MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
.
2003-2008
> ARTIGOS
PRINCIPAL VIOLINISTA VERDE, de Chagall NIETZSCHE, de Klee DANÇA DO TEMPO, de Poussin VIOLINO VERMELHO, de Boban
 
 
JORGE LIMA BARRETO
NOVA MÚSICA PORTUGUESA IMPROVISADA
por Jorge Lima Barreto

Num pequeno parêntesis e  confirmada a tendência multicultural, a  desterritorialização e o transnacionalismo da nova música  improvisada, podemos - apenas pela referência ao passaporte -  declinar alguns nomes nacionais, tendo sempre em conta que a  capilaridade estilística e o intercâmbio são apanágio desta acção  musical. Podemos, por ordem cronológica e desde os finais da década de 1960,  com a criação da Associação da Música Conceptual por J. Lima Barreto  e C. Zíngaro, até à hodierna e debutante cooperativa Granular,  alinhar algumas figuras relevantes da música portuguesa, artistas com  carreiras comprometidas no projecto da improvisação contemporânea,  num sector do experimental; todos foram de certa maneira  polinstrumentistas: sopro, corda, percussão, vocalismo; ou com  inclinações electroacústicas, concretistas e, recentemente,  informáticas, lap top, manipulção do computador tido com instrumento  musical e invenções de computer music; interarte & multimedia; auto-produtores e engenheiros do seu próprio som; relacionaram  improvisação musical com interacções artísticas e tecnológicas. (e.g. improvisação marchetada nas composições em Constança  Capdeville, a mais atenta ao fenómeno improvisacional, Jorge  Peixinho, Cândido Lima, António Sousa Dias, António Pinho Vargas,  Vitor Rua, Miguel Azguime, e.a.). Num carácter idiomático da música portuguesa, o guitarrista Carlos  Paredes é  facile princeps da improvisação, à qual se dedicou  generosamente.

Soslaiemos algumas discursividades improvisadas por intérpretes  classicistas (e.g. João Pedro Oliveira, órgão; A. Victorino D ´Almeida, piano; Pedro Carneiro, percussão; José Machado, violino,  e.a.); devaneios de conspícua qualidade pop/rock com inúmeros  proclamados heróis; ou improvisadores parajazzísticos em interlúdios  de improvisação total, do solo ao pequeno conjunto, aquando  declinaram momentaneamente a ortodoxia do jazz, i.e. os que viveram  em profundidade a ousadia do discurso sem restrições em situação de  registo fonográfico ou em concerto no âmbito da improvisação (e.g. os  contrabaixistas Jean Saheb Sarbib, Zé Eduardo, Carlos Barretto,  Carlos Bica; os sopradores Rão Kyao, Carlos Martins, Rui Azul,  Laurent Filipe; os pianistas A. Pinho Vargas, Mário Laginha, Manuel  Guimarães, o poliartista  Bernardo Sassetti, Pedro Burmester, e.a.; a  vocalista Maria João; os guitarristas José Peixoto, refinado; ou,  afins da multipista do rock, como Filipe Mendes, Flak,  Joel Xavier,  e.a.; os bateristas/ percussionistas Mário Barreiros, Acácio Salero,  José Salgueiro, e.a.).

Importantes improvisadores portugueses aqueles que conheceram mais  internacionalizações, em interacções qualitativas e quantitativas e  participaram em realizações de decisão e intervenção originais como  compositores/intérpretes, arautos de agrupamentos heterónimos, mesmo  em criações inéditas e consideradas pela História da Música  Contemporânea. (e.g. o mirífico C. Zíngaro, violino, arranjo, electronics,  computação, primus inter pares; Zíngaro foi um dos propaladores da  pósmodernidade e, na sua carreira apocalíptica, considerou as mais  diversas acções, interarte, multimedia e cibernética; Jorge Lima  Barreto, piano, teclados & ready made, multiface; o Plexus, ensemble  poliscópico dirigido pelo Zingaro; a Anar Band, radicalismo e  performarte, coordenada pelo autor; Carlos Bexegas, indómito e  prospectivo em flauta & electronics; Emanuel Dimas de Melo Pimenta,  informática, sound design; Melo Pimenta consagrou-se a nível  internacional pelo seu posicionamento cageano, pela recherche em  música virtual, numa notável actividade poética multimedia e em  coordenações informáticas; interarte, instalação ambiental,  arquitectónica; Telectu, duo semafórico, tapeçaria de experiências,  heterofonia, poliestilistismo; Vítor Rua, carismático in situ,  guitarra, improvisaçãoe struturada, arranjo, computação, electronics,  interarte e multimedia; apresentou o Vidya Ensemble com caracter  antológico; Sei Miguel, trompete, aventurou-se no arranjo dum ritual  quase esotérico em seitas heterónimas, mítico, de actividade sui  generis; Miguel Azguime, percussão, electronics, computação, ou como  mentor do Miso Ensemble, topologia paralela da actividade notória de  animador duma nova música contemporânea; Tozé Ferreira, infomúsica,  teorizador; Nuno Rebelo, guitarra e miscelânea tecnoinstrumental e  situacionismos funcionalizados; Nuno Canavarro, "technokitsch"; a  tendência emblemática de Paulo Curado; a work in progress de Rodrigo  Amado, verve e retrospecção nos sopros dos Lisbon Improvisation  Players; o trombone da passional Fala Mariam, cumplice do mistério, e  o do plurívoco Eduardo Lala; o ilustre David Maranha, construtivismo,  conceptualismo, dobro, instalação e heterofonia; Rafael Toral,  guitarra, electronics, computação, panóplia de controladores  digitais, protótipos, theremin, projecto space program,  technobricoleur, criador de vulto; Ernesto Rodrigues, veterano  imaginativo em viola e conduçao orquestral; Marco Franco, irénico na  bateria; o distintíssimo Manuel Mota, epígono dum novo subjectivismo,  guitarra, excelente figuralismo, o sublime e a elegância,  especialidade  fingerpicking; o construtivismo instrumental  multimedia de Adriana Sá; o laboratório rizomático Vitriol, com o  protagonismo do eminente Paulo Raposo, incontornável pensador da  diferença, e.a.).

