Parece-me que não tem sentido reclamar atenção para a música de hoje, frequentar cursos de composição, aulas de música e coisas do tipo para depois não assistir aos concertos quando eles acontecem. Este tipo de comportamento - aliás frequente - realiza na prática uma espécie de esquizofrenia entre o público e o privado.
Em privado somos compositores, estudantes de composição, estudantes de música, professores de música, queixamo-nos das más condições de trabalho nas escolas, da falta de apoio das rádios, da televisão, das instituições, de tudo e mais alguma coisa.
Em público não nos interessamos por nada a não ser que nos diga directamente respeito. E aqui entra a razão de ser de um áspero comentário feito por Harrison Birtwistle em 1987, em Roterdão, quando viu que na "Master Class" estavam muitos alunos para o ouvir falar que não tinham estado presentes no concerto com obras suas no dia anterior.
Fez uma pergunta: Quem é que vocês pensam que irá ouvir as vossas peças no futuro se agora vocês próprios não vão aos concertos dos colegas mais velhos?
Há ainda outro aspecto: a audição de um disco em casa não é comparável em termos de intensidade vivencial à presença física na sala de concertos onde o carácter mágico inerente ao ritual da "música a acontecer ali" é irrepetível. Se não se compreender isto nunca se saberá verdadeiramente o que é a música, nem a arte, nem sequer a vida...
Se este estado de coisas não for mudando, a falsidade do discurso corrente - e gasto - será cada vez mais evidente e a acusação de hipocrisia repetida por rotina adquirida não terá refutação possível. A hipótese da morte da música "contemporânea" e mesmo "clássica" será uma possibilidade real.
António Pinho Vargas
Abril de 2004