MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
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2003-2008
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JORGE LIMA BARRETO
MANIFESTO XXI
por Jorge Lima Barreto

Situação da ideologia da música portuguesa de hoje - é  como abrir o  ovo ofegante do sapo, bola translúcida peganhenta institucional,  fluido ranhoso conservatório e de escarro neo universitário premiado,  a envolver um feto fétido clonado de sapinho star. propaganda  mediática sine sapore, projecto anacoico condecorado.

viva a nova música portuguesa viva!!!

No que respeita à Música Portuguesa de Hoje, a inventio, o  experimentalismo, as novas concepções tecnosociocomunicativas, i.e. a  abertura a futuros horizontes, são preteridos e desviadas por  técnicas mercantis espectaculares, subjugadas à ideologia  museomórfica, ampliadas no regime de alienação cultural nos mass  media, especialmente na TV, com quedas para o abismo perfunctório -  sincronicamente há,  no entanto, o imune duma maravilhosa  criatividade interveniente e construtiva da História da Música  Portuguesa (historicamente ilustrada por Carlos Seixas, Viana da  Mota, Luís de Freitas Branco, Lopes Graça, Peixinho, Filipe Pires,  Emmanuel Nunes, Emanuel Dimas Melo Pimenta, Pinho Vargas, João Pedro  Oliveira, e.a.) ...

A Nova Música dos compositores, dos compositores-intérpretes e dos  intérpretes portugueses é sufragada pelo poder dos musoburocratas e  circunscrita aos arranjinhos dos operadores culturais.

Os laboratórios para a investigação electroacústica e cibernética da  Música são inexistentes, ou  tímidos e privados focos de resistência  com pálida imagem económico-financeira, ilustres desconhecidos lá  fora e esmolando alvíssaras cá dentro.

O Estado é o maior responsável pela afirmação da Cultura Portuguesa,  o garante das suas identidade e independência; porém. a guerra  esteticamente autofágica - alternativa entre os partidos políticos os  e seus aliados de ocasião, ao ignorar o situacionismo da Música, é  culpada da sua decadência; a política cultural, pontificada por um  regime intelectual e artisticamente irrelevante,  sem saber,  bombardeia e censura o livre devir da Arte dos Sons, com efeitos  colaterais irreparáveis.

Muitos músicos, talentos da criação interarte e com provas dadas  internacionalmente, apenas por estrita sobrevivência individual e/ ou  social, funcionalizam a sua actividade profissional ao gosto, na  maior parte das vezes fútil,  de encenadores, coreógrafos, cineastas  ou capatazes do espectáculo; uma aventura alegadamente pósmoderna,  limiar que põe em risco a autonomia da Arte.

Os aparelhos ideológicos votam a arte musical ao isolamento; a  política do liberalismo, dita "cultural ", elege em sórdidos  escrutínios, a galhofa, a bricolagem e a falsa sumptuosidade; a  parasitose empresarial e industrial, caucionada pelo Governo,  exorciza a criatividade não- rentável.

O projecto terrorista da globalização insinua-se nos médias (rádio,  disco, TV ) injectando subprodutos da  propaganda audiovisual, reduz  a música à sua própria publicidade, esbate-se o brio nacional; o  rosário de genuflexões dos operadores culturais portugueses ao que é  estrangeiro denuncia a eleição do aparato, desculpada pela  gratificação do ego americanizado.

Uma estratégia tentacular consolida-se nos palanques da festa  multinacional, no sururu dos lobbies, na aparência do regionalismo e  do  nacionalismo; obsoleta e alienada das verdadeiras necessidades  dos músicos portugueses de hoje (compositores e/ou intérpretes),  superintende pequenas prestações musicográficas, rede historicista e  tarefeira ampliada em jornais, dicionários & outras publicações.

O rito das músicas planetárias é manipulado por uma teoria  tecnocrática com laivos de mixórdia cultural -  assim se passa na  discoteca, altar da hipnose aeróbica, habitat da alienação, da  demissão social e da megalomania do ego transviado. Consequentemente, músicos e operadores culturais com espírito  independente, que pretendem prosseguir na invenção tecnológica, na  originalidade técnica e na genuinidade estética não encontram apoios  económicos e afectivos, necessários à concretização da sua arte.

