteiro
o consolo, as respostas.
Viverás muitas vidas
ricas como tesouros.
E então, dentro de ti
Com alimento e cor
dirás um obrigado
mesmo que seja à dor.
Adelina Caravana Rigaud
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Quando canto, torno-me canção,
quando escrevo torno-me poema,
quando vos digo: amo-vos,
torno-me o verbo amar
em todos os tempos.
Georges Dor (n. Drummondville 1931; m. 2001)
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De Deus não sei. Mas quase creio
que Deus poisou nas mãos cheias de terra
de um jovem camponês de Sotto il Monte.
Por isso mando à Praça de São Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana bênção
João XXIII: avô do século.
Manuel Alegre (n. Águeda, 1936)
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