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2003-2008
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JORGE LIMA BARRETO
EÇA E OFFENBACH
por Jorge Lima Barreto

"Eça de Queirós e Offenbach", subintitulado paradoxalamente "a ácida  gargalhada de Mefistófoles", é o último livro de Mário Vieira de Carvalho.

O discurso é altamente sistematizado e recorre a uma terminologia  sofisticada da sociocomunicação da arte. Quem leu os livros e ensaios anteriores deste autor tudo se torna  tão inteligível e fluído como aliciante e surpreendente - uma escrita  admirável no seu rigor, uma qualidade heurística e hermenêutica sem  par na nossa musicologia e nosso ensaísmo literário; formidável pelo  seu objectivo intersemiótico da literatura (Eça) e da ópera (Offenbach). Para quem leu as páginas queirosianas por certo terá passado  despercebida a influência, o entrosamento estético, o logos político-social, o imaginário caricatural - o que aqui é tido em conta de forma  erudita por Mário Vieira de Carvalho.

Em primeiro lugar somos levados a considerar que Eça foi  determinantemente influenciado por Offenbach duma forma estética e  política, sendo que a ironia e o sarcasmo, sempre felizes, atravessam  todo o texto de Mário Vieira de Carvalho, na toada da ópera bufa e da  verve queirosiana.

O autor recorre a montagem sintagmática e, tentaremos fazer  brevíssimas sinopses dos seus seis artigos.

O primeiro enunciado é "música e crítica na colaboração de Eça de  Queiroz para a Gazeta de Portugal e o Distrito de Évora"- onde Eça  define a música como "doce ruído inefável"; denuncia a função de  entretenimento, decoração e etiqueta desta arte na vida portuguesa; e  reclama o "livre espírito e a anarquia individual" contra o "gosto  oficial como dogma intelectual".

O segundo ensaio "Eça de Queirós e a ópera no século XIX em  Portugal", Vieira de Carvalho está no seu terreno preferido. O Teatro de S. Carlos continua como a personagem cooptada na  resconstituição da época lisboeta no período de rotura estética do  romantismo para o realismo. No S.Carlos verifica-se a eficácia do  passeio público e a exibição do eu; como tese original do autor, aqui  o espectador denota o "duplo alheamento, i.e., alienação da realidade  e da acção musico-teatral. Em S.Carlos, segundo Eça, cantava-se em  italiano nos outros proscénios lisboetas "gania-se em português".

Também num cenário doméstico de "O Primo Basílio" a criada  Juliana cantarola "a carta adorada" da opereta "Grã Duquesa" de  Offenbach e, a patroa num excesso de feliciade atira-se a uma ária de  ópera italiana. Para Eça a arte de Offenbach é filosofia cantada, gargalhada que  prepara a ruína do velho mundo burguês.

O terceiro capítulo "da música absoluta ao couplet de Offenbach"  confronta o couplet , canto estrófico de natureza humorística da ópera  bufa, com o conceito de música absoluta, própria do estilo clássico  da forma sonata, que "exprime o inexprimível". Maria Eduarda é uma personagem queirosiana viajada e  "estrangeirada" senta-se ao piano a tocar Mendelssohn, Chopin ou  Beethoven; não vai ao S.Carlos(onde de instalou o bel canto e a  herança teatral de Garrett). "A tragédia da rua das Flores "começa no Teatro da Trindade  durante a audição duma récita de "Barba Azul" de Offenbach - há um  homomorfismo entre a destruição irónica de valores perpretrada na  ópera bufa que põe a descoberto os seus artifícios dramáticos e  cómicos eo romance de Eça que torna explícitos os artifícios  literários, exibe a construção teatral e o realismo de raiz cómica.

No quarto texto "romance como offenbachiada:um exemplo de  intertextualidade entre a música e a literatura" - Eça, nas  Conferências do Casino, propusera o realismo como o gesto de  mostrar, não no sentido da verosimilhança, como em Zola, mas como  efeito e sintagma de realidade.Se a realidade é de opereta só a  opereta pode representá-la. A foto acaba em caricatura na eficaz desmontagem de lugares comuns  nas estratégias épicas e narrativas comuns a Eça e Offenbach.

O quinto capítulo intitulado "a música e o cosmopolitismo da  capital: uma aproximação a Eça de Queirós em diálogo com Walter  Benjamin "cita-se o pensador alemão ao mostrar "não a origem  económica da cultura, mas sim a expressão da economia na cultura" -  desta feita, Eça e Offenbach propoem o conceito de artista vagabundo  que observa a vida transformada em mercado, que reconstitui a aura  como conteúdo de representação,que suscita um espectador crítico  ou  um leitor activo.

Curiosíssima é a sexta temática "casos e figuras do universo musico-teatral queirosiano" - o compositor Augusto Machado, tendencialmente  germanófilo e, mais, wagneriano,teria inspirado a figura de Cruges em  "Os Maias". O entusiasmo do conselheiro Acácio pela ópera de  Gounot, num nacionalismo descarado teria sido motivado pelo êxito do  "Fausto". Mário Vieira de Carvalho põe em confronto a teoria de Karl  Kraus da "caricatura da subserviência como gesto social"; expõe o  anticlericalismo queiroziano; descobre no romance de Eça a presença  indelével de " A Grã Duquesa de Gérolstein" em "A Capital!" ou em "O  Primo Basílio"  ou do "Barba Azul" em "A relíquia".

Em adenda,uma alusiva colheita de partituras de composições citadas  no escopo - embora sem qualquer configuração teórica excepto a  citação de Carl Dahlhaus sobre a desconstrução do pathos baseado "na  repetição da tónica como acentuação " para conotar que, em "os  Maias", Carlos sabe da boca de Ega que Maria Eduarda é sua irmã - a  revelação do incesto,que seria o pathos, é repetidamente interrompida  pelo Vilaça que anda à procura do chapéu. As ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro sobre o tema da ópera bufa  de Offenbach abrem espaço à ironia, à sátira demoníaca (sic), ao  espírito libertário e à inventio comum ao texto de Eça.

Jorge Lima Barreto

 
TOPO
 
 
Criado e desenhado por António José Ferreira