Crianças precisam de música

AS CRIANÇAS PRECISAM DE MÚSICA

por Wilfried Gruhn, Professor Jubilado de Educação Musica, Universidade de Música de Freiburg, Alemanha. Tradução do Inglês por Etelvina Pereira, Dra. 

1. Do ponto de vista neurológico, os primeiros anos da infância são cruciais para o desenvolvimento de ligações sinápticas no cérebro. É o que expressa em linguagem muito simples o provérbio alemão “Was Hänschen nicht learnt, lernt Hans nimmermehr.” (O que o Joãozinho não aprende, o João não aprenderá nunca”).

2. Contudo, não devemos sobrestimar esses primeiros anos (como referiu John Bruer no seu livro “The Myth of the First Three Years”, 1999). Não é que o João deixe de aprender numa idade mais avançada. O ser humano nunca acaba o seu processo de aprendizagem. É impossível abstermo-nos de aprender (não podemos não aprender) devido à plasticidade estrutural do cérebro. No entanto, é muito mais fácil aprender durante a flexível fase do seu desenvolvimento. Por isso, as faculdades mais importantes (tais como a posição vertical, o discurso verbal, o pensamento lógico, as operações formais abstractas etc.) desenvolvem-se nos primeiros anos de vida.

3. A aprendizagem baseia-se na plasticidade do cérebro que é mais intensa nos primeiros anos, mas que continua durante toda a vida. De uma perspectiva humana, neurobiológica, educacional e ética, a educação na infância é importante. As famílias e as pré-escolas (jardins de infância) são os primeiros e mais cruciais agentes a apresentar um ambiente rico e estimulante para a aprendizagem.

4. O desenvolvimento do cérebro é basicamente determinado pela sua disposição genética, mas a sua estrutura individual depende do seu uso. O cérebro desenvolve-se de acordo com o modo como o usamos. Todas as experiências são armazenadas no cérebro e influenciam a sua estrutura neural.

5. Descobertas recentes em pesquisa animal demonstraram que a privação emocional e a perda de contacto social têm um efeito negativo na estrutura profunda do cérebro, o que encorajou a “neuro-didáctica” devido ao impacto óbvio dos processos neurobiológicos no ensino e na aprendizagem. Situações tais como a hiperactividade e o síndroma de défice da atenção (ADS) referem-se a uma possível interacção entre o cuidado emocional e o desenvolvimento do cérebro. 

6. Este facto sustenta a exigência social e educacional para que se fortaleçam as famílias para os seus deveres educacionais de modo a que possam oferecer o melhor ambiente de aprendizagem possível às crianças. As pré-escolas e as escolas só podem apoiar mas não substituir o cuidado parental. A aprendizagem da música, tal como outras aprendizagens, requer interacção individual social e orientação informal.

7. A música desempenha um papel importante nos primeiros anos. De um modo muito particular, a prática musical activa processos rítmicos. A experiência do tempo e do espaço na infância é diferente da dos adultos. As crianças exploram o tempo e o espaço pelo peso corporal e fluidez do movimento, enquanto que os adultos sabem contar e medir. Assim, é óbvio e razoável que as crianças precisam de música como um meio de repetição rítmica e movimento estruturado. E respondem à música de uma forma muito sensata.

8. A música estimula o crescimento de estruturas do cérebro e liga muitas áreas cerebrais activadas. A prática musical requer uma óptima coordenação motora e melhora o círculo fonológico. Não é uma questão de ser processada no hemisfério esquerdo ou direito do cérebro, porque ela promove uma forte interligação e coerência dos dois hemisférios. Como demonstra o tratamento de crianças com implantes da cóclea, a música funciona como um estímulo altamente diferenciado para o cortex auditivo subdesenvolvido.

9. Pesquisas sobre aptidão musical demonstraram que todo o ser humano nasce com um determinado nível de potencial musical que detém o seu máximo grau imediatamente após o parto e não mais ultrapassará este nível. Sem qualquer estímulo informal, o potencial musical da criança irá diminuir e finalmente desaparecer. Por isso, é extremamente importante expor o cérebro a variados estímulos musicais de modo a que possa desenvolver representações musicais. A janela da aprendizagem para o cérebro musical abre-se numa idade muito precoce. Os pais e educadores devem ter como objectivo desenvolver o potencial que cada criança possui.

10. A aprendizagem musical começa na fase pré-natal – como referiu Kodály: A educação musical começa nove meses antes do nascimento – da mãe!) e continua informalmente depois do nascimento, dependendo das actividades musicais dos pais. As crianças aprendem música como aprendem a língua, i.e., não começam com gramática e teoria, mas com a prática. Desenvolvem um “saber como” antes do “saber sobre”. O conhecimento activo é a mais robusta representação do conhecimento musical. A necessidade vital da música facilita a aprendizagem por abordagens práticas. Assim, a música torna-se um meio natural de expressão e de comunicação.

11. Face ao exposto, uma organização internacional tal como a ISME (International Society for Music Education) é extremamente importante. Partilha a responsabilidade de facultar às crianças a melhor educação possível correspondendo às condições humanas gerais e às propriedades culturais individuais. 

A troca e interacção de diferentes culturas pode ser vista como o melhor meio de evitar o choque de culturas e de estabelecer uma simbiose pacífica no mundo global. As mais poderosas redes neurais e atitudes comportamentais desenvolvem-se durante a infância. Uma aquisição geral do conhecimento do mundo envolvente (que Donata Elschenbroich chama “Weltwissen” e “Weltfahrung”) governa os nossos sentimentos e pensamentos, a nossa prática e conhecimento. A educação musical desempenha o seu papel especial na educação das crianças. Realiza uma doutrina ética para apoiar e desenvolver um dado potencial ao máximo.

 

Artigo publicado a 6 de Outubro de 2003, no sítio da ISME (International Society for Music Education).

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