Podemos levantar en passant outras significativas figuras solísticas,  grupais, incidências organigramaticais e  técnicas: (e.g.; Moeda Noise; D.W. Art; António Duarte, electronics; Osso  Exótico; Luís Desirat, Bruno Pedroso, bateria; guitarristas como  Paulo C. Martins, o insinuante Gonçalo Falcão, António Chaparreiro,  Filipe Bonito.; o residente Ulrich Mitzlaff, Rute Praça, Guilherme  Rodrigues, violoncelo; João Paulo, piano; Paulo Galão, clarinete;  Margarida Garcia, Miguel Leiria Pereira, Jorge Serigado, Pedro  Gonçalves, contrabaixo; Karlheinz Andrade & Kromleqs; Américo  Rodrigues, voz e processamento, teatro musical, dinamização cultural  e interarte; Bernardo Devlin, vocalismos; os percussionistas como o  experimentado  e introspectivo José Oliveira em "traps", ou o morato  César Burago, Monsieur Trinité; no âmbito decorrente da informática:  guitarra e ciber-bricolage de Emídio  Buchinho; o incontornável  pensador da diferença, Paulo  Raposo; Miguel Cabral, jogo de tape); o  "info-free" de Vitor Joaquim, Carlos Santos, Nuno Tudela; e/ou o lap  top de, André Gonçalves, Rui Leitão, Miguel Sá,  Ian Ferreira; Nuno  Moita; quase todos desdobrando-se em polimórficas acções em   electronics, video, interacção em tempo real, processing, video  music, computação em live electronic e/ou multimedia) etc...

Houve e há inúmeros textos avulsos sobre a matéria em publicações  periódicos, revistas, catálogos, livros, blogs; n.b. o incansável e  meritório trabalho do  prosélito jornalista/ crítico/operador  cultural Rui Eduardo Paes; esboça-se um círculo de editoras  discográficas dedicadas à especialidade;  organizaram-se festivais ou  eventos de nível internacional, (donde sobressai a persona maior de  Rui Neves) exclusivamente dedicados à nova improvisação, os quais  estimularam esta liberdade estética dos músicos portugueses.

Não podemos descurar as acções interartísticas constantes do  vademecum dos músicos improvisadores - esta seita sempre foi  resgatada por outras artes (e.g. dança, teatro, vídeoarte,  performarte, cinema, instalação, escultura, ambiências e outras  funcionalizações por qualquer motivo cultural); houve poliartistas  arroláveis que apostaram no protagonismo da música improvisada;  consideremos aqui também inserida a categoria do "não-músico" como um  assumido e radiante estigma neo-neodadaísta. (e.g. Ernesto de Sousa, Puzzle,  António Palolo, Rui Órfão, Manoel  Barbosa, Carlos Gordilho, Luís Bragança Gil, Projecto/Progestos,  António Olaio, Francisco Tropa; Pedro Tudela este com atitudes música/performance/instalação; bricolage de José Eduardo da Rocha, Sérgio  Pelágio, René Bertholo; a marginália de Paulo Eno & Objectos  Perdidos; discursos desviados de No Noise Reduction, João Paulo  Feliciano, Albrecht Loops; João Ricardo; na coreografia de Olga  Roriz, João Fiadeiro (teorisador da improvisação na coreografia),  Vera Mantero (vocalise), Paula Massano, Clara Andermat, João Galante,  João Samões, Francisco Camacho; imbrógilo interarte/multimedia, com  José Nuno da Câmara Pereira, Alberto Lopes, Edgar Pera, António Jorge  Gonçalves, Hugo Barbosa, Samuel Jerónimo, Hugo Olim, Joana  Vasconcelos, e.a. que inserem o conceito de música improvisada em  coreografia, performarte, instalação, cenografia, etc.). Alguns  poetas e declamadores líricos e /ou concretistas trabalharam em  interacção coma improvisação musical (e.g. Ernesto M. Melo e Castro,  João Perry, Eugénio de Andrade, Fernando Aguiar, Ana Hatherly, e.a.).

De qualquer maneira está vivo um círculo artístico português devotado  à nova improvisação musical.

Jorge Lima Barreto

 
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira