Suite, op. 1 (1979), para piano (Braga, Auditório Adelina Caravana do Conservatório Calouste Gulbenkian, 03-06-1980)
Intermezzo, op. 2 (1980), para violoncelo e piano (Braga, Auditório Adelina Caravana do Conservatório Calouste Gulbenkian, 03-06-1980)
Ostinati, op. 3 (1980), para dois pianos (Porto, Teatro Rivoli, 27-10-1991)
Post-Mortem, op. 4 (1981), para piano (Braga, Salão Nobre do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, 13-05-1999)
Sonata Heróica, op. 5 (1983), para duas flautas (França, Limoux, Igreja Matriz de S. Martinho, 31-10-1983)
Sinfonia Nº 1, Um Poema segundo Emily Dickinson, op. 6 (1983), para orquestra (-)
Sonata Arcádica, op. 7 (1987), para violino solo (Canadá, Winnipeg, Eva Clare Hall, 30-10-1988)
Sonata, op. 8 (1988), para flauta solo (Porto, Salão Nobre da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 27-08-1997)
Prelúdio, op. 9 (1989), para órgão (Porto, Sé, 05-08-1990)
O Eterno-Feminino, op. 10 (1992), ciclo de três canções para soprano e orquestra (Porto, Igreja do Mosteiro de S. Bento da Vitória, 24-06-1994)
Cantabile, op. 11 (1993), para clarinete solo (-)
Trio, op. 12 (1994), para violino, violoncelo e piano (-)
Canticum Canticorum, op. 13 (1995), oratório bíblico para soprano, tenor, coro feminino e órgão (Porto, Igreja da Lapa, 09-05-1999)
Dido Abandonada, op. 14 (1996), cantata para coro misto a cappella (-)
Sinfonia Nº2, Trágica, op. 15 (1998), para orquestra (-)
Sonata, Op. 16 (1999), para flauta e piano (2º e 4º andamento: Porto, Salão Vianna da Motta do Conservatório de Música, 16-11-2000)
Inês, op. 17 (1999), ciclo de quatro canções para soprano e piano (-)
Inês, op. 17a (2001), ciclo de quatro canções para soprano e septeto (flauta, clarinete, harpa e quarteto de cordas) (Alcobaça, Pavilhão Gimnodesportivo de Alcobaça, 15-05-2004)
Inês, op. 17b (2004), ciclo de quatro canções para soprano e orquestra (-)
O Sono do João, op. 18 (2001), cantata para coro infantil e piano (Porto, Teatro Helena Sá e Costa, 22-05-2004)
Sonata, op. 19 (2002), para guitarra (-)
Só, op. 20 (2002), ciclo de cinco canções para tenor e piano (-)
Viagens na Minha Terra, op. 21 (2004), cantata para tenor e orquestra (-)
10 de Julho de 2004
PERSPETIVAS DO COMPOSITOR SOBRE OBRAS SUAS



CANTICUM CANTICORUM
Quando um compositor decide utilizar determinada obra literária na composição de uma peça vocal, raramente lhe acontece que o texto oportuno tenha a elevada qualidade literária da novíssima tradução latina da Bíblia, o que é tanto mais aparente quanto maior foi a preocupação artística do autor do trecho bíblico isolado.
O "Canticum Canticorum Salomonis", livro cujo intenso valor artístico de origem recorda o princípio levítico de que a Deus só se pode oferecer perfeição, não pode deixar o latinista indiferente perante a virtuosidade literária e a sensibilidade artística do seu actual tradutor, que conseguiu, com linguagem belíssima, transmitir limpidamente o espírito e o carácter do texto inicial.
A atitude do músico perante o texto verbal escolhido para a sua obra, é determinada pelo domínio expressivo que ele tenha conseguido atingir e pela utilização que faça da inquestionável liberdade que caracteriza todo o acto de criação artística, por isso a palavra tanto pode ser utilizada como mero suporte silábico das notas a produzir pelo cantor, como pode o compositor musical atender ao seu significado e, neste caso, através das características próprias da música e da psicologia do ouvinte, acentuar, dissimular ou modificar a ideia que a verbalidade transmite.
Perante o texto bíblico presente, cristalino de sentido, transcendente em associações ideológicas, rico de teor dramático, o compositor desta obra musical buscou acompanhar as subtilezas linguísticas e deixar que o drama passasse com a máxima clareza.
Historiador profissional, formado na Universidade do Porto, e músico virtuose laureado com primeiro prémio por unanimidade pelo Conservatório de Genebra, o autor, ciente de que a música é um meio de criação artística dotado hoje de vasto património científico e técnico, trabalha com entusiasmo para apreender a herança recebida e promover o seu enriquecimento, tendo em mente que, como ensinou o filósofo, a arte não é liberdade, não é pureza, não é inocência, a arte é libertação, purificação, é tornar-se inocente.
Nota do programa da estreia, realizada no Porto, na Igreja da Lapa, em 9 de Maio de 1999. Concerto de encerramento das comemorações na região norte dos 900 anos da Ordem de Cister.



ALLEGRO SCHERZANDO E ALLEGRO GIOCOSO
Os dois andamentos rápidos da Sonata para flauta e piano fazem parte de uma obra extensa cuja globalidade resulta da evolução epifânica de um elemento musical simples. Peça por demais representativa da obra do seu autor, esta Sonata inclui mais de vinte anos de pesquisa técnica e reflexão filosófica, de um músico e historiador para quem ciência, devir e arte são elementos da realidade maior que é a natureza humana.



INÊS: DA IDEIA À REALIZAÇÃO
A composição de uma peça musical com canto, coloca o seu autor perante um conjunto de meios técnicos, que lhe permite conduzir com especial eficácia o significado do seu trabalho: à capacidade de transcendência inerente à música, junta-se a pluralidade do instrumento vocal e a especificidade das suas características em relação aos outros instrumentos. Por um lado, o cantor tem a possibilidade de cantar, de recitar e de declamar, sendo que cada uma destas três situações contém múltiplas cambiantes, que vão desde o muito cantado à declamação livre, passando pelo pouco cantado, pela recitação mais ou menos cantada, pela declamação com notação rítmica, e podendo a escrita ser mais ou menos silábica. Por outro lado, o papel confiado aos restantes instrumentos varia segundo a expressão pretendida para cada momento. Há ainda a ter em consideração o texto literário: o autor musical, ao idealizar a sua peça, atribui determinadas características à personagem vocal e procura, escreve, ou encomenda a outrem, o texto que as exprime.
Quando o Dr. Manuel Ivo Cruz me sugeriu a composição de uma peça que de algum modo tratasse temática inesina, optei por um ciclo de canções para soprano e piano, com versão posterior para soprano e septeto, onde a cantora personificasse a própria Inês de Castro, uma mulher que foi feliz e amou, que teve esperança, e que um dia morreu. Encontrei estas características na peça teatral Castro, de António Ferreira, seleccionando as passagens que definem a índole da personagem e, seguindo a lição do ilustre escritor, atribuí à obra de minha autoria um título expressivo da sua identidade temática: neste caso a individualidade humana, no outro a reflexão filosófica sobre o assassinato por razões de natureza política.



A PROPÓSITO DA SEGUNDA SUITE, POST-MORTEM
Quando um compositor musical ultrapassa a vintena de anos de vida profissional, tem à sua disposição um património realizado que lhe permite comparar e reflectir sobre o resultado do seu trabalho de forma satisfatoriamente documentada.
As duas Suites para piano fazem parte do grupo de obras que dão início à construção deste património pessoal.
A primeira, op. 1, composta no fim da década de setenta, quando o compositor concluía a licenciatura em História, na Universidade do Porto, tem atrás de si uma série de peças, hoje em dia fora de catálogo, cujo papel no desenvolvimento da técnica de redacção e pesquisa estilística inicial, foi de importância decisiva por terem permitido a primeira manifestação do que se veio a revelar ser o perfil estilístico do autor, e que é esta Suite nº 1.
A Suite nº 2 foi composta em Genebra, em 1981, quando o compositor concluía o primeiro ano de frequência do Conservatório Superior de Música desta cidade suíça, e mostra a evolução técnica e o aprofundamento estilístico resultantes das aquisições conseguidas pelo acumular de obras compostas, solidamente enriquecidos pelo trabalho feito no Conservatório, o qual viria a ser concluído, dois anos mais tarde, com a obtenção de vários diplomas superiores, entre os quais o de Virtuosidade laureado com primeiro prémio por unanimidade.
Esta segunda Suite, dedicada ao eminente pianista alsaciano Daniel Spiegelberg, mestre pacientíssimo de leitura de partituras de orquestra e amigo nas horas difíceis, teve como pretexto psicológico para a sua existência, as sensações resultantes da fadiga provocada pela intensa actividade acabada de realizar e o redentor sentimento de vitória causado pelas consequências positivas que daí advieram. A partir deste pretexto, o compositor passou à composição da sua obra, orientando o trabalho por critérios de natureza especificamente musical, dando assim continuidade ao aprofundamento da ideia de progresso, conhecimento, reflexão e vontade de saber, que sempre o nortearam e são um fundamento moral da actividade científica e artística que professou.
Nota do programa do concerto de estreia, realizado em Braga, no Salão Nobre da Universidade do Minho - IEC, em 13 de Maio de 1999. Recital de homenagem a Maria Adelina Caravana, por Luís Pipa, piano, na abertura do I Encontro de História do Ensino da Música em Portugal.
CRÍTICA JORNALÍSTICA
UM NOVO COMPOSITOR SURGIU NO NOSSO MEIO
Braga está de parabéns. - Após ter ficado com a sua reputação pelas ruas da amargura com o triste "heroísmo" de um júri que se vinga numa aluna inerme, da sua própria ignorância de uma das obras fundamentais da literatura pianística, eis que pelo concerto do passado dia 3, o nosso conservatório veio a recuperar o sentido da sua dignidade. Tratava-se da apresentação de um jovem compositor de 24 anos - João-Heitor Rigaud - filho da fundadora do Conservatório, D. Adelina Rigaud de Sousa e neto de uma figura emérita do passado recente da urbe bracarense - o brigadeiro Caravana. Apresentou-lhe o programa o seu professor e ilustre compositor, Fernando Correia de Oliveira e executaram-lhe as obras os professores do mesmo estabelecimento Maria de Lourdes Álvares Ribeiro, Maria José de Sousa Guedes, Maria Teresa Xavier, Jaime Mota, Natália Clara, Madalena de Sá e Costa e A. Cunha e Silva. Belo espectáculo este, o de ver uma plêiade de professores, como esta, a valorizar a obra de um aluno - eis porque dizíamos que o Conservatório recuperou a sua dignidade. Mas vamos ao principal - o compositor.
Tanto pelo número das obras apresentadas como pela sua qualidade vimos diante de nós um jovem tocado pela centelha divina da inspiração musical.
Logo de entrada, a peça L'Harmonie, que pode ser definida como um estudo sobre um acorde (o de 9.ª), nos dava a ideia de um aluno para quem o estudo não era mero exercício de escola - tão agradável resultava na expressão, como estruturada no seu devir. Em Eno sagrad'? Uigo, não obstante todos os inconvenientes da audição gravada, deixou-nos a ideia de muito boa conjugação do canto com o piano. Surgiu-nos depois a Sonata para violino e piano - obra empenhativa, a que já só um verdadeiro compositor se pode abalançar. E não há dúvida que os dois andamentos enquadrantes da obra - o primeiro e o quarto - demonstram, além de notável poder construtivo, uma linguagem variada no ritmo e na temática, com algo de reflexos stravinsquianos, que lhe conferem um sentido objectivo de muito boa qualidade. Já não diremos outro tanto do Andante, que nos pareceu um pouco prolixo e do Scherzo, em que se notava uma certa ingenuidade no uso da escala violinística.
Mas, a obra que mais nos agradou, e que reputamos melhor reveladora do grande talento de João-Heitor, foram os seis pequeninos momentos musicais, como em jeito de prelúdios, epigrafados com o título de Studia de quadam indole, para piano. Aqui vieram ao de cima os dotes poéticos do compositor e a sua capacidade de forjar uma linguagem própria para a simbolizar. Usa, de facto, um certo atonalismo, mas que se traduz mais numa procura de timbres adequados à sua sensibilidade, do que na preocupação de aderir a qualquer técnica de escrita. Daí uma expressividade comunicante e eficaz, resultante ora da cantibilidade, ora do ritmo de base, ora de um som obsessivo de onde aquela coesão interior, que não deixa que a fantasia fique errando ocamente pelas paragens do informal. (Acrescentemos que não contribui pouco para esta nossa impressão a bela execução da pianista, Maria de Lourdes).
Menos espontâneo se nos afigurou o Improviso para violino solo, que diríamos antes estudo sobre um intervalo (o de 5.ª). Em compensação, a par do seu sentido da forma, João-Heitor faz aqui alarde da sua técnica instrumental (o compositor é também violinista), tendo porventura abusado das dificuldades de execução, sobretudo no referente às cordas duplas. Finalmente, no último número - Sol lucet omnibus - para violoncelo e piano, segundo o apresentador, entra em jogo a técnica da "harmonia simétrica", conceito original do professor Correia de Oliveira. Pareceu-nos a mais fantasiosa de todas, aparecendo o violoncelo como uma espécie de judeu errante através do campo dos sons ao qual, no entanto, em subtil e gracioso mini-ritmo de habanera conferia um mínimo de estabilidade. Numa palavra: poder criador e capacidade construtiva. Não há dúvida: temos homem.
Diário do Minho, 10/06/1980
Grand moment de joie musicale à Saint-Martin avec la Chorale des Vallées
[…]
Excellente soirée encore agrémentée par de talentueux musiciens, flûtistes et organiste: un grand moment que cet "Orphée" de Gluck, entre autre. Bref, l'événement musical a été créé par le comité local pour le tiers monde qui a en outre permis une première: la création de la "Sonata Eroica" écrite spécialement pour les deux flûtistes Anne Bernard et Jean-Christophe Dehan par João-Heitor Rigaud. Personne n'y croyait. Et pourtant ce concert exceptionnel à plus d'un titre avait attiré la foule… et quelques Limouxins.
Le Midi Libre, 02/11/1983
La sonate sacrée
Première mondiale, lundi soir, à Saint-Martin: La chorale des Vallées était là
Il a fallu une pacifique invasion des "néo-ruraux" pour s'apercevoir que l'église est aussi un lieu de genèse culturelle. C'est la plus belle salle que Limoux peut offrir dans le centre ville (et dans toute la ville). C'est un site ouvert où, lundi soir, la chorale des vallées invitait tout le public blanquetier pour une grande première. Et comme la générosité des choristes ne s'arrête pas en chemin, l'on est allé jusqu'au bout avec un somptueux duo flûte-orgue, le tout au bénéfice du tiers monde. Avouez quand même que parmi toutes ces propositions vous pouviez de toute évidence trouver une bonne raison d'avoir été lundi soir en la cathédrale Saint-Martin.
[…] Mais cette soirée était également réservée à l'exécution d'une grande première, l'ouverture mondiale de la "Sonata Eroica", de João-Heitor Rigaud, avec […] Anne Bernard et Jean-Christophe Dehan.
C'était grand, c'était beau mais un peu hermétique, avouons-le sans arrière-pensée, et réservé à une élite de grands amateurs. Ça bougeait un peu dans la salle, les enfants ont résisté vaillamment mais si le silence n'était pas très religieux (en pareil lieu pourtant), l'émotion était sincère et la communion n'était pas feinte.
Un bien beau moment de musique et nous devons remercier le groupe "Tiers Monde" d'avoir eu une si bonne initiative.
La Dépêche, 02/11/1983
Concert en l'église Saint-Martin: En haut de la gamme
[…]
Ensuite, Anne Bernard et Jean-Christophe Dehan, flûtistes, ainsi que Didier Blancho, organiste, interprétaient des œuvres de Bach, Gluck, Boismortier…
Un récital éclectique, au cours duquel ce trio de remarquables musiciens proposait aux spectateurs, une œuvre spécialement écrite pour cette soirée par João-Heitor Rigaud, intitulée "Sonata Eroica".
Un grand moment de ce concert qui s'est déroulé dans une ambiance très décontractée et bien dans l'esprit chaleureux des animations du groupe "tiers monde".
Une initiative à renouveler.
L'Indépendant, 02/11/1983