A cumplicidade de editores, divulgadores e organizadores dependentes  dos senhores da banca e dos media, coisifica a arte musical  portuguesa - faz-lhe um aceno hipócrita,  mas,  impõe em grande  escala o consumismo compulsivo do pseudoartístico, destila a  permanente inovação das músicas do mundo e a proliferação de  encontros epifânicos da música portuguesa com as mais variadas  tipologias, do salsa à electrónica.o reino da mescla.

A invenção musical é esganada pelos interesses das multinacionais do  disco, na rádio e na TV, diluída no miasma da NET, e assombrada por  uma obsoleta musicologia de gabinete, que decreta o desaparecimento  da identidade da Música Portuguesa, como ousou sonegar os Lusíadas,  Eça,. (fomenta uma falsa luta pelo tradicional, para gáudio  capitalista no share de audiências; dispensa a preservação da espécie  ou recupera-a como uma falácia, degradação cultural epitomisada no espectáculo: arremedos, plágios, regurgitações da Amália, Menano,  Marceneiro, Zeca, Paredes.).

Subsidiam-se os observadores da criação musical ad lib - viagens,  bolsas, salários chorudos para administradores, mais-valia das  vedetas do corriqueiro, de descarada conotação politiqueira, comendas  paródicas, e.a., sonegando a criatividade, a necessária interacção  artística nacional e internacional.

Os eventos musicais via TV na sua  maioria não têm qualquer originalidade, são modelos, pacotes  empresariais, ruminações estéticas, olhares retrospectivos,  liberalismo licencioso a aparentar o erudito, o jornalismo musical  (imprensa, rádio e TV) é na generalidade rebarbativo, traditor,  comprometido no seu pequeno mundo de vaidade e interesse súbdito  multinacional; a Música Portuguesa de Hoje  é nas diversas vertentes  mal - protegida, tida como  zona demarcada minoritária e sem  rentabilidade; impondo-se o mercado estúpido de massa; a musicologia  e a praxis estão minadas pela presunção e o pasmo, sobretudo  cúmplices dum processo comercialóide.

Como alegadamente vivemos em democracia, o cantor de protesto,  promiscuído no estocástico  tacho, não encontra razões para resinar -  berloque trasladado para a lufa-lufa do biscate nos media, de 
preferência com rhythm section do "jazz".

Os impostos (IRS, IVA, CIA, autárquicos, S.S., i.e. segurança  social, a taxa  sobre instrumentos, livros, discos, partituras,  vídeos, e outras leviandades do fisco) pesam impiedosamente sobre os  autores, músicos, cidadãos culturalmente produtivos que vivem o  quotidiano -  há a ter em máxima consideração  as simples questões de  alimentação, alojamento, acrescido dos custos nunca remunerados de  trabalho criativo (e.g. compor, tocar, ensaiar, escrever, ler,  estudar; adquirir  hardware para o seu trabalho) - enquanto as  vedetas da "estupidez em dó maior" (ápodo atribuído por Jorge  Peixinho) e os seus padrinhos ostentam sumarentas contas bancárias,  tipo lux-vivenda & chofer & iate & avioneta -  pluma sintética de  avestruz, surda cabeça enterrada na areia; embargo  sem o mínimo  conhecimento e /ou audição de música decente; idolatria de religião  feiticista / peep show; o kitsch, o socialmente imoral e o  artisticamente ignóbil.

A indústria da cultura aventada como um valor de troca capitalista  visita as catacumbas do irrisório, no limiar da pornofonia;  funcionaliza a música ad extremis, em passarela da moda, telenovela,  talk show, ou decoração desportiva; esgar terceiro- mundista ressuma  a catinga, faz-se vedeta virtual, mostra a face do senso comum,  protege a aparência da criatividade; é papona e paranóica ao vomitar  a música aparvalhada.

A ópera, que na sua veracidade era cantada pelo povo, é para o  contribuinte um dispendioso mamute que se destina ao yuppie e ao  espavento bilheteiro e mecenático da classe média e/ou da pseudo-aristocrática, de consequência eruditona. O conservatório reitera a conserva; a programação clássica  espectacular é sectária, nivela o anódino e o genial; o catálogo  confunde o simulacro com o ícone.

Comecemos pelo que nos é dado ouvir, em disco e/ou ao vivo: Não querendo fazer uma compilação de questões de rescaldo do final do  século anterior, pensamos ser oportuna uma pequena observação sobre o  situacionismo da música em Portugal, especialmente referenciando a  sua divulgação e o seu regime de criatividade.

O nível dos nossos festivais é no critério estético, deveras coerente  tendo em conta a exiguidade de meios financeiros e estratégicos para  o levantamento de acontecimentos culturais de tal monta. Concertos  episódicos de artistas portugueses e internacionais magnificaram as  programações de algumas instituições. Vulgarmente, um discurso estereotipado é extrapolado por alegorias  nacional-regionalistas, ou então miscelânea epigonal relativa à  lusofonia, o dejá vu etno- promocional desfraldando a bandeira da  "música portuguesa".

Sabemos muito bem que Portugal é a única nação europeia onde a Música  não faz parte das disciplinas do ensino primário e secundário. Na escolástica, os tirocinantes são predestinados na generalidade dos  casos à servidão na TV e escarrados na música ligeira; em  departamentos da musicologia oficial, a criação é  produto  ideológico, conceito etnomusical espúrio, incumbência de aprendizes,  tratado sem consciência estético-cultural, serve quando muito para  preparar operadores e críticos nos media, sem grandes perspectivas  neste campo praxiológica, histórico e sociomusical.

Em Portugal - na imprensa, na rádio e na TV, fundamentalmente nos  espectáculos ao vivo - a divulgação da Música de Arte foi  progressivamente massmediatizada e conheceu conspícuos produtores,  independentemente da incontornável polémica. Na imprensa há um punhado de críticos; uma bibliografia que é  escassa, isolada e sem qualquer apoio á sua tradução tão necessária.

A  pedagogia é tepidamente administrada por alguns peripatéticos,  mentores classicistas, neomodernistas e in extremis alegados  vanguardistas; fulcros da perpetuação do conhecimento paralógico  da  música; o sentido persistente da educação e preparação de  compositores e intérpretes - o Ministério da Cultura, que tem  obrigação de apostar neste tópico musical não procede para favorecer  o seu progresso, não implementa o curriculum interactivo  internacional -  pelo contrário dá alento à mais-valia pimba, contra- reforma piscando o olho à populaça e benzendo a corruptela "cultural"  nos media.

Ignorando o Mundo da Música, exulta-se a infracultura; barbaridades  género touros de morte, cumplicidade com assassinos de massa, TV  Shows, sionismo, derrames de grude, mafia, rebarbativa mea culpa  colonial, cóboiada, cartoons maometanos, militarismo made in USA,  logos piroso e terrorista, tonitruante míssil genocida.

A produção dos músicos portugueses é  esteticamente irregular, com  abrasonadas edições ao vivo ou em disco, despontou uma nova e  generosa geração de compositores/intérpretes a qual sobrevive à  míngua da institucionalização político-administrativa da música, nas  sombras da mendicância e da incompreensão; o laudatório inter pares  distrai a necessidade duma luta contínua pela Arte musical, impedida  na sua  sociocomunicação, arredada pela mediocracia, enganada por  estratégias meritocráticas, censurada pelo convencional e execrada na  sua possibilidade de realização prática; sancionada estatalmente pelo  alibi da exiguidade de meios financeiros, aventada  por um regime  cultural perdulário votado ao provinciano e à rememoração  festivaleira de santinhos & 25 de Abril; no que respeita ao Jazz, é  uma aparência, conjunto de estereotipos, é uma fasquia vistosa da  pequena burguesia populista, rosário de clichés  a penhorar a "antiga  senhora negro-americana", sem fazer nada de melhor ou actualizador.

Safados musoarcanos, portas fechadas à criatividade musical num  tempo inopinado - a acção de compositores, intérpretes e  compositores/ intérpretes, (interarte, considerando a privilegiada  relação da Música e a poesia portuguesa) - reivindica a Música  Portuguesa Viva e o conceito prospectivo como Obra Aberta é um  projecto futurista e triunfal.

Em Portugal, a Música  está, como no título do filme de Pierre  Brasseur, em "situação desesperada mas não grave".

A Arte Musical está sempre avançada à artimanha política - a sua  pluralidade espectacular e imaginária é a superação do senso comum  totalitário e globalizante; utopista, realiza na própria beleza a  verdadeira democracia; reúne todos os povos no prazer universal;  inventa um enlevo dialéctico e sentimental com a tecnologia; dissipa  qualquer preconceito racista, nacionalista ou imperialista -  sobretudo, MÚSICA é significado de PAZ e AMOR.

Jorge Lima Barreto

 
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira