MELOTECA SÍTIO DE MÚSICAS E ARTES
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JORGE LIMA BARRETO
JORGE PEIXINHO
INTEGRAL PARA PIANO SOLO
por Jorge Lima Barreto

A publicação do CD duplo da obra integral para piano solo  de  Jorge Peixinho é da maior importância para a documentação histórica  da Música portuguesa de todos os tempos. O disco é editado pela Numérica, coordenado por Manuel Dias da  Fonseca, produção de Fernando Rocha. Foi patrocinado pela Câmara  Municipal de Matosinhos, então presidida por Narciso Miranda, que  escreve uma introdução louvável.

A gravação é de excelente qualidade, e o talentoso intérprete Miguel  Borges Coelho atinge um grau de elevadíssimo preciosismo e de grande  entendimento de uma música de intrincada escrita, de ousadias  experimentalistas  e de lirismo raro; é a filosofia da  pura arte de  tocar.

No "booklet" figura um texto de Cândido Lima, opus maximum do autor, de  fino recorte biográfico e numa exposição teórica soberana.

Peixinho faleceu em 1995 sem comendas nem estátuas pois a sua postura  social pautava-se por uma total dedicação ao trabalho artístico e era  indiferente a engodos meritocráticos dos inquilinos da cultura; foi  sempre um lutador incansável pelo progresso e por uma nova expressão  artística.

Teria  sido Jorge Peixinho o compositor a criar uma verdadeira  clivagem entre a modernidade e a vanguarda, tendo-se voltado para  propostas intersemióticas - trabalho com diferentes materiais,  atitude revolucionária para a música portuguesa, sobre todos os  pontos de vista. Numa constante atenção às vanguardas e num prodigioso conhecimento da  Arte em todas as suas manifestações, sincrónicas e diacrónicas. Ele foi o desencadeador e o profeta da pósmodernidade na música  portuguesa. Um saudoso mestre, só pela sua actividade pedagógica Peixinho  transformou decisivamente o regime estagnante que vigorava então e  abriu as portas à liberdade criativa. Como pianista de música contemporânea mantem-se até hoje  inultrapassado, o mais excelente e avançado de todos os executantes  portugueses.

O texto que se segue procura dar a conhecer esta série de trabalhos  da literatura pianística de Peixinho, não como uma crítica, que seria  inopinada, nem como um conjunto de sinopses teóricas, magistralmente  redigidas pelo Cândido Lima - a arte de Peixinho exige mais que uma  definição acústica e formalista, e prescinde da filiação de génese,  relato de influências. Este artigo é dissenção mais que assentimento, foi escrito como uma  poética da fruição. Nesta integral para piano solo revela-nos de forma plena as suas  diversas atitudes estéticas.

Muito embora o sentido modernista da sua clivagem estivesse arreigada  na estética serial, as suas "5 pequenas peças para piano", de 1959,  embebidas de teorias webernianas, seriam dos primeiros marcos na  música contemporânea portuguesa; construção avisada de objectos  sonoros definidos por uma realidade tímbrica inusitada.

Em 1961 estabeleceu estratégias de improvisação sobre texturas  seriais em "Sucessões Simétricas", que são um estudo sobre a  intuição do instante, proposição agógica muito pessoal, numa escrita  quase geométrica, ansiosa recherche de novas gramáticas que então  surgiam desde o neo serialismo. A nota está ligada a uma potência  superior; arrumada em clusters ou blocos de sons, som/objecto  interrupto, de doçura murmurante.

Nos "estudos I" e "II", de 1969 e 1972, respectivamente, exibe-se a  transgressividade do seu estilo caprichoso, sublime, inebriante -  afirmação duma escrita rigorosa, fértil em minúcias, tratamentos  timbrícos específicos e invenção de  substâncias sonoras que abrem  novas perspectivas à música para piano. Corte rizomático perfumado de  melodias incrustradas como gemas. O recurso interpolado às cordas do  piano na segunda peça, propõe uma das técnicas superlativas do  compositor.

O "estudo III", de 1976, com base tonal em si bemol maior, é  heteróclito, mostruário hipertextual, memória de uma presença  ausente, tecida com materiais resistentes em contraste com formas  fluidas, formigando de inclusões. São refracções sonoras  em  turbilhão e a sua repartição no espaço.

"hamónicos I", de 1967, como que prevendo a corrente espectral,  organiza-se como um código Morse espasmódico, com intensidades pré-orgásticas - o descontínuo pela reapropriação de tempos memorativos,  registados pelas experiência e erudição. Cristais transparentes  envolvidos numa textura gazosa, opulenta, plena de dignidade e  reserva; trémulos que cintilam num fundo percussivo discreto.

"Red sweet tango", de 1984, e "villalbarosa", de 1987, são obras  embora distintas com certos pontos comuns: uma filigrana emocional,  tendência modalista, numa conjugação global estético-geográfica. Mais  hiperrealsita que neorrealista, adopta a glosa, a entidade melódica  heterónima, o subjectivismo nómada; ginásio do desejo, gesto lascivo,  evocação da dança mundana.

"Die Reihe Courante", "estudo V", de 1992, concilia o  irreconciliável, a série (die reihe) e os automatismos classicistas;  acentuações fugazes, métrica evanescente pelas suas periodicidades  subliminares e não-lineares..A paleta é tão deslumbrante quanto  imprevista, recursiva de inspirações enigmáticas. Multidão de  pequenos sóis criando no cosmos um séquito de eclipses.

"Glosa I", de 1989/90, consiste em próteses sonoras, como no discurso  do artesão, atingindo uma gestão aleatórea;  reapropriação do tempo,  desenhado sobre padrões de retorno, polinização fraseológica e  hibridação estilística. Recorre á profundidade, à luz coada por mil  facetas e ângulos.

"in Folio", de 1992, é dedicada à malograda compositora Constança  Capdville, que foi cúmplice em muitas aventuras de Peixinho. Propoe a  circularidade do discurso; são parâmetros substanciais sobrepujados  por uma enorme libertinagem que metaforiza o afecto, o sentimento. O  vocabulário é persistente, firme, a frase poética sobrepuja a  glossolália. Uma certa condição esquizo anima as referências  saudosistas a episódios da história da música, como que em cada beijo  nos oferecesse todo o amor.

Uma peça de grande significado é "janeira"- temperamental, como que  à beira do colapso do sistema tonal, profusão de oscilações, reptos  maneiristas, hiato entre o que é tradicional e aquillo que é  futurista; aeróbica, cadinho de sínteses temáticas, também neo-subjectivismo; formalização particular, enuncia a liberdade do  intérprete na medida em esta só é possivel se as estruturas pré-estabelecidas se impuserem - flocos de neve cristalinos sob uma  nebulosas de timbres; ponto zero duma investigação interdisciplinar,  apanágio das ciências cognitivas.

Obra-prima, "nocturno", de 1992, é texturalmente concebida como uma  tapeçaria luxuriante, de cariz pós-romântico, caracteriza-se pelo  "pathos" ultracromático, minúcias de onanismo, ao sabor de um tempo  psicológico e no limiar da simulação de linguagens passadas e  forâneas, retalhadas por interjeições vanguardistas. Magestática  e onírica, gama de emoções, clamor de poeta.

Chamava à sua criação "música de Arte", como realização de práticas  e proposição de conceitos, fruto da sua vasta erudição. A sua música é obra aberta, transparente e radiosa, solar,  iluminada, animada pela mais elegante vivacidade - a poesia corre  fluidamente, água límpida onde nadam mil peixinhos, transporta-nos ao  sonho e eleva o nosso imaginário ao encantamento -  foi o maior  compositor português do século XX, senão o maior músico lírico de  todos os tempos.

Lisboa, Setembro

Jorge Lima Barreto

 
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira