O Amor foi sem dúvida um dos temas tratado de forma intensa no final da Idade Média. Abordado tanto no âmbito profano como religioso, adquiriu neste último a forma de Amor Místico.
Monja e abadessa do convento beneditino de Disibondenberg e posteriormente fundadora e abadessa do convento de Rupertsburgo, a obra de Hildegard é um dos expoentes máximos deste tema.
Para Hildegard as virgens monjas são como esposas de Cristo. Invocamos-te agora, Esposo e consolador, que nos redimiste na cruz. Por teu sangue comprometidas, somos para Ti esposas, repudiando homem para te preferir a Ti, Filho de Deus.
Hildegard defende que a beleza e a graça feminina em si não são uma tentação diabólica. Santificadas pelos laços do matrimónio, a graça e a beleza são instrumentos de harmonia e fecundidade. Assim, tal como uma esposa pode e deve ornamentar-se para o seu esposo, também as esposas de Cristo o deverão fazer. Deste modo, encorajava as suas monjas a adornarem-se em determinados dias como princesas, oferecendo a Cristo a sua beleza em vez da sua penitência. Ó tão belos rostos. Em vós o Rei se deleitou quando vos conferiu todos os ornamentos celestes e vos transformou em jardim de delícias, com todos os perfumes inebriantes.
Também a Virgem Maria aos olhos de Hildegard não é tanto a mãe chorosa aos pés da cruz mas, uma mulher vestida de luz do sol, que triunfa sobre o velho dragão com um ceptro e diadema de dignidade real. Uma mulher bela e brilhante aos olhos de Deus. Quando o Pai do céu se deteve no brilho da Virgem, quis que nela encarnasse seu Filho.
Cristo aos olhos de Hildegard tem também algo de especial, não é um sofredor desarmado mas, que gera pathos poderoso, amante divino e uma espécie de herói das elegias anglo-saxónicas que ascende orgulhosamente à Cruz como se fosse um trono. Tu, fortíssimo leão, rompeste o céu para descer ao útero duma virgem e destruíste a morte para elevar à vida a cidade de ouro.
E difícil não exultar com a coragem desafiante de Hildegard aos costumes sombrios e à misoginia que a rodeavam. O seu conceito de comunidade feminina e a sua convicção de que as mulheres podem exercer poder de forma positiva, tornaram certamente a sua comunidade num dos locais mais fascinantes onde poderia ter vivido uma mulher dedicada à religião.
Filipa Taipina