MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
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2003-2008
> CITAÇÕES
PRINCIPAL VIOLINISTA VERDE, de Chagall NIETZSCHE, de Klee DANÇA DO TEMPO, de Poussin VIOLINO VERMELHO, de Boban
 
MÚSICA E POESIA
5º Andamento do Concerto para violino de Karl Fiorini, Rotterdam Sinfonietta, Emanuel Salvador, violino, Roberto Beltran, maestro. Gravação ao vivo.

Os mansos sons, vogais, bem definidos
Pelos duros ruídos criadores,
Produzem sinfonia, que os cantores
Espalham, pura e bela, em teus ouvidos.

Se saires ao campo, são as flores;
Se fores ao mar, os gestos repetidos;
Na mata, são os melros foragidos:
Vão cantando sem plano, nem temores.

E se ouvires cantar cantora estranha,
A gralha negra, a bela cotovia,
E, no meio de tudo, a linda azenha,

Colhe os maduros grãos dessa alegria,
Faz que a farinha mais depressa venha
E com ela brindemos à harmonia.

Manuel Aguiar (dedicado a António José Ferreira)

CITAÇÕES MUSICAIS DE POETAS

Inúmeras, as aves voavam
sobre a sua cabeça
e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
ao som do seu belo canto.

Simónides (Séc. VI-V a.C.)

Quando soam as cordas
do seu instrumento,
doces e suaves,
então dissolvem-se as dores de quem sofre.

Da epopeia dos Nibelungos (c. 1200)

O que me dá prazer não é o vinho, não!
Nem tão pouco a música, nem sequer o canto.
Apenas os livros são o meu encanto
e a pena: a espada que tenho sempre à mão.

Al-Kutayyir (séc. XIII)

Nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-te neste arvoredo,
à memória consagrada.
Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
p'ra onde estáveis correndo,
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir.

Luís de Camões (n. Lisboa? 1524/1525; m. Lisboa 10 Junho 1580)

Naquele canto decadente no meio das montanhas
Sob o pálido luar, a erva canta
Sobre as tumbas caídas, em volta da capela.
A capela está vazia, apenas refúgio do vento.
Não tem janelas e a porta bate,
Ossos secos não fazem mal a ninguém.
Sobre o telhado apenas um galo
Cocoricó, cocoricó,
Sob a luz do relâmpago.

T. S. Eliot (n. St. Louis, 1888; m. London 1965)

Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som.

Alfredo Pedro Guisado (n. 1891; m. 1975)

Tem a música o poder
de tornar o homem f'liz
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz.

António Aleixo (n. Vila Real de Santo António 1899; m. 1949)

Sofres?
Respira.
Não há outra lira.

José Gomes Ferreira (n. Porto 1900, m. Lisboa 1985)

Quando fiz a primeira comunhão, aos dez anos, pensava que no céu a maior felicidade era cantar, dançando.

Leopold Senghor (n. Joal, Dacar 1906; m. França 2001)

Com que canção deverei cantar-te, minha mãe?
Perguntei.
Deverei cantar
Os Himalaias com os seus cumes nascidos da neve,
Os três mares que banham a palma da tua mão?
Deverei cantar
A aurora clara com os seus raios de ouro puro?
Disse a Mãe imperturbável, calma:
Canta o mendigo e o leproso
Que enchem as minhas ruas.

Vinayak Krishna Gokak (n. Índia 1909; m. 1992)

Tem de lançar-se alto e mais alto ainda
De galáxia em galáxia,
Arrancar às estrelas as suas notas momentâneas
Roubar música à lua.

Dorothy Livesay (n. Canadá 1909; m. 1996)

O seu canto ecoava de uma ponta à outra
da escuridão sob uma árvore batida pelo vento
onde reluziam as asas de pequenos insectos.
O seu canto fendeu o céu em dois.

Elizabeth Bishop (n. EUA 1911; m. 1979)

Vulgar, ligeira, música sem nome,
adoecida num rascante falso
de orquestração pedante e requebrada,
tão apelante para o sentimento
e a fácil lágrima pi-rí-pi-rí-
mas em momentos de abandono é como
lubrificante cuspo que, secreto,
faz deslizante n'alma até ao fundo
o membro imenso de aturar-se a vida.
Depois, mesmo sem música, já está,
e a fêmea humana de aceitar-se a dor
até que as pernas junta de prazer
lembrando a melodia oleante e fluida,
vulgar, ligeira, música sem nome.

Jorge de Sena (1971) (n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia.

Sophia de Mello Breyner Andresen (n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)

Estava feito. Enrolando as mangas
Pegou na flauta
E ao caminhar para o local da execução
Tocou uma nova melodia.

Rosemary Dobson (n. Austrália 1920)

Canto porque sou homem.
se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Eugénio de Andrade (n. Póvoa da Atalaia, Fundão 1923)

Junto aos rios de Babilónia
Estamos sentados e choramos
Ao lembrar-nos de Sião.
Ao olhar o arranha-céus de Babilónia
e as luzes reflectidas no rio
as luzes dos night-clubs e dos bares de Babilónia
e ao ouvir suas músicas
E choramos
Nos salgueiros da margem
Penduramos nossas cítaras
Dos salgueiros chorosos
E choramos.

Ernesto Cardenal (n. 1925)

Se perguntares à música
que tem para dizer,
imagens ou prodígios
a emoção mais real,
viverás bem no fundo
com o ser todo inteiro
o consolo, as respostas.
Viverás muitas vidas
ricas como tesouros.

E então, dentro de ti
Com alimento e cor
dirás um obrigado
mesmo que seja à dor.

Adelina Caravana Rigaud

Quando canto, torno-me canção,
quando escrevo torno-me poema,
quando vos digo: amo-vos,
torno-me o verbo amar
em todos os tempos.

Georges Dor (n. Drummondville 1931; m. 2001)

De Deus não sei. Mas quase creio
que Deus poisou nas mãos cheias de terra
de um jovem camponês de Sotto il Monte.
Por isso mando à Praça de São Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana bênção
João XXIII: avô do século.

Manuel Alegre (n. Águeda, 1936)

 
   
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira